Opinião

A patente do desgosto

Caetano Júnior

Ao longo dos 365 dias do ano passado, morreram, em estradas de Angola, 2.327 pessoas e 11.768 outras ficaram feridas, em 10.710 acidentes.

 Destes, 4.063 foram atropelamentos, de acordo com a Direcção de Trânsito e Segurança Rodoviária. Se os números não são trágicos o suficiente, para nos darem a verdadeira dimensão do drama, vamos, então, rodeá-los de outra proporção, quem sabe, assim, consigamos perceber a gravidade da informação que nos transmitem. Portanto, estes mesmos dados representam, em média, 892 acidentes por mês, 223 por semana e 32 por dia; os óbitos distribuem-se em 193, 48 e sete. Já os feridos são 980, 245 e 35, enquanto os atropelamentos chegam a 338, 85 e doze.
Destapados os números, avancemos para a dramática situação que representam: há todos os dias pelo menos sete mortos e 35 pessoas com mazelas (incluindo as do foro psicológico) resultantes de acidentes rodoviários. Diariamente, somam-se novas famílias a chorar a morte de um ente-querido e outras a contas com o transtorno que é ter alguém hospitalizado ou em casa, privado dos movimentos mais básicos. A todo o instante, mais indivíduos engrossam a fila de espera por uma cirurgia, na Pediatria de unidades sanitárias, e médicos, cada vez em menor quantidade, vêem aumentar o universo de pacientes que aguardam por atendimento.
Mas as consequências da sinistralidade rodoviária para o país e para a vida das pessoas não ficam por aqui. Os relatos que nos chegam sobre o deficiente atendimento em unidades são também resultado do fluxo de utentes que registam. Não há quantidade suficiente de hospitais, nem nestes as condições necessárias para responder à demanda diária que vem das estradas, se lhe juntarmos vítimas de outra natureza de problemas, como doenças, incidentes domésticos, acidentes de trabalho ou violência urbana.
Por outro lado, os efeitos de atropelamentos ou de colisões sobre a economia são devastadores. Mesmo para as famílias. Para este ano, aos Serviços Hospitalares Gerais cabe uma dotação de 141.749.466.026,00 de Kwanzas (do total de 797.338..185.119,00 do orçamento reservado à Saúde), valor que podia ser suficiente, se não para optimizá-los, pelo menos para melhorá-los, se as estradas não consagrassem um manto tão funesto. Portanto, os elevados casos de traumatismo têm afectado os custos dos hospitais. Há, por outro lado, a certeza de que são os jovens - a força motriz e produtiva de uma Nação - as principais vítimas do trânsito e que agregados inteiros acabam financeiramente destroçados, por um acidente ter ceifado a vida da sua principal fonte de renda ou a ter deixado incapacitada.
Todos fazemos ideia de quanto custa a cobertura dos prejuízos materiais que envolvem acidentes de trânsito, mas estão por avaliar os danos psicológicos e os traumas que resistem aos meses subsequentes. Há vítimas que jamais recuperam das consequências destas tragédias; há chagas que ficam para sempre, tolhendo seres humanos que muito tinham para oferecer. Há casualidades que nos marcam para sempre, para o bem ou para o mal. Mas é dos efeitos negativos que falamos. E as causas devem ser inibidas, com medidas que incluam alterações ao Código de Estrada, melhoria das condições das vias e punição severa de atitudes avessas às normas que regem a condução.
Uma comunhão de situações alinha-se para que ocorram demasiados e trágicos acidentes de trânsito pelo país. Desde as más condições de estradas à condução em estado de embriaguez. Pelo meio, perfilam-se a deficiente sinalização, a falta de iluminação, a indisciplina de peões e de condutores, o mau estado técnico de viaturas e outros factores que clamam por mais do que simples acções de sensibilização. Para já, urge a reactivação do bafómetro - que sejam feitos os ajustamentos ao Código e à restante legislação que se julgarem oportunos -, instrumento de enorme carga inibidora, que já deu provas da sua utilidade.
Também é premente baixar o limite de velocidade máxima permitido dentro das localidades, como o fizeram já países com mais moderno parque automóvel, rodovias mais funcionais e melhores iluminação e sinalização. Impõe-se, igualmente, uma equilibrada distribuição dos semáforos. A realidade actual mostra, ainda, peões demasiado crentes em que o condutor do veículo os vê, enquanto transpõem uma avenida mergulhada na penumbra. Mas quase sempre não. São apenas vultos! Hoje, aceitamos que um qualquer ramo ou pedra substitua o triângulo ou que um único farol irradie luz na viatura que vem em sentido oposto, em zona escura. Para não falar já da travessia fora das passadeiras ou da pedonal, com esta ali ao lado, a servir de área comercial.
Urge, igualmente, impedir que famílias inteiras transponham, às vezes de mãos dadas, avenidas largas e de tráfico intenso, nas quais a travessia de peões é desaconselhável, a menos que se faça nas pedonais. É preciso que se desconfie do automobilista e do peão, partindo do pressuposto de que pode ser negligente, estar desatento ou abstraído das suas normais faculdades. Que sejam, finalmente, inspeccionadas as auto-escolas e encerradas as que carecem das mínimas condições para a formação de automobilistas e não fazem mais senão ganhar dinheiro a troco de enviar novos assassinos para as estradas, estas, por seu lado, já carregadas de defeitos de fabrico.
É, pois, de uma revolução que depende o fim dos números trágicos em estradas. Porque nós, em Angola, não podemos continuar a viver como se fosse nossa a patente do desgosto.

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