A falsa crise das empresas e dos negócios

José Ribeiro |
9 de Abril, 2017

Um bom instrumento para avaliar a intensidade da actividade económica é o nível de empreendedorismo. O índice de empreendedorismo relaciona o ambiente económico com a atitude empreendedora individual e permite saber se tudo isso produz uma actividade empresarial dinâmica.

Por aí se fica a perceber se as instituições que facilitam o surgimento das chamadas “start-up”são eficientes ou se há estrangulamentos que prejudicam as oportunidades de negócio.
A paz conquistada há 15 anos gerou um surto de criatividade na juventude angolana nunca antes visto. Talvez pela forma inclusiva como foi conseguida a reconciliação e o respirar da liberdade, o aspecto mais visível da criatividade esteja na música e na dança. Mas o génio criador angolano está por todo o lado, no quotidiano das cidades e do campo.
A iniciativa empreendedora no campo empresarial era já manifesta no tempo do milagre económico assente na alta do preço do petróleo, mas volta a revelar-se de maneira extraordinária em tempo de abrandamento económico. É puro  exemplo disso o ressurgimento do mercado informal, em que a mulher assume novamente uma função inovadora e de vanguarda. O crescimento do informal contrasta com o hábito de algumas classes e grupos sociais, de olharem apenas para o Estado e para as grandes e estáveis instituições e empresas, depositando nelas as suas expectativas de emprego e rendimento. A decisão para o caminho do mercado paralelo é diferente, é espontânea, a ilusão das vantagens é imediata, exige arrojo, não depende da lógica do prazo formal nem da burocracia na obtenção do lucro.
Ora, há muita vida económica para além do Estado, das grandes empresas e do mercado informal. As pequenas, médias e micro empresas nacionais são um segmento da economia nacional que tem uma função importante a desempenhar. Por causa dos benefícios que este segmento transporta, nomeadamente em termos de protecção, direitos, coesão e contribuição social, é expectável que venha a ganhar, nas próximas décadas, um peso mais elevado na economia. A sua importância não é menosprezável e pode ser um elemento para medir o surto de empreendedorismo angolano.
Na última semana percorri os corredores de alguns guichés e balcões que ajudam a criar as empresas angolanas. Fiquei espantado com o que vi. O movimento de pessoas no Guiché Único da Empresa (GUE) e no Balcão Único do Empreendedor (BUE) é frenético. Desde as primeiras horas da manhã, tipo Bolsa de Valores, as duas incubadoras de empresas enchem-se de gente que corre de um lado para outro, a entregar documentos e a preencher papéis. Vão dos serviços de Registo e Notariado para o Comércio, dos Impostos e Contribuições para os Bancos, das Finanças para a Imprensa Nacional, tudo serviços instalados num mesmo e amplo escritório. Junto à velha Marginal de Luanda, o movimento de pessoas no GUE só começa a abrandar depois do meio da tarde. O atendimento é organizado e feito por profissionais muito jovens, mas bem informados e qualificados. Nunca vi nada igual.
Um outro aspecto que me chamou a atenção, é que quem aparece a constituir empresas são, sobretudo, jovens. Nada comparado com a imagem tradicional e corrente do empresário de meia-idade. Pela localização das empresas constituídas, vê-se ainda que são de várias origens, do Huambo, do Uíge, do Lobito, de Luanda, e não têm dificuldade em orientar-se, dentro daquele labirinto de serviços identificados com sinalética própria. Em apenas um dia é possível ter todo o processo pronto e entregue. Os negócios em que se lançam esses jovens são também variados. Uns entram na exploração mineira, no comércio, no imobiliário, nos serviços, outros na indústria, na limpeza, nos transportes, na agricultura. Seja qual for a motivação destes novos empresários angolanos – a necessidade de rendimentos ou o aproveitamento das oportunidades –, parece-me que o aumento da criação de empresas em Angola representa um claro sinal do forte sentido empreendedor dos angolanos e de uma recuperação económica a despontar no horizonte.
O empreendedorismo é importante porquê? Porque o próximo grande desafio dos angolanos, depois das batalhas da libertação, da independência, da paz e da reconciliação, será a batalha da economia. Essa batalha vai exigir muitas décadas de trabalho, de sacrifício, de inteligência. A fuga a essa batalha deixará a via livre à vontade externa, aos patos bravos e aos especuladores.
É bom ver que a juventude angolana está a abraçar essa luta.
Os dados estatísticos disponíveis revelam que o tecido empresarial angolano apresenta uma tendência crescente. Entre 2015, segundo os números do INE, estavam em actividade 41.507 empresas contra 39.884 em 2014, e 96.508 aguardavam o início da actividade, contra 75.271 no ano anterior. Em 2015 apenas 1.692 empresas suspenderam a actividade e 273 foram dissolvidas, uma cifra irrisória. A estatística publicada no sítio on-line do GUE, organismo criado em 2003 e em fase de reactivação, indica que até sexta-feira tinham sido constituídas 19.789 empresas, um bom indicador do empreendedorismo nacional se for actualizada diariamente.
Este pequeno “boom” do empreendedorismo jovem angolano mostra, portanto, que, verdadeiramente, não há uma crise nas empresas e nos negócios. As oportunidades de negócios não entram em crise, nem a necessidade de fazer negócios entra em crise.
O sucesso na batalha económica de Angola vai ser medido pela dimensão, a qualidade, a capacidade e o poder que adquirir a classe empresarial angolana e pela  sua aposta em ajudar a combater a pobreza e as desigualdades sociais. Essa classe terá de  dominar as rédeas da economia e ter presença descomplexada nos negócios internacionais, ombreando de igual para igual com os grandes “players” estrangeiros. Os nossos homens de negócios vão ter de suplantar as barreiras que se levantam pelo mundo, iguais aquelas que se erguem hoje em Portugal, por aqueles que querem o bolo todo apenas para si. A solução para isso não é abandonar o campo, é voltar à luta. Ninguém pode negar aos angolanos o mesmo direito que têm os cidadãos de outros países de fazerem negócios e movimentarem-se livremente no mercado internacional.
Neste ano eleitoral, veremos gente como Rafael Marques confundir os negócios em África com corrupção. Para ele e os seus patrões corruptores, os africanos são naturalmente corruptos e incapazes de fazerem uma boa gestão financeira e patrimonial. Essa é a mentalidade colonial que volta a dominar hoje a Europa, onde os eurodeputados e altos responsáveis já não têm pudor em ofender as mulheres e os países do Sul. O objectivo de gente como Rafael Marques é afastar os angolanos do jogo de um comércio mundial justo. A essa ignomínia, os jovens angolanos respondem com mais empreendedorismo.
A gestão empresarial e os negócios são uma batalha difícil, mas a resignação não é o caminho.

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