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ONU com África

Eleazar Van-Dúnem |

Por diferentes razões, África e os africanos têm dominado os debates na Organização das Nações Unidas (ONU) e na campanha eleitoral para as eleições legislativas de 24 de Setembro na Alemanha.

Situação política e económica em África é destaque na campanha para as eleições legislativas deste mês na Alemanha
Fotografia: Christof Stache | AFP

Na Organização das Nações Unidas, um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgado recentemente conclui que a marginalização, fraca governação, percepção de abuso de poder dos governos, pobreza e privações incentivam os jovens africanos a abraçar o terrorismo.
Intitulado “Viagem ao Extremismo em África: Motivação, Incentivos e o Ponto de Viragem para Recrutamento”, o estudo, baseado em entrevistas a 495 pessoas que se alistaram voluntariamente a grupos terroristas como Al-Shabaab e Boko Haram, refere que estes factores “oferecem o impulso para tomar a decisão final de se juntar a um grupo terrorista”.
Entre as razões citadas pelos inquiridos constam poucas perspectivas económicas e de participação cívica significativa, e reduzida confiança no Estado para a prestação de serviços ou o respeito aos direitos humanos.
No estudo é referido que pelo menos 33,3 mil africanos perderam a vida por ataques terroristas ocorridos entre 2011 e início de 2016 em África, e que só as operações de Boko Haram provocaram a morte de pelo menos 17 mil e contribuíram para o deslocamento de mais de 2,8 milhões de pessoas na região do Lago Chade.
Ao falar na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, EUA, o director do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para África disse que o documento faz soar o alarme. 
Abdoulaye Mar Dieye advertiu que as inúmeras regiões continuam isoladas e sem supervisão, e acrescentou haver dificuldades na capacidade institucional para responder à demanda na região onde “mais de metade da população vive abaixo da linha da pobreza, incluindo muitos jovens cronicamente subempregados”.

Campanha na Alemanha 

  
África também tem ocupa lugar de destaque na campanha eleitoral para as legislativas na Alemanha. “Ao lermos os programas partidários vemos que, em geral, há longos parágrafos sobre África”, disse à agência de notícias alemã Deustche Welle o analista Bernd Bornhorst, da Associação de ONG para Políticas de Desenvolvimento (VENRO).
A União Democrata Cristã (CDU), partido que governa, promete dar prosseguimento à iniciativa “Compact with Africa”, criada pelo Governo alemão no âmbito do G20 para reforçar o investimento privado no continente.
Para a CDU, tal como o Partido Democrático Liberal (FDP), apostar no investimento privado é a receita para melhores condições de vida em África. Sobre a política para os refugiados, a CDU pretende estabelecer parcerias de migração com os Estados africanos, a exemplo do Acordo entre a União Europeia e a Turquia.
O programa eleitoral do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) afirma que o partido pretende trabalhar com empresários, igrejas, sindicatos e organizações privadas voltadas para o desenvolvimento, prevê o reforço da cooperação com pequenos agricultores para que as áreas rurais possam prosperar e defende que o Acordo de Parceria Económica entre Bruxelas e os países africanos deve ser fiscalizado.
O partido dos Verdes promete renegociar o Acordo de Parceria Económica se entrar no próximo Governo e propõe uma política comercial agrícola e europeia mais justa. Também o FDP e a Alternativa para Alemanha (AfD), partidos que, de acordo com sondagens recentes, têm hipóteses de entrar no Parlamento, abordam questões africanas nos seus programas eleitorais.
Para o FDP, África é um “continente de oportunidades” que deve ter um papel preponderante na política de cooperação para o desenvolvimento e o seu sector privado, acima de tudo, deve ser mais envolvido.  Por sua vez, a AfD, partido populista de direita, teme uma iminente imigração em massa de África e promete reorientar a cooperação para o desenvolvimento de forma a acomodar ainda mais os interesses comerciais e de segurança alemães.
Apesar de todas as promessas sobre África nos programas eleitorais, Bernd Bornhorst acredita que, depois das eleições, as políticas para este continente vão perder importância em relação ao primeiro semestre deste ano.
“Partimos do princípio que todas essas atividades estavam em curso por causa das eleições que se aproximavam. Eles precisavam de mostrar trabalho”, afirma Bernd Bornhorst à agência de notícias alemã Deustche Welle.
“Portanto, é possível que se fale menos sobre o tema até que venha à tona numa próxima crise de refugiados”, conclui.

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