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Ramaphosa interrompe visita a Londres

Victor Carvalho

De modo algo inesperado, o Presidente da África do Sul decidiu abandonar a cimeira da Commonwealth, que estava a decorrer em Londres, para regressar a casa e enfrentar os violentos protestos que têm estado a decorrer na província de North West.

Habitantes de North West reivindicam melhores condições de vida e mais empregos
Fotografia: DR

Desde há alguns dias que os sul-africanos vêm assistindo ao aumento do índice de violência que os manifestantes empregam nos seus protestos pela exigência de emprego, habitação e o fim da corrupção na província do North West.
De um momento para o outro, lojas começaram a ser assaltadas, veículos incendiados e montadas barricadas para impedir a circulação dos automóveis, sobretudo os da Polícia.
Estes protestos começaram a ser mais violentos na última quarta-feira, quando os manifestantes colocaram como ponto principal das suas exigências a demissão do primeiro-ministro da província, Supra Mahumapelo, destacado membro do ANC.
Segundo relatos da imprensa sul-africana, os agentes usaram gás lacrimogéneo para dispersar manifestantes que incendiaram um autocarro, apedrejaram veículos e bloquearam estradas com pneus em chamas. Nove pessoas foram presas desde quarta-feira, de acordo com informações divulgadas pela Polícia.
O gabinete do primeiro-ministro provincial já criticou os protestos, considerando-os uma tentativa para desacreditar o governante.
Ontem mesmo, Cyril Ramaphosa teve uma primeira reunião com responsáveis do ANC no North West, tentando perceber o que se estava a passar e qual a melhor forma de ultrapassar a situação. Estes incidentes constituem uma forte “facada” no optimismo que Cyril Ramaphosa havia expresso um dia antes perante os participantes na cimeira da Commonwealth, aos quais pediu mais investimentos para o país.
Um dia antes de abandonar a cidade de Londres, o Presidente  havia garantido que a África do Sul era um país tranquilo, pacífico e unido em torno do Governo para o esforço de captar mais investimento estrangeiro.
Foi, por isso, um Presidente triste e envergonhado que anunciou em Londres, na quinta-feira, a decisão de regressar imediatamente ao seu país para tomar as rédeas no combate a uma situação que pode alastrar a outras regiões do país.
Se neste momento Mahikeng, capital da província de North West, é o centro de todas as contestações ao Governo, a verdade é que dentro de pouco tempo elas podem também ocorrer noutras regiões. É que as razões que motivaram a população da província de North West a sair às ruas e a manifestar-se contra a política do Governo, são as mesmas que têm levado outras províncias a exigir do Presidente Cyril Ramaphosa uma actuação mais enérgica na resolução dos seus problemas.
Por isso, o país segue com atenção a forma como o Presidente Cyril Ramaphosa vai responder aos desafios que lhe estão a ser lançados pela população de Mahikeng.
Na base da discórdia, recorde-se, está o nome de Supra Mahumapelo, primeiro-ministro provincial que vem do tempo de Jacob Zuma na presidência do país.
Supra Mahumapelo é acusado pelos seus inimigos políticos de intimidar a população, recusando todas as tentativas de diálogo e forçando a Polícia a actuar de modo particularmente violento para anular qualquer foco de contestação.
Noutras províncias sul-africanas, onde também existem primeiros-ministros da anterior presidência, há queixas mais ou menos “silenciosas” sobre o modo como a governação está a ser exercida com o constante adiar das promessas periodicamente feitas.
Neste momento, evitar o “efeito dominó” do que se está a passar no North West é o grande desafio que Cyril Ramaphosa está desde ontem a tentar vencer, não se sabendo por enquanto se conta com o apoio unânime do ANC, partido que por sua vez ainda não conseguiu resolver as suas diferenças internas.
Essas diferenças resultam da influência que Jacob Zuma ainda tem na definição das estratégias políticas do partido no poder.
Quem já se acautelou foi o vizinho Botswana que anunciou ontem de manhã ter encerrado os postos de fronteira com a província de North West.


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