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“Sempre quis minimizar o vírus para não criar pânico”, diz Donald Trump

O Presidente dos EUA, Donald Trump, admite que tentou minimizar a gravidade da ameaça da Covid-19 no início da pandemia, em gravações de áudio divulgadas na quarta-feira, a partir de entrevistas com o veterano jornalista norte-americano Bob Woodward.

Fotografia: DR

“Sempre quis minimizar”, disse Trump, numa entrevista a Woodward, em 19 de Março, de acordo com uma divulgação prévia pela CNN do livro “Rage”, que será lançado em 15 de Setembro.

“Ainda gosto de minimizar, porque não quero criar pânico”, afirmou Trump na conversa com Woodward, que foi gravada. Noutra entrevista gravada, em 7 de Fevereiro, Trump disse a Woodward que o vírus “vai pelo ar”, apesar de ter gozado repetidamente das pessoas que usam máscaras nas semanas e meses seguintes. Demorou até Julho para que o Presidente fosse visto publicamente a usar uma máscara.
A oito semanas da eleição Presidencial de 3 de Novembro, as revelações aumentam a pressão sobre Trump. Sondagens de opinião mostram que cerca de dois terços dos americanos desaprovam o tratamento que teve com o vírus, acusado de minimizar a crise para tentar aumentar as hipóteses de reeleição.

Falando a jornalistas na Casa Branca, Trump denunciou o livro como “outro trabalho de 'assassinato' político” e disse que, se minimizou a Covid-19, foi para evitar um “frenesim”. “Não quero que as pessoas tenham medo”, justificou.
“Não vou levar este país ou o mundo à loucura”, disse ainda Trump. “Temos que mostrar liderança e a última coisa que se quer fazer é criar pânico.” O Presidente dos EUA criticou Woodward por fazer “hitjobs (assassínios políticos) com toda a gente” e disse que, “provavelmente, quase definitivamente” não vai ler o livro, “porque não tenho tempo para ler”.

Quase 90% dos casos passaram despercebidos nos EUA - estudo

O número de infecções pelo novo coronavírus foi “amplamente subestimado” e cerca de 89% dos casos passaram despercebidos nos Estados Unidos, entre o início da pandemia e 18 de Abril, revela uma investigação.
Desde o início da pandemia e até 18 de Abril, terão ocorrido nos Estados Unidos 6,4 milhões de casos de Covid-19, mas só foram confirmados cerca de 700.000, o que significa que o número de infecções foi “amplamente subestimado” e que 89% dos casos passaram despercebidos.
Estes dados constam de uma investigação publicada na Nature Communications, liderada por Jade Benjamin-Chung, do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da Universidade de Berkeley, na Califórnia, lembrando que o primeiro caso conhecido e confirmado de Covid-19 nos Estados Unidos foi em 21 de Janeiro.

A partir daí, nos primeiros meses da crise de saúde, o Centro de Controlo de Doenças norte-americano recomendou que os testes fossem prioridade para pacientes hospitalizados que tendiam a apresentar sintomas moderados ou graves. No entanto, estudos sugerem que entre 30% a 70% dos indivíduos com teste positivo para o vírus apresentam sintomas leves ou nenhum sintoma. A partir desses dados, os autores tentaram estimar a verdadeira incidência da pandemia em cada Estado, por meio de uma análise probabilística.

O estudo conclui que, entre 28 de Fevereiro e 18 de Abril, o número total de infecções por SARS-CoV-2 foi de 6.454.951 (19 por 1.000 pessoas), uma estimativa nove vezes maior do que o número de casos confirmados durante o mesmo período (2 por 1.000 pessoas) e sugerindo que 89% das infecções não foram documentadas. A maior parte dessa diferença (cerca de 86%) foi devido a testes incompletos, enquanto o restante foi devido à precisão limitada do teste, de acordo com o estudo. Por Estado, os investigadores descobriram que a incidência de Covid-19 foi maior no Nordeste, Centro-Oeste e no Luisiana. O número de casos foi muito subestimado no Porto Rico, Califórnia e alguns Estados do Sul. Em 33 Estados, o número estimado de infecções foi pelo menos 10 vezes maior do que o número de casos confirmados.
Os autores do estudo sublinharam que, embora o método utilizado ofereça uma visão realista da carga real de infecção num determinado momento, não permite analisar o modelo de transmissão ou fazer previsões sobre a disseminação do vírus.




No entanto, “Rage” dará novas munições aos democratas, argumentando que Trump falhou em preparar os americanos para a gravidade do surto do coronavírus ou em conduzi-los a uma resposta adequada.
Nas entrevistas com Woodward, Trump deixou claro que tinha entendido desde o início que o vírus era “uma substância mortal”, muito mais perigosa do que a gripe comum. Em público, no entanto, Trump disse repetidamente aos americanos, durante as primeiras semanas no início de 2020, que o vírus não era perigoso e “desapareceria” por si mesmo.

“Ele sabia como era mortal”, disse o candidato democrata à presidência, Joe Biden, enquanto fazia campanha no Michigan. “Mentiu ao povo americano. Mentiu intencionalmente e de bom grado sobre a ameaça que o vírus representava para o país durante meses. Foi uma traição de vida ou morte ao povo americano”, acrescentou Biden.
“É nojento”, disse o democrata mais tarde à CNN. “Pense nisso. Pense no que ele não fez.” Biden classificou o comportamento de Trump como “quase criminoso”.

Mensagens mistas

Mas houve apoio para Trump do altamente respeitado especialista em doenças infecciosas Anthony Fauci, que sempre disse ao público que o coronavírus requer uma resposta dura, mesmo quando o Presidente parecia estar a dizer algo diferente.
“Não me lembro de nada que tenha sido uma distorção grosseira nas coisas sobre as quais falei com ele”, disse Fauci à Fox News.

O Presidente tem repetidamente insistido que administrou com sucesso a pandemia de Covid-19, que está prestes a matar 200.000 pessoas no país. Aponta para as primeiras decisões de proibir viagens da China, onde o vírus apareceu pela primeira vez, e de hotspots na Europa. No entanto, no mínimo, Trump transmitiu mensagens contraditórias, num momento em que o país estava a procurar orientação. Em Fevereiro - bem depois de ter sido informado por assessores sobre os perigos representados pelo novo coronavírus - Trump disse que o vírus poderia ir embora em Abril “com o calor”.

Em Março, descreveu o “tremendo controlo do Governo sobre” a situação e disse: “Isso vai passar. Fiquem calmos.” Naquele mesmo mês, Trump comparou o coronavírus à gripe comum, dizendo que mata “entre 27.000 e 70.000 por ano”, mas “nada fecha, a vida e a economia continuam”.
No final de Março, o Presidente anunciou que um número de mortos de 100.000 estava a aproximar-se. Pouco antes, tinha falado sobre a ideia das pessoas acabarem com o distanciamento social a tempo da Páscoa, em meados de Abril.

No início, também elogiava com frequência a resposta do Governo chinês, mas depois passou a culpar ferozmente Pequim pela crise de saúde global. Mas levantam-se outras questões. Woodward deveria ter divulgado as informações antes e não retido a publicação do livro até Setembro?
“Essa pergunta, boa, tem surgido com frequência ultimamente”, escreveu no twiter David Boardman, reitor da Faculdade de Media e Comunicação da Temple University.

“Na situação de vida ou morte de hoje, essa prática tradicional ainda é ética?” Sem dar uma resposta firme, Boardman disse que é “uma questão séria e cheia de nuances que vale a pena discutir, especialmente entre jornalistas”.

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