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Tempestade no PIB leva Trump a admitir adiamento das eleições

Mariana Sanches*

Minutos depois de os Estados Unidos anunciarem o pior resultado do seu Produto Interno Bruto (PIB) na história, com uma queda de 32,9% em termos anuais, o Presidente Donald Trump foi ao Twitter. A sua mensagem, no entanto, não era sobre o tombo da economia. Em vez disso, ele questionou se a eleição presidencial, que acontece em menos de 100 dias, deveria ser adiada.

Fotografia: DR

"Com a votação universal por correio, 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os Estados Unidos. Adiar a eleição até que as pessoas possam votar de maneira adequada, segura e protegida???", postou o Presidente.

Foi a primeira vez que o republicano, que concorre à reeleição, mencionou a possibilidade. A sugestão acontece num momento em que o seu rival, o democrata Joe Biden, abre uma vantagem de dois dígitos sobre ele nas pesquisas nacionais. Biden também surge à frente em Estados-chave na disputa marcada para o dia 3 de Novembro — e nos quais Trump venceu em 2016 — como Flórida e Michigan. Na mesma semana, os Estados Unidos cruzaram a histórica marca de 150 mil mortos na pandemia da Covid-19.

"Trump tem três motivos pra sugerir esse adiamento agora: PIB, PIB e PIB", afirmou Michael Cornfield, professor de gestão política da Universidade George Washington.

 

A aposta que se provou arriscada

O resultado da economia é especialmente dramático porque comprova a falha no cálculo político do Presidente, afirmam os analistas políticos. Até Fevereiro de 2020, os americanos completavam o décimo ano consecutivo de crescimento económico e viviam uma condição de pleno emprego. A pandemia do novo coronavírus demoliu esse cenário — e também o discurso da estabilidade e progresso que Trump se preparava para empunhar nas eleições.

Diante da recessão e do caos na saúde pública, restou a Trump a tentativa de se colocar como o Presidente que relançou a economia após o choque provocado pela pandemia. Foi por isso que, a partir de Maio, ele passou a pressionar os governadores para afrouxarem as medidas de isolamento e aquecer os mercados.

A redução no distanciamento social, no entanto, é apontada pelos especialistas como a responsável pela inflexão da curva de contaminação americana, que chegou a embicar para baixo até meados de Junho, mas não sustentou a tendência. Pelo menos 40 dos 50 Estados americanos já registam nova alta dos casos, que é mais severa do que o primeiro pico: há 3 semanas, os Estados Unidos vêm registando mais de 50 mil novos diagnósticos de Covid-19 por dia.

"A economia não vai melhorar e a pandemia não vai desaparecer. Restou a Trump fazer o que ele faz sempre: provocar e criar distracções em relação a notícias que são muito ruins para ele", afirma o cientista político Michael Traugott, especialista em eleições da Universidade de Michigan.

Na última semana, diante dos indicativos de que o seu plano estava a naufragar, Trump mudou de postura em relação à pandemia — passou a qualificar como acto de "patriotismo" o uso de máscaras, que até então ele rechaçara. Também concentrou a atenção na segurança urbana, cujos números têm piorado nas metrópoles um pouco por todo o país, e optou por enviar tropas federais as cidades onde ainda há protestos contra o racismo, como Portland e Seattle, colocando-se como o garante da Lei e da Ordem.

Por fim, aqueceu a temperatura da crise geopolítica ao acusar os chineses de tentar hackear a fórmula da vacina contra a Covid-19 e ordenar que Pequim fechasse o seu consulado em Houston, no Texas — ao que os chineses reagiram na mesma proporção, encerrando a representação americana em Chengdu.

Os cientistas políticos, no entanto, são cépticos quanto ao potencial desse novo discurso para reverter a aparente situação de desvantagem de Trump na disputa eleitoral.

"Trump precisa de uma cura milagrosa ou de um tratamento eficaz até Outubro para ter uma chance de ganhar. E isso não virá da hidroxicloroquina ou do DNA alienígena", afirmou Cornfield, fazendo referência ao ressurgimento da defesa do antimalárico no discurso do Presidente.

Nos últimos dias, Trump voltou a afirmar que acredita na eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19, embora até agora a ciência o desminta, e usou o vídeo de uma médica para sustentar essa afirmação. Entre outras coisas, essa médica afirma que terapias são feitas a partir de material genético alienígena.


Corrida contra o tempo

Na mesma mensagem em que sugere o adiamento das eleições, Trump ataca a possibilidade de que toda a votação seja feita via correio. De acordo com o Presidente, o voto por carta poderia ser "fraudulento". Além do Presidente, o procurador-geral William Barr também tem ido à televisão afirmar que o voto por correio seria uma porta aberta para interferência estrangeira nos resultados, um dos temas mais sensíveis no processo democrático americano desde que a Rússia foi acusada de influenciar os resultados em 2016.

"No momento (das eleições), um país estrangeiro poderia imprimir dezenas de milhares de cédulas falsas, e (seria) muito difícil para nós detectar qual era a certa e qual era a cédula errada", afirmou Barr à Fox News há pouco mais de um mês.

O sistema, no entanto, é relativamente bem conhecido pelos eleitores norte-americanos. Cinco estados, incluindo o republicano Utah, já converteram todas as votações ao modelo via correio. Outros estados possuem a opção de voto por carta ou em secção eleitoral. Em 2018, o próprio Trump votou por correio, de acordo com o jornal Washington Post.

Funciona assim: o eleitor recebe a cédula e dois envelopes. No primeiro, em branco, ele deposita o voto. No segundo, coloca o envelope com o voto e assina o seu nome, conforme os registos oficiais. Daí remete tudo ao correio. Todos os envelopes só são abertos se a assinatura conferir. O segundo envelope é aberto e depositado numa urna, sem que possa ser manuseado por pessoas.

"Todos os estudos mostram que praticamente não temos fraudes em eleições americanas. É um índice realmente próximo do zero, então dizer que o sistema é inseguro ou arriscado não corresponde à realidade", afirmou Traugott.

Segundo o pesquisador, o sistema por carta é mais caro e exigente em termos organizacionais. Isso porque as cartas podem ser enviadas com antecedência, não apenas no dia da eleição. E cabe às autoridades locais garantir a logística de segurança desses votos, de conferência e de contagem. Os votos só podem ser abertos após o término do período de votação no dia 3 de Novembro, não importa quando eles foram enviados.

Mas os americanos têm visto um crescimento significativo do voto adiantado e pelo correio. Em 2016, cerca de 40% dos votos para Presidente foram colectados dessa maneira, antes do dia da eleição.

"Este ano, a expectativa é que mais de 50% dos votos sejam enviados mais cedo. A partir de Setembro, o fluxo deve ser grande, mas os republicanos não estão a facilitar o dinheiro necessário para que as autoridades locais organizem a votação da melhor maneira, numa tentativa de forçar uma dificuldade e levar a mais questionamentos do processo", afirma Traugott, referindo-se a uma negociação que se arrasta há meses no Congresso americano sobre autorização de verba extra para financiar o pleito.

Segundo os analistas, o facto de que uma parte significativa do eleitorado deve firmar o seu voto final dentro de um mês é outro factor a pressionar o Presidente Trump. Se, em teoria, ele teria mais 90 dias para convencer os americanos a mantê-lo na Casa Branca por mais quatro anos, a universalização do voto por correio pode fazer com que mais eleitores antecipem a sua decisão, num momento de baixa de popularidade para o Presidente.

Chance próxima de zero

Apesar do barulho causado pelas palavras de Trump, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil foram unânimes em garantir que a chance de um adiamento da eleição é próxima a zero.

Isso porque a data da eleição é definida na legislação americana desde 1845. A lei diz que o pleito deve ocorrer na primeira terça-feira após a primeira segunda-feira do mês de Novembro para todos os Estados. Nem mesmo durante a guerra civil americana, o conflito armado que mais matou pessoas nos Estados Unidos, as eleições presidenciais foram suspensas. Para alterar a data agora, a lei teria que ser mudada pelo Congresso, assinada por Trump e depois sobreviver a contestações na Justiça.

Nem mesmo os republicanos se manifestaram publicamente a favor da ideia, o que aumenta a possibilidade de que o twíte de Trump seja definitivamente apenas um twíte. Nas redes sociais, o governador de New Hampshire, o republicano Chris Sununu, afastou a ideia.

"Não se enganem: as eleições acontecerão em New Hampshire em 3 de Novembro. Fim de papo. Nosso sistema de votação em New Hampshire é seguro e confiável. Fizemos isso correctamente 100% do tempo por 100 anos — este ano não será diferente", disse Sununu.

Para Traugott o comentário de Trump é apenas um "bluff". Ainda assim, segundo ele, causa efeitos nocivos à maior democracia do mundo ao levantar dúvidas sobre o processo de escolha do seu principal representante.

"O comportamento do Presidente tem mostrado pouco respeito em relação aos ritos democráticos. Um dos mais importantes é o reconhecimento de uma eventual derrota e a transferência do poder. Se o resultado for apertado para Biden, acredito que Trump não vá reconhecer até o dia da posse", afirma o cientista político.

Cornfield concorda com a avaliação

"Claro que pode haver problemas em meio à desinformação e novidades no processo. Mas as eleições vão acontecer, e serão garantidas pelas instituições caso o Presidente insista numa postura inflamatória, diversionista e ditatorial. Apesar de estar sob severo stress, este país ainda é uma república democrática” - disse Michael Cornfield de forma concordante.

* Da BBC News Brasil em Washington, com adaptações ao livro de estilo do Jornal de Angola e título da responsabilidade da Redacção


usada para sabotar evento
TikTok, o novo alvo do Presidente

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou sexta-feira que vai proibir a rede social chinesa TikTok no seu país, alegando razões de segurança nacional.

Autoridades de segurança e parlamentares americanos já haviam expressado preocupações de que o TikTok, cuja popularidade vem aumentando rapidamente nos EUA, possa ser uma ferramenta dos serviços de inteligência chineses.

Trump anunciou a medida durante uma conversa com jornalistas no avião presidencial Air Force One. "No que diz respeito ao TikTok, vamos bani-lo dos Estados Unidos", afirmou. "Eu tenho essa autoridade. Posso fazê-lo com uma ordem executiva", sublinhou, sugerindo que a decisão deverá ser tomada brevemente.

A medida anunciada por Trump surgiu após uma análise do Comité de Investimentos Estrangeiros dos EUA (CFIUS), que investiga possíveis ameaças à segurança nacional, e que lançou dúvidas quanto ao uso seguro da rede social.

Autoridades americanas expressaram dúvidas quanto à segurança dos dados dos usuários e de possíveis vínculos com o Partido Comunista Chinês. No início de Julho, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, acusou Pequim de utilizar o TikTok como ferramenta de espionagem e de distribuição de propaganda. A empresa ByteDance, que desenvolveu a plataforma, nega qualquer ligação com o Governo em Pequim.

O TikTok, utilizado pelos usuários para compartilhar vídeos de curta duração, é bastante popular entre os adolescentes. Estima-se que o aplicativo já tenha conquistado em torno de um bilião de pessoas em todo o mundo.

A empresa recusou-se a comentar as ameaças de Trump, afirmando apenas que confia no "sucesso a longo prazo" do TikTok. "Centenas de milhares de pessoas acessam o TikTok para entretenimento e para se conectar, além da nossa comunidade de criadores e artistas que têm o seu sustento na plataforma", afirmou a rede social em nota.

O TikTok assegurou que possui alto nível de transparência, inclusive ao permitir o acesso aos seus algoritmos como forma de tranquilizar usuários e agências reguladoras. "Não somos políticos, não aceitamos propaganda política e não possuímos uma agenda", afirmou Kevin Mayer, CEO da rede social, num post que pôs a circular. "O TikTok tornou-se o mais recente alvo, mas nós não somos o inimigo."

Sabotagem a evento de campanha de Trump

Segundo relatos na imprensa americana, usuários do aplicativo chinês e fãs de bandas pop coreanas (K-Pop) teriam conseguido sabotar o primeiro evento da campanha eleitoral para a reeleição de Trump após a pandemia da Covid-19 se espalhar pelos EUA. Terão reservado centenas de milhares de ingressos para o evento em Tulsa, no Oklahoma, após a equipa eleitoral convidar os apoiantes de Trump a registarem-se por telefone para obter um ingresso gratuito.

Vídeos postados na rede social explicavam como proceder para reservar as entradas. A articulação transcorreu através da "Alt TikTok", uma plataforma alternativa do serviço. Para que o plano não viesse à tona antes da hora, diversos usuários apagaram os seus posts após alguns dias, evitando que a iniciativa aparecesse também noutras plataformas.

A equipa de Trump contava com a presença de cerca de 100 mil adeptos. O próprio Presidente anunciara no Twitter que "quase 1 milhão de pessoas" haviam solicitado ingressos para o evento gratuito. Entretanto, as imagens da arena praticamente vazia ganharam amplo destaque na imprensa mundial e geraram um enorme constrangimento para Trump. Texto da DW

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