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Multidão exige saída imediata de Mugabe

Victor Carvalho

Cerca de 500 mil pessoas exigiram ontem nas ruas de Harare a saída imediata de Robert Mugabe do poder, naquela que foi uma das mais participadas manifestações populares até agora realizadas no Zimbabwe.

Marchas foram convocadas por organizações civis, união sindical e a influente Associação dos Veteranos de Guerra, com o apoio dos militares
Fotografia: Jekesai Njikizana | AFP

Os populares concentraram-se na baixa da capital zimbabweana e marcharam depois em direcção à sede do Governo, onde foram travados por um aparatoso cordão de segurança formado por militares, não havendo notícia da ocorrência de qualquer tipo de incidente.
Fonte da ZANU-PF, contactada desde Luanda pelo Jornal de Angola, disse que o partido no poder está a acompanhar com “muita atenção” o desenrolar dos acontecimentos, em especial o aumento da onda de contestação ao Presidente Mugabe e sublinhou que está prevista para esta manhã uma reunião de emergência de onde poderão sair algumas “decisões importantes”.
Sem adiantar pormenores, a fonte garantiu que não está em causa a liderança de Robert Mugabe, mas recusou admitir que o mesmo se passa em relação a Grace Mugabe, actual presidente da liga feminina da ZANU-PF, e aos três ministros que se encontram detidos na residência oficial do Presidente, havendo mesmo fortes possibilidades de virem a ser expulsos do partido.
A mesma fonte admitiu como forte a possibilidade de nesta reunião poderem vir a ser tomadas decisões suficientemente fortes para colocar um ponto final na actual situação de impasse político.
Ontem, o padre católico Fidelis Mukonori, eleito pelos militares para mediar uma saída para esta crise, esteve particularmente activo, desdobrando-se em viagens entre a residência oficial de Robert Mugabe e o Estado-Maior do Exército, onde se encontra o general Constantine Chiwenga, líder dos militares que actualmente controlam os centros de poder.
No essencial, o padre Fidelis estaria neste momento a mediar as condições exigidas por Robert Mugabe para que a sua família possa abandonar o Zimbabwe em segurança. Esta é, seguramente, uma das principais exigências de que Mugabe não abdica para que possa depois admitir a possibilidade de negociar a sua saída do poder antes do fim do seu mandato, que expira dentro de aproximadamente três meses.
Oposição desmente subida ao poder
Uma fonte muito próxima do líder do principal partido da oposição, Morgan Tsvangirai, igualmente contactada desde Luanda ao telefone pelo Jornal de Angola, desmentiu que o antigo primeiro-ministro zimbabweano tenha sido convidado pelos militares para integrar um suposto governo de unidade nacional, conforme havia sido ontem sugerido por alguma imprensa da África do Sul.
De acordo com essa fonte, Tsvangirai não tenciona entrar num governo imposto por militares, embora reconheça que é tempo de Robert Mugabe partir para um “merecido descanso” depois de quase 40 anos no poder.
A imprensa sul-africana divulgou ontem uma notícia a dar conta da intenção dos militares darem posse amanhã a um governo de unidade nacional que seria presidido por Emmerson Mnangagwa e incluiria, entre outros, Morgan Tsvangirai e Joyce Mujuro, antiga Vice-Presidente da República que viria a ser demitida na sequência de graves desentendimentos com Grace Mugabe.
Este improvável “governo”, ainda segundo a imprensa sul-africana, teria um mandato de cinco anos.
O Presidente Robert Mugabe rejeitou categoricamente, quinta-feira, renunciar ao poder que exerce há 37 anos no Zimbabwe, após discussões com os generais que assumiram o controlo da capital, Harare, numa acção sem provocar vítimas, até agora. A negociação está a ser acompanhada por um padre católico, convidado como mediador.

                                            Optimismo moderado de Jacob Zuma sobre “solução amistosa”
O Presidente
da África do Sul, Jacob Zuma, demonstrou ontem o seu “optimismo prudente” sobre uma “solução amistosa” para a crise política e militar no Zimbabwe, onde os militares mantêm o Presidente Robert Mugabe em regime de prisão domiciliar.
Zuma considerou que as reuniões que os seus enviados tiveram com Mugabe e as Forças Armadas zimbabwenas foram “frutíferas”, de acordo com uma nota divulgada na conta de Twitter do Governo sul-africano, que destaca que o Presidente reiterou o seu “compromisso de apoiar o povo do Zimbabwe durante este difícil período”. Além disso, na sua condição de presidente da organização regional da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), Zuma realçou o interesse em manter “a estabilidade e a paz na região”.
“O Zimbabwe é um membro fundamental da nossa comunidade regional”, acrescentou e destacou os “laços históricos, económicos, culturais e familiares” da África do Sul com o país vizinho.
Sobre a intervenção militar, o Presidente sul-africano reiterou que a SADC apoia as normas da União Africana (UA) contra as “mudanças anticonstitucionais de governo” no continente e lembrou que todos os seus membros devem reger-se pelas suas cartas magnas.
Esta postura da SADC e da União Africana faz com que as Forças Armadas continuem a negar a ocorrência de um golpe de Estado, enquanto negociam com o Presidente uma renúncia.
Enquanto isso,  o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, disse que os zimbabweanos devem “eleger os seus governantes” por meio de eleições democráticas. “Devemos trabalhar juntos para um rápido regresso a um poder civil no país de acordo com a sua Constituição”, afirmou Tillerson, à margem de uma reunião com chefes das diplomacias da União Africana, realizada na sexta-feira.

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