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Turquia volta a “incendiar” a região do Médio Oriente

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou, hoje, o início de uma nova operação militar contra a milícia curda das Unidades de Protecção Popular (YPG), apoiada pelos países ocidentais, mas considerada “terrorista” por Ancara.

Pela terceira vez, em menos de dez znos, Ancara volta a lançar-se contra os curdos na Síria
Fotografia: DR

“As Forças Armadas turcas e o Exército Livre da Síria (rebeldes sírios apoiados por Ancara) iniciaram a operação “Fonte de Paz” no Norte da Síria”, declarou Erdogan através da rede social Twitter.
O líder turco considerou que a operação tem como objectivo eliminar a “ameaça do terror.”
Anteriormente, a televisão turca já tinha avançado com os bombardeamentos de caças a posições curdas no Norte da Síria, perto da fronteira com a Turquia.
Há muito que a Turquia ameaçava atacar a milícia curda. A decisão de Donald Trump de retirar as tropas norte-americanas do Norte da Síria, entregando à Turquia o controlo militar da região propiciou a ofensiva turca.
O Presidente dos EUA, Donald Trump, disse ontem que o envolvimento militar dos Estados Unidos no Médio Oriente foi “a pior decisão já tomada”, para justificar a saída de tropas da Síria.
O Governo dos EUA anunciou, no domingo, que não iria obstaculizar uma operação turca contra as milícias curdas, no Norte da Síria, dizendo que retiraria o contingente militar de várias zonas deste país, numa decisão muito contestada dentro e fora dos Estados Unidos.
Ontem, na conta pessoal da rede social Twitter, Trump disse que os Estados Unidos nunca deveriam ter-se envolvido em conflitos no Médio Oriente, onde “gastou oito mil milhões de dólares a lutar e a policiar.”
“Milhares dos nossos grandes soldados morreram ou ficaram gravemente feridos. Milhões de pessoas morreram, do outro lado. Envolvermo-nos no Médio Oriente foi a pior decisão já tomada na história do nosso país”, escreveu Donald Trump.
O Presidente norte-americano criticou, ainda, a intervenção militar no Iraque, no início deste século, dizendo que o país foi para a guerra “sob uma premissa falsa e desmentida, as armas de destruição massiva.”
Sobre a remoção da presença militar na Síria, anunciada no passado domingo, Donald Trump disse que a “Turquia deve tomar conta dos combatentes do Estado Islâmico detidos”, referindo-se aos cerca de 12 mil prisioneiros do grupo extremista sob controlo das milícias curdas.
“As intermináveis guerras estúpidas devem terminar, para nós”, concluiu o Presidente dos EUA, que aceitou não se envolver numa incursão militar da Turquia no norte da Síria, durante um telefonema com o Presidente turco, Recep Erdogan.

Reacção internacional

A decisão de Washington foi lida como um sinal verde para a ofensiva turca contra os curdos, que suscitou uma imediata reacção da comunidade internacional, bem como de ambos os partidos norte-americanos, a criticar a forma como Trump deixou desamparadas as milícias curdas, que lutaram ao lado do Exército norte-americano contra o Estado Islâmico.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, manifestou-se “muito preocupado” pela ofensiva turca na Síria.
“A ideia é mostrar que a França está ao lado das FDS (Forças Democráticas Sírias), porque são parceiros decisivos na luta contra o Daech (acrónimo árabe do grupo Estado Islâmico, ‘EI’), e que estamos muito preocupados com a operação turca na Síria e transmitiremos estas mensagens directamente às autoridades turcas”, referiram à agência noticiosa AFP círculos próximos do Chefe de Estado.
Os curdos do Norte da Síria, confrontados com a retirada do terreno do seu aliado norte-americano, decretaram, na quarta-feira, uma “mobilização geral” de três dias face à perspectiva de uma operação militar da Turquia a breve prazo e exortaram os habitantes da região à “resistência.”
Na segunda-feira, Paris exortou a Turquia a abster-se de qualquer operação militar na Síria, que contribuirá, segundo a França, para o ressurgimento do EI.

As duas anteriores operações

A ofensiva desencadeada ontem pela Turquia no Norte da Síria é a terceira operação militar de Ancara contra os combatentes curdos das Unidades de Protecção Popular (YPG) desde 2016.
De acordo com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a operação "Fonte de Paz" é dirigida contra os "terroristas" do YPG e do grupo 'jihadista' Estado Islâmico (EI), e tem por objectivo instaurar uma "zona de segurança" para "permitir o regresso dos refugiados sírios ao seu país".

Operação "Escudo do Eufrates"

Em 24 de Agosto de 2016, a Turquia lançou a operação militar "Escudo do Eufrates" no Norte da Síria, do outro lado da fronteira. Em algumas horas, centenas de rebeldes sírios apoiados pela aviação e tanques turcos conquistam a cidade de Jarablus aos 'jihadistas' do EI. Ancara considera as YPG como um prolongamento do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a rebelião curda no Sudeste do país que combate o Exército turco desde 1984 e considerada uma "organização terrorista" pela Turquia, Estados Unidos e União Europeia.

Operação "Ramo de oliveira"

Em 20 de Janeiro de 2018, a Turquia lança uma ofensiva terrestre e aérea designada "Ramo de oliveira" contra as YPG na região de Afrine (Noroeste), um dos três cantões da região autónoma curda do Norte da Síria (também designada por Rojava), assente no federalismo democrático, democracia directa, igualdade de género e sustentabilidade, autoproclamada em 2016.
No dia seguinte, tanques, veículos blindados e militares turcos entram na região de Afrine. O Primeiro-Ministro turco indica que o objectivo consiste no estabelecimento de uma "zona de segurança" com uma extensão de 30 quilómetros a partir da fronteira.
Em 18 de Março, as forças turcas e aliados sírios apoderam-se da totalidade de Afrine, até então controlada pelas YPG. De acordo com a ONU, metade dos 320 mil habitantes abandonaram as casas.

Rússia critica postura política norte-americana

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, disse, ontem, que a política norte-americana para a Síria pode “pegar fogo” à região, referindo-se à esperada intervenção militar turca.
Os curdos do Noroeste da Síria, junto da fronteira com a Turquia, ficaram “muito inquietos” depois do anúncio norte-americano sobre a retirada das tropas dos Estados Unidos, disse Lavrov, acrescentando que a situação pode “pegar fogo” à região.
“É preciso evitar isto a qualquer custo”, acrescentou o chefe da diplomacia da Rússia, que se encontra no Cazaquistão.
As autoridades semi-autónomas curdas da Síria apelaram “à mobilização geral durante os próximos três dias” contra a ameaça da Turquia e exortaram os habitantes do Norte da Síria a “resistirem.”
“Proclamamos ao estado de mobilização geral durante três dias no Norte da Síria”, anunciou a administração local curda através de um comunicado.
“Apelamos a todos os que fazem parte do nosso povo a dirigirem-se para a zona da fronteira (...) para garantirem a resistência, neste momento que é historicamente delicado”, frisa o documento das autoridades curdas.
No domingo, em contacto telefónico entre o Chefe de Estado turco, Recep Tayyip Erdogan, e o Presidente norte-americano, Donald Trump, os Estados Unidos deram “luz verde” à ofensiva da Turquia no Norte da Síria.
O objectivo turco é evitar que as milícias YPG/PYD, que Ancara considera uma extensão da guerrilha curda do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), venham a expandir posições no Norte da Síria junto da fronteira com a Turquia.
A operação militar centrada na margem Leste do Eufrates é a terceira intervenção militar de Ancara contra as milícias curdas no Norte da Síria desde 2016.
Ao mesmo tempo que se efectua uma ofensiva militar de larga escala no Norte da Síria, os Estados Unidos iniciaram a retirada dos soldados norte-americanos que se encontram na zona.
Washington exige que a Turquia se responsabilize pelos milhares de membros do grupo radical Estado Islâmico que se encontram detidos na região.

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