Opinião

A questão difícil da Coreia do Norte

José Ribeiro|

O problema bicudo que se está a gerar à volta da Coreia do Norte é uma das mais sérias ameaças à paz e segurança internacional.

Ainda ontem, Pyongyang voltou a testar um míssil intercontinental, que os especialistas dizem ser capaz de atingir Los Angeles e outras cidades norte-americanas. Como vem sendo hábito, o lançamento do míssil aumentou a irritação em Washington, Seul e Tóquio, aumentando os riscos de retaliação.
Os acontecimentos na Península Coreana já não podem ser vistos apenas na estrita esfera do desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano. Coloca-se a necessidade de soluções. O agravamento deste problema, que se torna global, só trará tragédias para o planeta.
Não é preciso ser perito em assuntos de armamento nuclear para perceber que este problema relacionado com a Coreia do Norte pode conduzir a uma catástrofe nuclear. Os líderes mundiais, em particular as Nações Unidas e suas agências, devem ouvir o que Pyongyang tem a dizer e não se deixarem arrastar pelas caracterizações grotescas e adulteradas que diariamente nos chegam dos grandes “media” internacionais.
O desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano não é recente e já foi objecto, pelo menos até 2012, de negociações entre a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e as autoridades da República Democrática e Popular da Coreia (RPDC). Isso é prova que Pyongyang já demonstrou ter vontade política para discutir e solucionar este assunto pela via do diálogo. 
A posição do passado contrasta com a imagem dura norte-coreana que transparece agora. Importa então saber o que terá levado a RPDC a mudar de atitude. Se a RPDC já esteve seriamente envolvida no Tratado de Não Proliferação Nuclear, é preciso perceber qual a razão por que este país, que deu também importantes passos na reconciliação com a Coreia do Sul (agora em retrocesso), decidiu enveredar de repente por um linha militarista e, aparentemente, suicidária. 
Pelo que se conclui da análise de todo o processo de negociações entre o Ocidente e a RPDC, o motivo da mudança de conduta de Pyongyang está no facto de os compromissos assumidos pelos Estados Unidos, que substituíram o grupo de potências ocidentais na negociação, não terem sido plenamente cumpridos. Durante o processo negocial, Washington fez uma série de promessas de ajuda económica à RPDC, em troca desta suspender o seu programa nuclear, e não só não respeitou os seus engajamentos como encabeçou um esforço internacional de aplicação de sanções, que agravaram ainda mais a situação interna da Coreia do Norte. Como é evidente, depois de violado o acordado, o que o líder coreano Kim Jong-un está a fazer é jogar – de maneira perigosa, é certo – com os instrumentos de pressão que lhe restam: o poder nuclear.
O caso da Coreia do Norte não é único. Com o Irão passou-se o mesmo. As sanções norte-americanas a Teerão só levaram os iranianos a prosseguir o seu programa nuclear. Com este país, felizmente, foi possível chegar em 2015 a um acordo nuclear com as potências ocidentais. Mas o actual Presidente dos EUA, Donald Trump,  começou já a pôr em causa esse tratado, e novamente temos o Irão a testar mísseis. O exemplo de Cuba é, também, paradigmático de como avanços verificados na cena internacional acabam por ser gorados por um dos lados.
A resposta necessária, porque consistente e duradoura, para a crise na Península Coreana, já se viu, não se pode traduzir em deixar a situação apodrecer, acentuando os factores de conflitualidade presentes ou extremando a propaganda e ridicularizando os norte-coreanos, como se tornou recorrente na linguagem ocidental, mas saber quais são as causas reais do problema, ouvir os argumentos de cada uma das partes e honrar os compromissos decorrentes dos acordos alcançados. 
A responsabilidade de levar ao êxito um processo desta natureza cabe, obviamente, às Organização das Nações Unidas. Se a ONU falhar, os riscos de uma guerra nuclear crescerão. A ninguém isso serve.

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