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Rejeição do acordo no Parlamento pode impedir saída do Reino Unido

O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Jeremy Hunt, alertou ontem que uma eventual rejeição pelo Parlamento do acordo de saída do Reino Unido da União Europeia pode paralisar o processo e impedir a concretização do “Brexit”.

Primeira-Ministra Theresa May tenta últimas cartadas para conseguir apoio dos deputados
Fotografia: DR

“Se o acordo for rejeitado, o que eventualmente pode acontecer não é um tipo diferente de 'Brexit', mas uma paralisia do 'Brexit' e uma paralisia do 'Brexit' pode, em última análise, levar uma ausência de 'Brexit'”, afirmou, numa entrevista à rádio BBC 4.
Hunt considera que este cenário constituiria “uma violação fundamental da confiança entre os cidadãos e os políticos”, da qual estes se poderão “arrepender durante muitas gerações” e que afectará a reputação internacional do país.
O ministro dos Negócios Estrangeiros argumentava assim a favor da aprovação do acordo, que será votado na terça-feira no Parlamento e provavelmente rejeitado devido à elevada contestação tanto dos partidos da oposição como de muitos deputados do partido Conservador e do aliado partido Democrata Unionista.
Em causa está uma solução de salvaguarda para evitar que sejam impostos controlos alfandegários na fronteira entre a região britânica da Irlanda do Norte e a vizinha República da Irlanda, que é membro da UE, mantendo assim os compromissos do acordo de paz de 1998 para aquele território.
Jeremy Hunt fez campanha pela permanência do Reino Unido na UE, mas entende que o resultado do referendo de 2016, que ditou a saída, deve ser cumprido, e admitiu que o Parlamento pode impedir o “Brexit”. “Eu acho que o Parlamento está muito empenhado em tentar impedir uma saída sem acordo, mas temos de reconhecer que há um acordo na mesa, ele concretiza amplamente o que era pretendido pelos que votaram pelo “Brexit”, e se não encontrarmos uma forma de resolver isso assumimos alguns riscos muito grandes”, vincou.
O Parlamento iniciou ontem o terceiro de cinco dias de debate sobre o texto, que se vai prolongar até ao dia do voto, na terça-feira, data em que faltarão apenas 73 dias para a efectivação do “Brexit”, a 29 de Março.
A Primeira-Ministra britânica, Theresa May, decidiu adiar a votação do acordo na véspera do dia previsto, em 11 de Dezembro, antecipando uma derrota por uma “margem significativa”, mas o número de deputados manifestamente contra mantém-se elevado.
Para ser aprovado, o acordo precisa teoricamente de 320 votos a favor para contrariar mais de 300 votos esperados dos partidos da oposição, em particular do Partido Trabalhista, dos Liberais Democratas e do Partido Nacionalista Escocês.
Porém, as abstenções e os votos de alguns deputados da oposição contra a posição oficial dos respectivos partidos podem fazer variar esta aritmética.
Entretanto, dois deputados conservadores, George Freeman e Trudy Harrison, anunciaram na quinta-feira que afinal vão votar a favor para evitar o risco de uma saída sem acordo.
Ainda assim, dezenas de outros deputados do partido do Governo, bem como os 10 do aliado Partido Democrata Unionista, têm-se mostrado publicamente determinados em chumbar o documento.
Theresa May tem procurado nos últimos dias angariar apoios junto dos sindicatos britânicos, na esperança de conseguir algum apoio das organizações de trabalhadores normalmente associadas ao Partido Trabalhista.
O 'Daily Mirror' noticiou também na quinta-feira que o Governo pondera apoiar uma alteração ao acordo que defende os direitos dos trabalhadores proposta por um grupo de 20 deputados trabalhistas eleitos em regiões que votaram a favor da saída da UE, o que pode convencê-los a deixarem passar o documento.

  Casa de apostas 

Uma casa de apostas  britânica acredita que as hipóteses de o acordo para o Reino Unido sair da União Europeia ser chumbado são de  87 por cento, mas espera apostas de mais algumas centenas de milhar de euros até terça-feira.
Para a votação do acordo de saída, que vai acontecer na terça-feira e que foi adiado em Dezembro pela Primeira-Ministra, Theresa May, devido ao risco de ser “rejeitado por uma margem significativa”, a William Hill estabeleceu probabilidades de 4/11, ou seja, a aposta de uma libra (1,11 euros) garante 36 pence de retorno (40 cêntimos).
Já um voto positivo tem probabilidades de 2/1, ou seja, se o acordo for aprovado, um apostador terá um lucro de 200 por cento.
A estimativa é feita com base numa ponderação do número de apostas no primeiro cenário, que é favorecido por 98,3 por cento dos apostadores, disse o director de comunicação, Rupert Adams, num encontro com um grupo de jornalistas em Londres.
“Nós falhámos redondamente nas previsões para o referendo do 'Brexit' e para a eleição de Donald Trump, que foram os dois eventos mais inesperados, e mudámos a forma como fazemos as previsões. Agora avaliamos o número de apostas e não o volume das apostas”,  adiantou.
Adams não revelou o valor dos prejuízos, depois do referendo de 2016 quando 51,9 por cento dos eleitores votaram pela saída britânica da UE, contrariando todas as sondagens, mas estima que a indústria no geral tenha perdido perto de três milhões de libras (3,33 milhões de euros).
A indústria das apostas movimenta no Reino Unido cerca de 14,4 mil milhões de euros (16 mil milhões de euros), tendo alargado o âmbito inicial do desporto como corridas de cavalos e futebol nos últimos anos a questões relacionadas com a política e a família real.
Devido ao intenso debate que gera, o 'Brexit' é um dos temas que mais gera interesse dos apostadores, e Adams está confiante que até ao dia do voto serão apostados mais 100 a 200 mil libras (111 a 222 mil euros).
A área da política recebe anualmente entre cinco a seis milhões de libras (entre 5,54 milhões e 6,65 milhões de euros) em apostas na William Hill, indicou.
Porém, este é também a área do jogo mais complexa de gerir devido à dificuldade em estabelecer as probabilidades, as quais têm agora em conta as apostas feitas em diferentes cidades do país para além de Londres, como a Escócia e o norte de Inglaterra. A William Hill foi fundada há 85 anos. 

 

 

 


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