Mundo

Repulsa do Mundo à barbárie na Líbia

Eleazar Van-Dúnem

A União Africana quer que os seus países membros com cidadãos a serem leiloados como escravos na Líbia apoiem o seu repatriamento, razão pela qual enviou um emissário à Líbia para colaborar com Tripoli na identificação dos migrantes, isto depois de, assim como Tripoli, abrir um inquérito destinado a levar à Justiça os responsáveis pela alegada venda de escravos.

Milhares de africanos são repatriados para os seus países de origem devido ao escândalo
Fotografia: Issouf Sanogo | AFP

A polémica veio à tona há dias, depois que a cadeia televisiva dos EUA “CNN” exibiu um vídeo no qual se vê um suposto leilão de emigrantes da África Subsaariana a serem escravizados no território líbio, a troco de 1.200 dinares líbios, o equivalente a 340 euros.
O vídeo, como não podia deixar de ser, provocou uma forte indignação da comunidade internacional.
O Secretário-Geral da ONU disse estar “horrorizado” com as imagens e que tal  “comércio” precisa de ser investigado como possível crime contra a humanidade.
“A escravidão não tem cabimento no nosso Mundo e essas acções estão entre os mais atrozes abusos de direitos humanos e podem constituir crimes contra a humanidade”, reagiu António Guterres, antes de pedir “a todas as autoridades competentes e a actores relevantes das Nações Unidas que investiguem esses leilões de escravos o mais rápido possível.”
Numa conferência de imprensa conjunta com o presidente em exercício da União Africana, Alpha Condé, o Presidente francês, Emmanuel Macron, disse que estão a ser cometidos crimes contra a humanidade. “O que foi revelado é, de facto, tráfico de seres humanos; é um crime contra a humanidade”, afirmou, citado pela Reuters.
Alpha Condé, por sua vez, condenou o que chamou de “comércio abjecto de migrantes” na Líbia, pediu às autoridades locais para abrirem um inquérito destinado a encontrar os responsáveis e obrigá-los a comparecer perante a justiça e exigiu uma revisão das condições dos centros de detenção de migrantes.
“Estas práticas de escravatura moderna devem acabar e a União Africana vai usar todos os meios à sua disposição para que tal ignomínia jamais se repita”, prometeu o também Presidente da Guiné Conacri.
O secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Abou el-Gheit, pede mais apoio à Líbia para fazer face à vaga de migrantes clandestinos que tentam entrar na Europa através da Líbia e insiste na necessidade de fazer-se face às milícias e aos bandos armados envolvidos no tráfico e no comércio de seres humanos nalgumas regiões da Líbia.
As actividades destes bandos errantes, sublinhou, reforçam a crise da migração clandestina e a melhor forma de travá-las é concluir o processo político e a construção das instituições unificadas do Estado líbio “para lhe permitir tomar o controlo e garantir a segurança em todo o território nacional.”

Camarões, RDC e Burkina Faso

Entretanto, um grupo de aproximadamente 250 migrantes camaroneses foi repatriado na quarta-feira da Líbia, depois de a União Africana pedir aos países-membros da organização continental para acolherem de volta os seus cidadãos que estão no país da África do Norte, onde, alegadamente, migrantes de origem subsaariana são leiloados como escravos, noticiou ontem a agência Efe. A denúncia está a ser investigada.
O grupo, formado maioritariamente por jovens, tem nove mulheres grávidas e chegou no aeroporto internacional de Yaoundé, a capital de Camarões.
Um deles declarou à imprensa: “os líbios não têm nenhuma consideração pelos negros. Tratam-nos como animais. Estupravam as mulheres, quase não nos davam o que comer e, praticamente, não havia água nos armazéns onde nos amontoavam.” Um porta-voz da Organização Internacional para as Migrações, Charles Evina, lamentou à Efe que ainda existem pelo menos 1.700 camaroneses “em perigo” na Líbia.
A Repúblicas Democrática do Congo, do Burkina Faso e do Níger, por sua vez, convocaram os seus embaixadores na Líbia. Kinshasa, afirmou o ministro congolês dos Negócios Estrangeiros,  Léonard She Otekitundu, quer conhecer “a situação real” na Líbia e conduzir por necessidade “uma missão de repatriamento”, caso sejam abrangidos congoleses.

Tempo

Multimédia