Mundo

Mundo responde em força aos apelos de ajuda ao Líbano

A comunidade internacional começou a responder em força ao apelo de ajuda feito, terça-feira, pelo Primeiro-Ministro libanês, Hassan Diab, após as duas explosões registadas em Beirute, que provocaram, pelo menos, 135 mortos e mais de cinco mil feridos.

Mais de duas mil toneladas de nitrato de amónio estavam armazenadas no porto de Beirute
Fotografia: DR


As garantias de ajuda, que se juntaram às mensagens de solidariedade, vieram de grande parte dos países da União Europeia, Rússia, China, Estados Unidos, bem como do mundo árabe, estando em curso as operações de transporte, desde hospitais de campanha a equipamentos médicos, pessoal sanitário e medicamentos, a alimentos de primeira necessidade.

A China lamentou o “incidente infeliz”, expressou solidariedade e prontificou-se a ajudar o Líbano, “dentro das possibilidades” de Pequim.
A Alemanha, cuja Embaixada em Beirute ficou danificada pelas explosões, indicou ter pronta, para enviar para a capital libanesa, uma equipa de resgate de 47 membros, tudo dependendo de uma autorização do Governo libanês.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, desloca-se, hoje, ao Líbano para “encontrar-se com todos os actores políticos”, enquanto o Primeiro-Ministro gaulês, Jean Castex, garantia que, ainda ontem, partiriam para Beirute três aviões com equipas médicas para intervenção imediata, 25 toneladas de material e outras de segurança do Ministério do Interior.

A Rússia prontificou-se a enviar cinco aviões de carga com ajuda de emergência para a capital do Líbano, pessoal médico, hospitais de campanha e um laboratório para testes de SARS CoV-2.
A UE prepara o destacamento urgente de meios para ajudar as autoridades libanesas, estando, para já, a coordenar o destacamento urgente de mais de 100 bombeiros altamente treinados, com veículos, cães e equipamento, especializados em busca e salvamento em contextos urbanos. Os meios disponibilizados por Bruxelas, depois da activação do Mecanismo de Protecção Civil da UE a pedido de Beirute, irão trabalhar com as autoridades libanesas.

O Executivo comunitário destaca, ainda, que Holanda, Grécia e República Checa confirmaram a participação nesta operação e que França, Polónia e Alemanha ofereceram ajuda. Portugal também se disponibilizou a apoiar, dentro dos mecanismos dos 27.
Chipre, localizado 180 quilómetros a oeste de Beirute, também anunciou, ontem, o envio de dois helicópteros, com 10 especialistas em emergência médica e oito cães especializados em encontrar sobreviventes entre os destroços dos muitos edifícios destruídos, bem como alimentos não perecíveis.

O mundo árabe começou, terça-feira, a garantir o envio de hospitais de campanha, pessoal médico. O Qatar anunciou o envio de um avião com 40 toneladas de equipamentos sanitários, a partir de um centro logístico das agências das Nações Unidas e de organizações humanitárias internacionais que instalou no emirado. Segundo a agência de notícias oficial, o Qatar estabeleceu uma “ponte aérea” até Beirute para enviar, nos próximos dias, “todas as ajudas e equipamentos médicos necessários”, enquanto o Koweit também indicou que vai transportar para a capital do Líbano “ajuda médica urgente para os irmãos libaneses”.
A Jordânia disponibilizou-se a enviar um hospital de campanha militar e declarou três dias de luto oficial em memória das vítimas da explosão que destruiu bairros inteiros em Beirute.

O hospital de campanha, que chega hoje à capital libanesa, está totalmente equipado para realizar operações a cargo de 160 profissionais de saúde de todas as especialidades médicas. Inclui 48 camas, dez de cuidados intensivos, blocos operatórios e laboratórios de raio-X.
Também o Irão, o país do Médio Oriente mais afectado pela pandemia do novo coronavírus, se mostrou disponível para enviar assistência médica e qualquer outro tipo de ajuda.

Na Oceânia, a Austrália indicou que vai doar dois milhões de dólares australianos (1,2 milhões de euros) em ajuda humanitária para auxiliar Beirute a recuperar dos danos das violentas explosões de terça-feira.
Vários líderes africanos enviaram mensagens de condolências e solidariedade, com a Tunísia a afirmar estar disponível a receber cerca de uma centena de feridos e a garantir o envio de dois aviões militares com ajuda médica e alimentar.

Origem das explosões

Duas fortes explosões sucessivas sacudiram Beirute na terça-feira, causando mais de uma centena de mortos e cinco mil feridos, segundo o último balanço feito pela Cruz Vermelha, que refere que os números podem aumentar, uma vez que as equipas de socorristas “continuam as operações de busca e salvamento nas áreas circundantes”.
As violentas explosões podem ter tido origem em materiais explosivos confiscados e armazenados há vários anos no porto da capital libanesas.
O Primeiro-Ministro libanês revelou que cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio estavam armazenadas no depósito do porto de Beirute que explodiu.
As explosões destruíram ou danificaram vários edifícios da capital do Líbano. O país já enfrentava uma grave crise económica e social.
Várias horas depois das duas fortes explosões que abalaram Beirute, ainda se podia ver fumo a sair da zona do porto.
A violência das explosões foi tal que os sensores do United States Geological Survey registaram-nas como um terramoto de magnitude 3.3 na escala de Richter e chegaram mesmo a ser sentidas no Chipre.

Responsabilização de culpados

O Primeiro-Ministro libanês, Hassan Diab, sublinhou, ontem, que o país vive uma “verdadeira catástrofe” e reiterou a promessa que já tinha feito, na terça-feira, de que vai punir os responsáveis pelas explosões.
O nitrato de amónio é um fertilizante químico e componente de explosivos.
O nitrato de amónio estava há seis anos no armazém no porto de Beirute e não era alvo do controlo e verificação que se exigia para um material tão perigoso, algo que foi revelado por Diab.
“É inadmissível que um carregamento de nitrato de amónio, estimado em 2.750 toneladas, estivesse há seis anos num armazém, sem medidas de precaução. É inaceitável e não podemos calar-nos sobre esta questão”, disse o Primeiro-Ministro libanês ainda durante a reunião do Conselho Superior da Defesa.
Horas depois, Donald Trump apontava noutra direcção e sugeria que as explosões tinham sido causadas por uma bomba. “Eu falei com os nossos generais e parece que não foi um acidente industrial. Parece, segundo eles, que foi um ataque, uma bomba”, disse o Presidente dos Estados Unidos em declarações aos jornalistas.

  Um país mergulhado em crise

As duas explosões que atingiram Beirute aconteceram num momento difícil para o Líbano. O país enfrenta a pior crise económica das últimas décadas. Está em ‘default’ (incumprimento de pagamentos aos seus credores).
No final de Abril, o Governo libanês adoptou um plano relançamento económico e prometeu reformas, mas as negociações com o Fundo Monetário Internacional para conseguir ajuda financeira estão paradas. Como se isso não bastasse, o país está mergulhado numa crise social e de instabilidade política. Desde Setembro do ano passado, é palco de sucessivos protestos públicos.
Na terça-feira, antes das explosões, um grupo de manifestantes tentou tomar de assalto o Ministério da Energia devido aos frequentes cortes de energia no país, à beira do Mediterrâneo. A tentativa de invadir a sede do Ministério da Energia foi travada pela Polícia, o que gerou confrontos.

  Funcionários em prisão domiciliária

O Governo do Líbano concordou em pôr todos os funcionários do porto de Beirute, responsáveis por segurança e armazenamento desde 2014, em prisão domiciliária.
A notícia foi avançada pela Reuters, que citou fontes ministeriais, que referiu que o Exército irá supervisionar as detenções até serem apuradas responsabilidades pelas duas explosões que fizeram mais de uma centena de mortos e milhares de feridos, na terça-feira.
O responsável do porto de Beirute já tinha admitido que foram feitos vários pedidos para retirar os materiais explosivos que se encontravam armazenados no porto, mas que esperou durante seis anos sem que a questão tivesse sido resolvida. Confessou que as autoridades libanesas já tinham enviado cartas a pedir que as 2.750 toneladas de amónio fossem retiradas ou exportadas.




Tempo

Multimédia