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Presidente Donald Trump entre a espada e a parede

António Pimenta |

Depois de várias polémicas em que esteve envolvido desde que se tornou inquilino da Casa Branca, o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, voltou a merecer destaques de primeira página na imprensa americana e internacional,

Chefe de Estado está no centro das atenções na imprensa norte-ameriacana e estrangeira
Fotografia: Olivier Douliery | AFP

com acusações de  ter pedido a James Comey, a quem demitiu recentemente do cargo de director do FBI, para deixar cair as investigações sobre as ligações entre Michael Flynn e a Rússia.
Mas o inquilino da Casa Branca desmente estas informações e afirma que nenhum político, na história, foi tratado tão mal e tão injustamente. “Não podem deixar que vos deitem abaixo, não podem deixar que os críticos se coloquem à frente dos vossos sonhos”, disse Trump quando assistia à cerimónia de iniciação dos novos membros da Guarda Costeira.
Mas é na demissão do director da Polícia Federal norte-americana (FBI) James Comey que reside actualmente a grande polémica na Casa Branca e as informações reveladas sobre uma suposta interferência de Trump numa investigação criminal relacionada com o seu conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn.
Donald Trump terá pedido ao ex-director do FBI, James Comey, para encerrar a investigação a Michael Flynn, que foi assessor do Presidente para a Segurança Nacional durante cerca de um mês.
O pedido de Trump, segundo relatos da imprensa internacional, terá ocorrido em Fevereiro passado, no decurso de uma  reunião entre Comey e o Presidente norte-americano, realizada na Sala Oval.
A conversa entre Trump e Comey, referem as  fontes,  terá começado com o Presidente dos EUA a condenar as fugas de informação para os media, dizendo ao antigo director do FBI que este devia pôr em consideração a hipótese de prender jornalistas que publicassem informação classificada.
No  relatório que escreveu sobre a reunião, logo após o encontro, o director do FBI cita uma passagem do Presidente Trump na qual o aconselha a deixar passar a investigação que levava a cabo em relação ao ex-assessor do Presidente. “Espero que possa deixar isto [investigação a Flynn] passar”, disse Trump a Comey.
Analistas defendem que caso se confirmem essas afirmações, o pedido de Trump pode mesmo confirmar que o Presidente norte-americano tentou influenciar o trabalho do Departamento de Justiça e do FBI, que investigavam possíveis ligações entre a campanha de Trump e personalidades russas.
A mesma publicação revela que James Comey escreveu o memorando, que detalha a conversa com Trump, imediatamente após a reunião, que ocorreu um dia após Flynn se ter demitido. Flynn pediu a demissão depois de ter admitido que mentiu ao Vice-Presidente, Mike Pence, sobre a natureza das suas conversas com o embaixador russo.
O memorando fará parte de uma espécie de arquivo que o ex-director do FBI estava a criar, devido ao que pensava ser uma interferência clara do Presidente numa investigação que estava a decorrer.
O “The New York Times” explica  que as notas de um agente do FBI são tidas com muito credíveis, em tribunal, como evidência de conversas e declarações. “Ele é um bom homem. Deixe isto”, terá dito Trump a Comey, que se terá limitado a concordar com a primeira parte. “Concordo que é um bom homem”, terá dito o ex-director do FBI.
 A Casa Branca já negou a versão do memorando de James Comey. Já o FBI recusou comentar o caso.
Estava anunciada para ontem, na Casa Branca, uma conferência de imprensa de James Comey, prevista para as 21h00 (hora de Angola).

Trump em maus lençóis

A sua suposta interferência no caso acabou por deixar o Presidente Trump em posição pouco vantajosa, colocando-o no centro de uma polémica que circula nos corredores das instituições políticas de Washington e nos “media” americanos e internacionais, e onde a palavra “impeachment” está a ser referenciada com muita insistência.
Diga-se em abono da verdade, as supostas ligações do Presidente Trump a Moscovo, acabou por criar um verdadeiro turbilhão na Casa Branca. Em função disso, o  Departamento de Justiça norte-americano nomeou o antigo director do FBI Robert Mueller como procurador especial para supervisionar a investigação federal às alegadas ligações russas nas eleições presidenciais dos EUA, que decorreram em Novembro do ano passado.
Desde a eleição de Donald Trump em Novembro de 2017, são recorrentes nos Estados Unidos e a nível internacional as informações que atestam  uma pretensa vinculação do Presidente Trump à Russia que lhe teria facilitado a vitória nas eleicões. Desde a corrida para as presidenciais que Donald Trump vem sendo acusado de manter laços íntimos com o Kremlin e de ser fã do Presidente da Rússia, Vladimir Putin.
As autoridades norte-americanas acreditam que o Governo russo teria interferido nas eleições dos Estados Unidos, no ano passado, para favorecer o político republicano, atacando, por meio de hackers, a  candidata democrata, Hillary Clinton. Essas suspeitas estão ser investigadas, mas, até ao momento, nenhuma prova foi encontrada.

Crise com a Coreia do Norte

Com a crise na Coreia do Norte e mesmo na Síria ainda por se resolver, as coisas se complicaram ainda mais para Donald Trump, com a exoneração do director do FBI.
Com essa mexida alguns legisladores americanos acusaram  Trump de obstrução à justiça devido a revelações que dão conta que o Presidente terá pedido a Comey para terminar as investigações sobre Flynn.
Após a demissão de Comey, na semana passada, os democratas no Congresso já tinham manifestado a sua preocupação face uma eventual e grave ingerência de Trump.

A obstrução

A figura da obstrução à justiça é uma questão delicada, tanto criminalmente como politicamente. Mas mesmo assim, vários constitucionalistas, citados pela agência noticiosa norte-americana Associated Press, admitem que pode ser difícil provar que o Presidente ultrapassou o limite.
“O Presidente pode alegar que estava a abordar a questão por preocupação com um colaborador de longa data [Flynn]”, afirmou o professor de Direito da George Washington University, Jonathan Turley, admitindo que Trump pode ter várias linhas de defesa e que tal situação poderá não ser suficiente para um processo de destituição.
Mas ao se confirmarem como certas as denúncias contra Trump a fazerem fé de que supostamente teria fornecido informações classificadas ao chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, sobre o grupo Estado Islâmico (EI), durante uma reunião realizada recentemente na Casa Branca, isso pode  agravar a situação do Chefe de Estado americano, que defendem alguns analistas locais, encontra-se actualmente entre a espada e a parede e com grandes desafios  pela frente para manter o seu mandato de quatro anos.
De qualquer forma, constitui já um dado assente que o assunto representa na actualidade um dos mais quentes da agenda política americana e que intensificou a pressão contra Trump, com milhares de cidadãos a exigirem a sua destituição. O congressista Al Green fez esta semana um duro discurso na Câmara dos Deputados a pedir o “impeachment” de Donald Trump.” Eu me levanto hoje, senhor presidente da Câmara, para pedir o “impeachment” do Presidente dos Estados Unidos da América por obstrução à Justiça”, afirmou Green.
Mais de um milhão de pessoas tinha assinado até ontem  à tarde uma petição “online” a favor da destituição de Donald Trump. A campanha “Impeach Trump Now”, liderada pela Free Speech For People (organização apartidária e sem fins lucrativos), reunia às 17h17 (hora de Angola) 1.004.145 assinaturas.
“Desde que assumiu o gabinete, o Presidente Donald Trump tem violado sistematicamente a Constituição dos Estados Unidos da América. O Presidente não está acima da lei. Não permitiremos que o Presidente Trump beneficie da Presidência à custa da nossa democracia”, lê-se num texto introdutório, que indica que mais de 950 mil pessoas se juntaram à campanha nos primeiros 110 dias da Administração Trump.
Mas um alto funcionário da Casa Branca minimizou a importância das acusações que pesam sobre Trump, afirmando: “O que temos são notas sobre um Presidente que faz perguntas altamente impróprias a um director do FBI. (...) Isto seria muito pouco consistente para um processo de destituição.”
O presidente do Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes, citado pela Reuters, o congressista republicano Jason Chaffetz, exigiu que o FBI entregue todos “os memorandos, notas, resumos e gravações” que detalhem conversas entre Donald Trump e o antigo director do FBI James Comey. O pedido foi partilhado integralmente na conta no Twitter daquela comissão do Congresso.
Para o congressista republicano, os documentos são necessários para perceber se o Presidente norte-americano tentou influenciar ou obstruir as investigações do FBI a possíveis ligações entre membros da campanha de Trump e o Governo russo.
Outros documentos vazados   através da imprensa americana dão conta de um outro documento que atesta que a Rússia tem informações comprometedoras sobre Trump.
O relatório levado a público no início do ano pela CNN, revela  “actividades sexuais pervertidas” realizadas pelo Presidente a quem acusam ainda de ter recebido informações de espionagem do Kremlin e que o serviço de inteligência russo vem “apoiando e ajudando” há  vários anos o líder republicano, incluindo com  informações pessoais e financeiras comprometedoras.

Sondagens sobre impeachment

Uma sondagem da Public Policy Polling, publicada na terça-feira, revelou que 48 por cento dos norte-americanos querem que se inicie um processo de destituição contra Trump. Esta percentagem supera os 41 por cento dos norte-americanos que estão contra um “impeachment” de Trump, processo que só foi iniciado em duas ocasiões na história norte-americana.
O Congresso dos Estados Unidos iniciou, mas nunca finalizou, o processo de destituição dos Presidentes Andrew Johnson (1829-1837) e Bill Clinton (1993-2001). A possibilidade de um “impeachment” forçou a demissão do Presidente Richard Nixon em 1974.
A mesma sondagem indicou que apenas 43 por cento dos inquiridos considera que Trump vai conseguir terminar os quatro anos de mandato. Esta sondagem foi realizada com uma amostra de 692 adultos entre 12 e 14 de Maio (depois da demissão de James Comey) e tem uma margem de erro de 3,7 por cento.
O processo de “impeachment” pode ser iniciado por uma maioria simples da Câmara dos Representantes (câmara baixa do Congresso), mas o processo (o julgamento político) vai ser conduzido pelo Senado (câmara alta) com o presidente do Supremo Tribunal a presidir as audiências.
Para declarar culpado um Presidente, e destitui-lo do poder, são necessários dois terços (67) dos votos da câmara alta, algo que nunca aconteceu. A destituição está prevista, de acordo com a Constituição norte-americana, em casos de “traição, corrupção ou todos outros crimes e delitos maiores”.

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