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UE quer conferência sobre crise no Mediterrâneo oriental

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, sugeriu, ontem, a possibilidade de organizar uma “conferência multilateral sobre o Mediterrâneo oriental” com a participação de Ancara, na sequência do agravamento das tensões na região entre Grécia e Turquia.

Turquia enviou navios de guerra para protecção de embarcações de pesquisa e prospecção
Fotografia: DR


“Já abordámos esta ideia de forma informal com diversos colegas europeus e colegas exteriores e igualmente com a Turquia”, declarou aos media.
“Não diria que existe um 'sim' claro, mas não existe reacção negativa sobre este assunto. A reacção foi antes 'Quais as modalidades? Quem poderá participar? Quais são os objectivos?'”, acrescentou.

Segundo Michel, esta conferência poderia incluir “todos os países envolvidos nas diferentes discussões sobre as fronteiras marítimas” no Mediterrâneo. Acrescentou que o encontro poderia ainda abordar os problemas relacionados com a energia, segurança ou as migrações.
As tensões entre Antenas e Ancara atingiram um nível alarmante, após a Turquia ter enviado no início de Agosto um navio de pesquisa sísmica, escoltado por vasos de guerra, para proceder a prospecções ao largo da ilha grega de Kastellorizo, a dois quilómetros das costas turcas, numa zona rica em hidrocarbonetos.

A situação agravou-se no final de Agosto quando os dois países efectuaram manobras militares rivais: Ancara com os Estados Unidos e de seguida com a Rússia, e Atenas com a França, Chipre e Itália.
A crise no Mediterrâneo oriental está incluída na agenda da cimeira europeia de 24 e 25 deste mês, em Bruxelas.
Charles Michel, que antes deste encontro tem previstas deslocações à Grécia, Chipre e Malta, reafirmou, ontem, a “solidariedade total” dos europeus com Atenas, que tem considerado a actuação de Ancara como um factor de desestabilização na região.
“Não aceitamos comportamentos unilaterais não conformes ao direito internacional por parte da Turquia. Estamos prontos a reagir se tivermos o sentimento de que estamos a ser desrespeitados”, sublinhou.

Ameaça de sanções

A União Europeia (UE) ameaçou a Turquia com sanções caso não se envolva num diálogo com Atenas para solucionar a crise. Michel precisou ter “testado a ideia” desta conferência multilateral com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.
Na quinta-feira, Stoltenberg anunciou que a Grécia e a Turquia aceitaram “iniciar negociações técnicas na NATO” para promover uma diminuição da escalada de tensão na região, mas Atenas desmentiu no imediato.

“As designadas 'discussões técnicas” sobre uma diminuição da tensão no Mediterrâneo oriental não correspondem à realidade”, assinalaram fontes diplomáticas em Atenas citadas pela agência noticiosa grega ANA-MPA. “A diminuição da escalada apenas terá lugar com a retirada imediata de todos os navios turcos da plataforma continental grega”, insistiram as autoridades gregas.
Em paralelo, o Presidente da República do Chipre, Nicos Anastasiades, manifestou inquietação pelo contexto “muito volátil” no Mediterrâneo oriental em torno da delimitação das fronteiras marítimas e as prospecções de jazidas de gás, que atribuiu à “agressividade” de Ancara, e exortou ao “diálogo”.

A descoberta de hidrocarbonetos

A descoberta nos últimos anos de vastas jazidas de hidrocarbonetos no Mediterrâneo oriental aguçou o apetite dos países da região, em particular Grécia, Chipre, Turquia, Egipto e Israel.
Os turcos têm intensificado as prospecções exploratórias ao largo do Chipre, suscitando uma reacção negativa dos países da região e da UE, que se referem a actividades “ilegais”.
No final de Agosto, os Estados Unidos anunciaram o levantamento parcial do embargo de armas ao Chipre, em vigor há 33 anos.

O embargo, imposto em 1987, foi justificado na ocasião como uma medida para impedir uma corrida aos armamentos que poderia comprometer os esforços de mediação da ONU para a reunificação do Chipre. Foi directamente dirigido contra a República do Chipre, a parte cipriota grega da ilha que ocupa o centro-sul da ilha e internacionalmente reconhecida. Chipre está dividida desde 1974 na sequência de uma invasão militar da Turquia após um fracassado golpe de nacionalistas cipriotas que pretendiam a união com a Grécia. A Turquia é o único país que reconhece a auto-proclamada República Turca do Chipre do Norte (RTCN), que ocupa o terço norte da ilha, e mantém mais de 35 mil tropas no terreno.
A Turquia reagiu vigorosamente à decisão dos EUA, que considerou contrária do “espírito da aliança” entre Washington e Ancara e avisou que a medida vai comprometer os esforços para a reunificação do Chipre.

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