Opinião

A medida do Labour

Caetano Júnior

Alastair Campbell, ex-chefe de gabinete de Tony Blair (antigo Primeiro-Ministro), foi expulso do Labour (o Partido Trabalhista britânico), depois de ter votado nos Liberais-Democratas nas eleições europeias, realizadas há cerca de uma semana.

Campbell admitiu sentir-se desapontado pelo afastamento, particularmente num dia em que, como escreveu numa rede social, estava, finalmente, a fazer algo de acertado em relação ao Brexit. Esclareceu, por outro lado, que votou nos Liberais-Democratas para tentar persuadir o Labour a fazer o que é certo para o país e para o partido.
Da situação acima descrita salta uma verdade inquestionável: Alastair já andava em desacordo com o Labour, que, segundo relatos, nunca se mostrou suficientemente firme na condenação do discurso anti-semita no partido. Eis, portanto, uma natureza de conflito muito comum dentro de agremiações políticas, que tende a aumentar, à medida que os membros vão tomando consciência dos direitos e das liberdades que lhes assistem. Para o quadro, concorrem, igualmente, as influências que sofrem do exterior do partido.
Contudo, existem outras nuances a avaliar, no rescaldo da opção de Campbell pelos Liberais-Democratas e da consequente expulsão do Labour, em cenários que talvez nos ajudem a, se não aceitar, pelo menos compreender situações semelhantes, no caso de ocorrerem no nosso contexto político. Note-se que a abordagem incide sobre uma das mais importantes democracias do Mundo, onde, aliás, nasceu a Magna Carta, tida como o “primeiro capítulo de um longo processo histórico que levaria ao surgimento do constitucionalismo”, segundo registos.
A situação de Campbell conjuga uma série de aspectos, entre os quais são relevantes não apenas os referentes aos direitos e liberdades dos partidários, filiados ou membros, como também os ligados aos deveres ou obrigações a que eles estão sujeitos. No caso, os trabalhistas ter-se-ão sentido ofendidos no âmago, porque alguém em quem confiaram depositou o voto no opositor.
O Labour pode, pois, avaliar o caso como “traição” - e da mais alta - e accionar um eventual “regimento interno”, para afastar quem o desrespeitou. Por outro lado, depois de se confirmar a aposta de Campbell numa bandeira que não a que defendia, independentemente das razões que motivaram a escolha, dá-se o início de um processo de natural quebra de confiança. Num ambiente assim descrito, não há por onde a coabitação se sustente.
É no Reino Unido, um dos pioneiros na democracia, onde se desenrolam estes eventos, que mais lembram cenários de liberdades emergentes em África, em partes da América Latina e da Ásia. É o mais bem acabado exemplo de que deve haver limites ao exercício de expressar ideias contrárias às de um partido, de um grupo, de uma associação ou de um movimento em que nos engajamos ou com o qual estamos, de alguma forma, comprometidos. Sobretudo na situação em que a “liberdade de expressão e o direito à opinião” são exercidos externamente, a partir de fora.
O contexto democrático em Angola ainda é muito novo, uma vez que a abertura ao multipartidarismo deu-se apenas em 1992. Só mais recentemente, muitos angolanos compreenderam que portavam “ferramentas” como a liberdade e os direitos. Essa realidade chegou-lhes com o advento da globalização e das novas tecnologias, que se traduziu num mundo à distância de um “click”, no qual os acontecimentos são gerados e vistos, em simultâneo e por quem quiser, independentemente do momento e de onde ocorram.
Nesse seu curto percurso democrático, o país não tem registo de, numa eleição, membro de um partido votar a favor de outro, ainda que juntasse razões para o fazer, alicerçadas em eventuais contradições internas ou em confrontos de ideias. Pelo menos exemplos como o de Alastair Campbell estão por tornar públicos. Conhecem-se - porque transpiraram para o domínio informativo - desentendimentos, mas que nunca chegaram a ser motivos suficientes para condicionar o voto. A disciplina partidária marcou por longos anos o quotidiano de “cores políticas” em Angola, custasse o que custasse, de tal modo que algumas delas viveram ameaças de “implosão”.
Mas não será já a hora de um ou outro partido em Angola avançar para acções mais enérgicas, mais firmes - radicais até, como fez o Labour -, directamente proporcionais ao gesto ou à atitude desafiadora de um membro? Há partidários que abusam do “livre arbítrio”, que se excedem na liberdade de expressão e no direito à opinião; socorrem-se da “democracia interna” para conspurcar e chamuscar a imagem da agremiação e de figuras a ela ligadas. Enfim, há políticos cuja postura “convida” a que sejam simplesmente afastados da agremiação, porque qualquer medida correctiva teria sobre eles o mesmo efeito que um elogio.
A expulsão de membros desta estirpe não favoreceria o emblema político, não o resguardaria? Teria alguém a coragem de acorrer em defesa, chamando “anti-democráticos” àqueles que pretendem apenas proteger-se de um suposto co-partidário e “cerrar fileiras em torno do partido”? As sociedades movem-se por interesses, assim como o faz quem, em nome de uma pretensa democracia, afronta a causa que jurou defender e cujos interesses prometeu zelar.
Quando um membro desafia ou confronta o partido, sobretudo fora de um âmbito convencionado para o efeito ou publicamente, não é, necessariamente, a ideia da consolidação da democracia interna que sai reforçada. É comum, nessa situação, a imagem de sobriedade do emblema partidário sair lesada e a história e a tradição que o prestigiam, e o fazem grandioso, entrarem em colapso e começarem a ruir.
É longo e exaustivo o labor de edificar um partido; é um processo de estruturação que leva tempo e arregimenta esforços, físicos, morais e intelectuais. Por isso, é normal que partidários mais zelosos se esforcem por o manter de pé e procurem deixá-lo a salvo de ameaças, sobretudo das que vêm de dentro. Ainda que cheguem simplesmente sob a forma de falta de decoro.

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