Opinião

A apologia do grito

Caetano Júnior

Anda por aí um génio do conhecimento indiscriminado a tentar passar a ideia ou a insinuar que a autoridade de um Chefe de Estado depende da natureza do verbo que a imprensa emprega, quando se refere a actos por si praticados ou a atitudes tomadas. Portanto, para esse teórico da Psicologia Comportamental, transmitir o pensamento de um Presidente com recurso a “querer” e “pedir” reflecte a imagem de um líder “frouxo”, “que não se impõe”, “que não sabe fazer uso do poder que a lei lhe confere”.

Verdade? É sério? Definitivamente, não!
Para já, a força e a autoridade de um Chefe de Estado não dependem do que diz a Imprensa, quando se lhe refere, embora esta tenha o condão de lhe poder influenciar acções e atitudes, como o faz a qualquer um. A Comunicação Social é, de facto, capaz de lhe refrear um ímpeto ou lhe estimular um gesto, mas nunca é determinante no juízo final. De outra forma, jamais teríamos líderes mundiais vergados pelo peso da opinião desfavorável.
Por outro lado, a imagem e o poder de um Presidente jamais sairiam enfraquecidos, só porque um jornal referiu-se-lhe como tendo “solicitado” ou “pedido” solução rápida para um determinado problema. Quantos Chefes de Estado e de Governo, pelo mundo, protegem-se no “permitam-me”, a começar ou num outro trecho do seu discurso? Serão “frouxos”, por pedirem “permissão” para usar da palavra? Não terão simplesmente feito recurso à humildade e mostrado, também eles, respeito pela audiência; apreço por quem os ouve?
Na perspectiva em que o “Psicólogo Comportamental” teoriza o assunto, é “frouxo”, por exemplo, um Presidente que tem a hombridade de pedir desculpas, a nobreza de dizer obrigado, a simplicidade de fazer ouvir por favor ou o respeito de pedir licença. Para quem assim avalia, porque tem o amparo da lei, um Chefe de Estado “impõe” e “determina”. Só faltou acrescentar que deve marcar a sua actuação pelo autoritarismo, despotismo, arrogância e outros excessos que alimentam egos, castigam povos e arruínam nações. Protegidas por semelhantes teorias, tanto irresponsáveis quanto contraproducentes, ditaduras nasceram e prosperaram.
É preciso lembrar que, por mais discricionário que seja o poder que lhe é atribuído, por mais prerrogativas que lhe confira a Lei, um Chefe de Estado vive inserido na mesma sociedade que os governados, regendo-se, também ele, pelos preceitos que a regulam. São normas sociais, que incluem o “eu” e o “nós” e um ror de particularidades, entre as quais as ligadas à educação e a comportamentos. Há variadas formas de fazer cumprir a autoridade; de exercer o poder. Até ordens podem ser baixadas em tom respeitoso, porque quem é inteligente e está consciente do papel que lhe está reservado vai cumpri-las. Vociferar e usar palavras ou expressões inadequadas nem sempre produzem os efeitos esperados. Existem outros caminhos para se fazer ouvir e ser obedecido. Eis, portanto, uma abordagem que clama também por uma perspectiva sociológica e não apenas política.
Assim, quem associa o poder ou a autoridade de quem quer que seja ao uso de verbos, independentemente da intensidade, arrisca-se a fazer a apologia do grito. Hoje, opõe-se a “quer” e a “pede”, porque “frouxos” e indicadores de ausência de “firmeza na actuação” de quem os profere. Acredita que “manda” reflecte o domínio que emana de um Chefe de Estado. Amanhã, a implicação passará para com o tom de voz e a tese será de defesa do grito.
Mas não é preciso tanto. Quem sabe que manda dispensa quer o grito, quer palavras desajustadas de contextos. Muitas vezes, limita-se a olhar ... agindo em seguida.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia