Opinião

A normalização do caos

Caetano Júnior

Há menos de um mês, o Jornalismo e a Comunicação em geral estiveram no centro de um debate, que juntou membros da comunidade que os identifica e representantes de outros saberes, num evento que decorreu em Luanda.

Os temas levados à mesa, ao longo desse dia em que os “Desafios da Comunicação Social Angolana” foram dissecados, não apenas suscitaram discussão, como também fizeram concluir que, sobre a matéria, urge séria reflexão.
As contribuições deixadas à guisa de recomendação, as provocações explícitas, os questionamentos que mereceram a defesa de algumas ideias ou a exposição de situações que conformam o actual contexto do Jornalismo e da Comunicação enriqueceram o fórum, do mesmo modo que o valorizou a contribuição da audiência. No rescaldo, fica a certeza de que a profissão que nos une enfrenta o seu mais sério desafio, desde os tempos da “Acta Diurna”, do imperador Júlio César.
De facto, parece estar o Jornalismo povoado de situações que lhe fazem perder credibilidade, estabilidade e espaço na preferência de considerável parte de leitores, fazedores de opinião e público em geral. Não porque deixou escapar a tradição de anos como veículo de informação credível e de escolha quase unânime, mas por causa destes novos tempos, de eventos pressurosa e intencionalmente mal produzidos, gerados com o único propósito de baralhar, confundir e até de lançar a discórdia.
Ao mesmo tempo que lhe servem de alavanca modernizadora, quando, por exemplo, o auxiliam na acção de, no espaço de um pestanejar, fazer chegar a informação a um telemóvel ou ter o digital como alternativa ao papel, as novas tecnologias, na sua função dúbia, também contribuem para o ocaso que parece colher o chamado “Quarto Poder”. Afinal, puxam-lhe o pedestal no qual se alcandorou ao longo dos tempos, na situação em que abrem a possibilidade de a desinformação “orbitar” livremente, sob a influência de gente movida pela maldade e que tem na mente a criação do caos.
O quadro actual lembra o que se diz da “Teoria do Caos”, segundo a qual “pequenas mudanças no início de um evento podem desencadear alterações drásticas, profundas e imprevisíveis ao longo do tempo”. Afinal, falsos acontecimentos insistentemente difundidos têm, na verdade, desembocado em confusão, não poucas vezes de proporções incalculáveis. E parece não haver vontade de os parar ou, pelo menos, estratégia para os conter, embora o fenómeno “Fake News” seja reconhecido como extremamente danoso e digno dos maiores cuidados.
Mais atenção ainda merece o problema, numa altura em que mentes conformadas ou interessadas na propagação das “Falsas Notícias” protegem-se na “verdade alternativa” ou na “pós-verdade”, para verem legitimado o direito de espalhar boatos - lembram-se do “inimigo do povo?”-, como se de factos reais e consagrados se tratasse.
No mesmo âmbito, enquadra-se a expressão “Jornalismo Cidadão”, que dá a qualquer um o estatuto de “profissional da imprensa” e o direito de, com o recurso ao telemóvel ou à câmara que carrega a tiracolo, filmar e fotografar tudo o que tiver potencial para acumular “likes” nas redes sociais, sem avaliar “o que?”, sem regras, nem normas, ao arrepio do direito à imagem, à privacidade ou ao bom-nome. Independentemente do eufemismo que lhe couber - “Jornalismo Open Source” ou “Jornalismo Colaborativo” -, a prática deve ser avaliada como caminho para a normalização do caos.
Entretanto, a produção e a disseminação de informações falsas podem até condicionar a actividade da Imprensa, na medida em que esta tem sempre de correr atrás, numa pressão provocada pela necessidade de verificar factos e cruzar fontes. Porém, nunca lhe hão de pôr em causa a credibilidade e a confiança. Ao contrário dos promotores do caos, o jornalista exerce a actividade com base na regulação e em pressupostos científicos. Por exemplo, a produção da notícia obedece a normas. Nas “redes sociais”, ao invés, o que circula são informações sem os critérios jornalísticos.
Por outro lado, as “Falsas Notícias” alimentam-se, além das intenções dolosas de quem as dissemina, da negligência, ignorância ou do analfabetismo de grande parte dos seus destinatários. Tivéssemos um pouco mais de literacia geral e o caos teria desviado do curso ...

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