Opinião

A Terra é plana, ponto final

Osvaldo Gonçalves

Por mais que tentemos recuar no tempo, encontramos sérias dificuldades para compreender como, nos dias de hoje, em plena pós-modernidade, em que proliferam as tecnologias de comunicação, sejam estas, sobretudo as condições que proporcionam para a criação de plataformas de media social, o campo preferido para o ressurgimento de conjecturas a respeito da planicidade da Terra, em oposição ao que os cientistas conseguiram provar no século XVIII, ou seja, que o Planeta em que habitamos é redondo.

Nicolau Copérnico (1473/1543) era polaco, país com grande tradição religiosa e, sobretudo cristã. Ele próprio foi cónego da Igreja Católica, governador e administrador, jurista, médico e astrónomo, mas nascido na Polónia, que apesar de ser um país da Europa, localiza-se no centro do continente, logo, susceptível aos ventos de Leste. Daí o seu Heliocentrismo, teoria que colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a Teoria Geocêntrica, que colocava a Terra como centro de tudo, como era visto (e bem visto na opinião dos terraplanistas). Pouco importa se a teimosia de então, que achava toda a obra de Copérnico uma redonda mentira, tenha empatado Cristóvão Colombo na sua empreitada de pôr um ovo em pé.
Para os terraplanistas, a Terra é plana e ponto final, pois não se consegue ver a curvatura, quando se olha para a linha do horizonte ou se viaje de avião e as fotografias tiradas do espaço foram alteradas ou geradas por computador. A viagem da nave espacial Apollo 11, que a 20 de Julho de 1969, levou Neil Armstrong e mais dois colegas à Lua, momento celebrizado pela frase “Este é um pequeno passo para o homem, mas um enorme salto para a Humanidade”, foi, afinal, filmada por Stanley Kubrick num estúdio qualquer de cinema, assim como são forjadas todas as imagens feitas de Marte e de Plutão, no âmbito de uma conspiração da NASA, que assim consegue captar uma quantia absurda de dinheiro para projectos impossíveis. Caso ficasse provado que a Terra é plana, os EUA poderiam retirar muitos dos recursos destinados à pesquisa nessa área.
Mais: a teoria de que a Terra é redonda nasceu de um “acordo” entre os Estados Unidos da América e a então União Soviética que, durante a Gerra Fria tentaram lançar os seus programas espaciais, de forma a esconderem o fracasso das suas missões. Além de produzirem fotos e vídeos falsos, o plano maquiavélico entre norte-americanos e russos combinaram em conduzir o comportamento das pessoas nesse sentido, e até o GPS utiliza dados forjados a partir de outras técnicas de localização.
O movimento conta com um número considerável de membros, na maioria indivíduos famosos, e de meios, sobretudo de propaganda, para espalhar as suas teorias peuso-científicas. Segundo eles, que apresentam o seu impacto na internet como prova do seu mérito, a gravidade é uma mentira e 90 por cento da população mundial está a dormir em sono profundo, sob influência dos grandes meios de comunicação social.
Após algumas acções de relativo impacto, como a do grupo de hackers “Anonymous”, que, a 27 de Junho de 2017, defendeu a Terra plana num vídeo a contestar todas as informações que se conhece sobre o Universo, os terraplanistas pretendem agora ir mais longe. No próximo ano, numa expedição organizada pela Conferência Internacional da Terra Plana, vão enviar de barco um grupo de teóricos até à Antártida com o intiuto de chegar ao fim do mundo.
Criada em 2004, a Sociedade da Terra Plana, que apesar de possuir apenas algumas centenas (poucas) de membros, com com um site próprio e até uma biblioteca e uma galeria com mapas e organiza fóruns em que os participantes discutem as suas teorias, além de uma loja com ítens relacionados com tudo isso, insiste que “as agências espaciais do mundo” conspiram para falsificar “viagens espaciais” para esconder o “maior segredo” da Terra.
O grupo espera encontrar na Antártida um muro de gelo de cerca de 50 metros de altura e várias centenas de espessura, que provará ter a Terra a forma de um disco e que, ao vivermos numa “espécie de cúpula”, não seria possível “qualquer coisa poder cair da borda”.

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