Opinião

A Europa da vergonha

José Ribeiro |

Mais de 300 imigrantes africanos morreram há uma semana nos mares da Europa que se tornam mais frios nestes meses, com a chegada do Outono. O velho mundo europeu parece ter perdido a cabeça e erguido um muro pior que o de Berlim.

Ninguém pode ser insensível ao massacre de Lampedusa e às tragédias que se sucedem em território europeu, por causa de políticas migratórias erradas e desumanas e um tratamento selectivo para quem ali chega. A Europa está transformada num cemitério de milhares de seres humanos e os políticos procuram agora bodes expiatórios.
Os governantes europeus dizem que os imigrantes africanos massacrados fogem das guerras e da violência nos seus países. Tenho dúvidas sobre isso. Na verdade, os imigrantes africanos que morrem às portas da Europa são atraídos pelo brilho da riqueza que transborda do velho continente, pelo Estado de direito “exemplar” e pela democracia “avançada” de que nos fala uma deputada portuguesa que sacode para Angola a frustração de uma derrota eleitoral. A democracia da deputada respeita os mais elementares direitos humanos dos europeus, mas recusa-se a receber os sacrificados do mundo.
O massacre de Lampedusa ocorreu no momento em que todas as embaixadas europeias limitaram a concessão de vistos de viagem. O efeito em Angola foi sentido. Imagino as consequências dessa medida à escala mundial. As grandes capitais europeias, egoístas e frívolas, continuam a fomentar a crise económica, os conflitos e as guerras, mas depois ignoram que isso resulta em pessoas famintas à procura de alimentos, refugiados desesperados em busca de abrigo e homens que precisam de emprego. Haverá sempre alguém a bater-nos  à porta e a solução não pode ser a desumanidade. O massacre de Lampedusa é apenas uma ponta do monstro em que se pode transformar a Europa. Apesar do que sucedeu, há notícia de que milhares de africanos continuam a querer entrar na Europa e continuam a ser impedidos. Morrem porque lhes é recusado o acolhimento com dignidade.
A Europa tem um novo muro de Berlim e está transformada numa fortaleza insensível ao sofrimento . Nem os campos de concentração nazis eram tão vigiados e sinistros como são hoje os portos e aeroportos europeus. O pente é mais fino e por isso milhares de africanos, incluindo mulheres e crianças, morrem ao largo da ilha de Lampedusa.
A crueldade dos políticos europeus não tem limites. O Papa Francisco tem razão. Chorem todos as mortes desses que só queriam matar a fome e respirar um pouco de ar puro, porque estão fartos de ver o brilho do Céu à distância, enquanto sentem o cheiro a pólvora e os mortos dos bombardeamentos no Inferno. Lampedusa é a vergonha da Europa.

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