Opinião

A diferença entre querer e poder

Vivaldo Eduardo

O entusiasmo gerado pela vitória de Angola sobre o Qatar, por 24-23, no Campeonato do Mundo de andebol sénior masculino, que decorre na Alemanha e na Dinamarca, trouxe a tona, uma vez mais, a nossa ousadia e ambição de sermos grandes, entre os maiores do Mundo.

Cepticismo à parte, não deixa de ser positiva, esta corrente de optimismo e motivação em torno dos Guerreiros de Filipe Cruz. Até porque, os êxitos desportivos, muitas vezes, dependem de momentos de inspiração, da força do querer e da determinação.
No entanto, tal como noutras grandes ocasiões, entendemos que este reforço positivo peca, por ser apenas ocasional. A participar pela quarta vez na prova maior do andebol mundial, o “sete” nacional merece, sem dúvida, melhores oportunidades de preparação e condições superiores de treino, para se aproximar, de facto, das qualidades competitivas doutras selecções.
Dois anos após a campanha decepcionante, em França, onde ocupámos o último lugar, o clamor em torno das qualidades da selecção masculina não deveria surgir apenas no Mundial seguinte. O país desportivo deve muito mais aos jogadores e à equipa técnica e os 24 meses que medeiam uma prova e outra deve(riam) transformar este entusiasmo e expectativa em acções concretas, tendentes a melhorar o nível dos Guerreiros.
E, começaríamos pela melhoria do sistema interno de competições, onde as equipas masculinas continuaram, em 2017 e 2018, a disputar um Campeonato Nacional “relâmpago”,  que ocupa dez dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, com um máximo de sete jogos por equipa.
Tivemos igualmente a possibilidade de incentivar o equilíbrio nas provas nacionais, como factor de progressão das equipas, pois a muito propalada integração dos jogadores em equipas europeias, por si só não eleva o nível da selecção. É necessário que, a par da saída de alguns, muitos outros tenham um quadro competitivo de qualidade, ao nível nacional, como garantia de surgimento de novos talentos.
Melhor que a do Campeonato do Mundo anterior, a preparação da selecção para a prova conjunta entre Alemanha e Dinamarca também poderia ter sido mais completa se os nossos jogadores, tal como os das outras selecções, tivessem a oportunidade de defrontar equipas nacionais mundialistas, em véspera da competição.
Independentemente dos condicionalismos financeiros e outros tantos que impedem a concretização deste anseio legítimo dos jogadores e equipas técnicas, os aspectos atrás enumerados são meramente rotineiros na preparação das demais selecções para eventos da dimensão de um Campeonato do Mundo.
E, quem quer muito mais da selecção, deve ter maior vontade de lutar para proporcionar estas condições, seguindo a máxima de que “para chegar ao êxito, a vontade de se preparar deve ser maior do que a vontade de ganhar”.
Previamente avisado da grande intensidade das acções de jogo, o treinador Filipe Cruz acredita que os seus rapazes precisam, em ocasiões futuras, de melhorar consideravelmente a sua condição física, não só por via do trabalho realizado diariamente nos clubes, como também a jogar mais vezes ao ano, “partidas a um ritmo estonteante”.
Para darmos corpo à ambição de ter uma selecção a brilhar no Campeonato do Mundo devemos, previamente, fazer um “real” investimento neste sentido e não esperar que, por milagre, coisas extraordinárias aconteçam.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia