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Seca e terror arrasam o país

Mais de um milhão de pessoas fugiram este ano dos seus lares devido à grave seca e ao conflito na Somália, onde mais de 6,2 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária, revelou ontem o Conselho dos Refugiados Norueguês.

Além de enfrentar uma grave seca que causa a fuga de milhões de pessoas a Somália é vítima de atentados terroristas
Fotografia: Mohamed Abdiwahab | afp

Além disso, mais de 3,1 milhões estão em situação crítica e 388.000 menores de cinco anos sofrem desnutrição aguda, explicou a ONG em comunicado.
“Estamos alarmados com as dimensões desta crise, na qual cerca de 3.500 pessoas fogem por dia dos seus lares em busca de comida e água para manter-se com vida”, disse a directora regional do Conselho dos Refugiados Norueguês, Gabriella Waaijman, que comparou este êxodo em massa com o ocorrido na última crise de fome de 2011, quando morreram 260.000 pessoas.
Apenas em Setembro deste ano, cerca de 49.000 pessoas fugiram dos seus lares, a maioria das quais se deslocaram a acampamentos amontoados em áreas urbanas. Muitas comunidades rurais da Somália se transformaram em cidades fantasmas após as colheitas falidas e a morte do gado, que deixou a população sem reserva de alimentos.
“Abandonei o trabalho na nossa fazenda de um hectare devido à falta de água. Os rios estavam secos, não havia nenhuma gota de água em nenhuma parte. Cavamos o solo para buscar água subterrânea, mas não encontramos nada”, disse à Conselho dos Refugiados Norueguês uma somali da região de Shabelle, Asha Ali Hussein.
Numerosas organizações internacionais insistem, no entanto, que com apoio financeiro ainda há tempo de evitar que se repita a situação de emergência humanitária que se viveu em 2011.
Na última grave crise alimentar na Somália, em 2011, morreram mais de 250 mil pessoas. Nessa altura, a ajuda internacional chegou demasiado tarde, porque o mundo quase esqueceu o país. Este ano, estão na Somália organizações com pessoal e reservas alimentares a fim de evitar um cenário semelhante.
“Gastámos quatro mil milhões de dólares em ajuda humanitária no país desde 2011”, afirma Peter de Clerq, coordenador humanitário das Nações Unidas. “Imagine-se o que se poderia fazer com esse dinheiro em termos de investimento no desenvolvimento ou para regenerar a economia e reconstruir as cidades”.
Para Peter de Clerq, é necessário continuar a dar ajuda humanitária imediata, mas ter também uma estratégia de longo prazo para o país. “Temos de ter o que eu chamo de paciência estratégica, investir no país e dar-lhe a oportunidade que merece”, conclui. A seca é a principal causa de deslocamento na Somália este ano, mas a actividade do grupo terrorista Al Shabab, que pretende instaurar um estado islâmico radical, também provocou numerosos deslocamentos.
No sábado  um duplo atentado com camião-bomba matou pelo menos 315 pessoas e deixou 400 feridos em Mogadíscio.
Quatro dias depois do duplo ataque em Mogadíscio, capital da Somália, o Papa Francisco manifestou a sua “dor” pelo massacre.  
Na audiência geral de quarta-feira, dia 18, no Vaticano, o líder da Igreja Católica afirmou que o ataque “merece a mais firme deploração, ainda mais porque atinge um povo já muito sofrido”.  
“Rezo pelos mortos e feridos, pelos seus familiares e por todo o povo da Somália. Imploro pela conversão dos violentos e encorajo aqueles que, com enormes dificuldades, trabalham pela paz naquela terra”, disse Jorge Bergoglio.  
O atentado mais grave da História da Somália aconteceu no último sábado, dia 14, quando dois camiões-bomba explodiram em frente a um hotel no centro de Mogadíscio, perto de prédios do governo. A acção ainda não foi reivindicada, mas suspeita-se do grupo rebelde islâmico somali Al Shabab, ligado à Al Qaeda.  
O ataque ocorreu após um encontro em Mogadíscio entre o presidente da Somália, Mohamed Abdullahi Mohamed, e membros do comando dos EUA no continente.  
Localizado na região do Corno de África, a Somália é um dos países mais vulneráveis do mundo por causa da pobreza disseminada, da actuação de milícias terroristas e da instabilidade política.
No ano passado, o Governo de Mogadíscio chegou a declarar estado de calamidade nacional por causa da fome. A rebelião Al-Shabab  impede a ajuda humanitária de chegar a áreas afectadas pela fome. Como se não bastasse, a corrupção é generalizada.
As doações internacionais acabam frequentemente à venda em mercados locais. Por vezes, são os próprios carenciados que vendem os seus alimentos. Mas, muitas vezes, são os intermediários e funcionários públicos que desviam a comida.
Michael Keating, representante especial das Nações Unidas à Somália, responsabiliza os políticos pela fome no país. “Em sociedades com instituições que funcionem e onde a liberdade de expressão prevalece raramente há fome”, aponta.

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