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Zimbabué convoca embaixador norte-americano na capital após comentários da Casa Branca

O Governo zimbabueano convocou o embaixador norte-americano na capital após um conselheiro dos EUA ter acusado o Zimbabué de ser um dos “adversários estrangeiros” que tenta tirar partido dos protestos no país, noticia hoje a imprensa local.

Fotografia: DR

De acordo com o jornal estatal zimbabueano The Herald, o embaixador dos Estados Unidos da América (EUA), Brian Nichols, foi convocado para uma reunião com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Zimbabué após os comentários feitos pelo conselheiro Robert O’Brien no Domingo.

Numa entrevista à estação de televisão norte-americana ABC, citada pela agência Associated Press, O’Brien sugeriu, sem apresentar quaisquer provas, que o Zimbabué é um dos vários “adversários estrangeiros” – a par de China e Rússia – que tentam tirar partido dos protestos no país para “semear a discórdia e tentar danificar” a democracia nos EUA.

“Portanto vai haver uma resposta e vai ser proporcional, mas não é algo que os nossos adversários vão poder evitar”, referiu O’Brien. As declarações do conselheiro surgiram após este ser confrontado com uma publicação na rede social Twitter do senador republicano Marco Rubio, pelo estado da Florida, que abordou uma “forte atividade nas redes sociais associada a pelo menos três adversários estrangeiros”.

“Não criaram estas divisões, mas estão a incentivar e a promover activamente a violência e os confrontos de vários ângulos”, escreveu o senador. Na plataforma social Twitter, o secretário permanente do Ministério da Informação do Zimbabué, Nick Mangwana, rejeitou as acusações e escreveu que o país africano “não se considera um adversário da América”.

“O Zimbabué não se considera um adversário da América. Preferimos ter amizades e aliados a ter adversidades que não ajudam com quaisquer outros países, incluindo os EUA”, escreveu Mangwana no domingo. Em causa estão os protestos pela morte do afro-americano George Floyd, 46 anos, que morreu na noite de 25 de maio, em Minneapolis, após uma intervenção policial violenta.

Floyd foi detido por suspeita de ter tentado pagar com uma nota falsa de 20 dólares num supermercado. Num vídeo filmado por transeuntes e divulgado nas redes sociais, é possível ver um dos agentes pressionar o pescoço de Floyd com o joelho durante vários minutos. Neste mesmo vídeo, vê-se Floyd a dizer ao polícia que não consegue respirar.

Desde então, várias cidades norte-americanas, incluindo Washington e Nova Iorque, têm sido palco de manifestações, com os protestos a resultarem frequentemente em confrontos com a polícia. O Presidente norte-americano, Donald Trump, atribuiu os episódios de violência a grupos radicais e a extremistas, sendo que as autoridades estão a investigar se países estrangeiros estão associados a uma crescente campanha de desinformação nas redes sociais.

Até ao momento, o Presidente zimbabueano, Emmerson Mnangagwa, não tomou qualquer posição pública sobre a actual crise nos EUA. As relações entre Zimbabué e Estados Unidos apresentam-se tensas desde 2003, após Washington ter imposto várias sanções a responsáveis governamentais por alegados abusos dos direitos humanos e por fraude eleitoral.

As sanções surgiram no seguimento da expropriação, ordenada pelo então Presidente, Robert Mugabe, de terrenos agrícolas detidos por agricultores brancos. Mnangagwa, sucessor de Mugabe, é um dos mais de 80 zimbabueanos sancionados pelo Governo norte-americano, estando proibido de ter quaisquer contas bancárias nos EUA ou viajar até ao território norte-americano.

O actual chefe de Estado zimbabueano disse pretender normalizar as relações entre os dois países, mas os relatos de abusos dos direitos humanos levam os EUA a manter as sanções. As sanções aplicadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia limitam a possibilidade de agências multilaterais – como Banco Mundial ou Fundo Monetário Internacional – de concederem grandes empréstimos ao Zimbabué, que apresenta uma economia enfraquecida.

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