Opinião

A raiz do problema

Caetano Júnior

Nos últimos tempos, chegam-nos notícias sobre assaltos, burlas, extorsões, violência e morte, que nos deixam perplexos, porque demasiado horríveis para se rodearem de verosimilhança. No rescaldo dessas informações, somos levados a tentar compreender como podem eventos desses ocorrer; como tão hediondos actos são praticados e por quem, sobretudo, quando, entre os protagonistas, contam-se adolescentes e jovens. É verdade que o criminoso não o é pela faixa etária, cor da pele, estrato social ou grau académico. É-o, simplesmente, impelido pelas mais diferentes razões, entre as quais as de índole social.

De qualquer forma, existem criminosos cujas razões para que enveredem para o caminho da delinquência suscitam outra natureza de questionamentos ou uma diferente perspectiva de avaliação, que não a habitual e óbvia “contingência” que qualquer de nós é capaz de depreender. Por exemplo, nos meses mais recentes, ganham relevância delitos de jovens que, aparentemente, não têm motivos para os cometer, porque, pelo que deixam ver, vivem protegidos das necessidades sociais mais prementes,  para cujo preenchimento alguns têm no crime a alternativa ou solução.
Portanto, são jovens que têm como alicerces famílias estruturadas, que lhes procuram conferir educação e instrução e lhes apontam o caminho da rectidão. Muitos deles têm formação superior, estão empregados e levam uma existência que se pode considerar “agradável”. Ainda assim, cometem crimes, alguns verdadeiras atrocidades, deixando parentes e amigos sem compreender a transmutação sofrida por seres que julgam conhecer. Eles não apenas defraudam, como também chegam a matar para ficar com bens das vítimas, como se a vida fosse tão residual, que devesse ser comparada a uma viatura, uma motorizada ou um telefone.
Assim, ao invés de simplesmente lamentar a usurpação do que é alheio ou a perda de vidas, a sociedade deve também analisar prováveis causas de fundo que subjazem a essas acções delituosas assinadas por chamados  “filhinhos de papai”. Afinal, alguns dos criminosos são jovens de família, bem parecidos, frequentadores da dita alta sociedade e que, à partida, têm o que comer, o que beber e onde e quando se divertir. Também são detentores de viaturas, algumas delas só acessíveis a pessoas financeiramente robustas.
O presente pode, entretanto, colocar bases para a discussão do problema. Atitudes que pais e encarregados de educação ainda afivelam, na maneira de lidar com dependentes, sobretudo mais novos, talvez ajudem a reproduzir os passos que levam a que, hoje, jovens de família se transformem em burladores e assassinos; em corpos nocivos que não oferecem vantagem alguma à sociedade. Minúsculos exemplos: filhos parecem ter poder sobre os pais, de quem esperam e recebem tudo; tutores incapazes de dizer  “não” ao tutelado, ainda que, no fundo, admitam que ceder não é a solução; encarregados de educação que vão ao desespero, ao mínimo sinal de desconforto da criança, quando lhe é negado um pedido.
Portanto, no gesto de ceder indiscriminadamente, existe um perigo, cujas consequências podem traduzir-se na destruição do homem que hoje habita na criança. Cada vez mais tem razão o filósofo e matemático grego Pitágoras:  “Eduquem as crianças, para que não seja necessário punir os adultos”. Há pais que não avaliam as consequências no gesto de dar conforto ao filho, enchendo-o de mimos e de presentes, incluindo os que não se ajustam à sua idade ou os que ele pode perfeitamente dispensar. É uma forma que encontram para compensar as ausências física e afectiva, como se objectos pudessem preenchê-las. 
São, pois, crianças a quem nada falta, sobretudo o “sim”, que ouvem dos pais ou de quem as tutela, sempre que querem algo. O menor sequer sabe que a palavra “não” é uma negação. Que mal há? Nunca a escutou! E ultrapassa as fases do crescimento a tudo querer e a tudo ter, até ao dia em que, por qualquer eventualidade, quem o atende já não tem capacidade para só responder  “sim”.  O agora adolescente ou jovem pode até reunir as condições mínimas para levar a vida, mas não se conforma com as limitações que a  nova realidade lhe impõe.
Criminosos que hoje nos fazem abrir a boca de espanto, porque não reúnem perfil, porque de boas famílias ou porque não vivem em meio a carências, o que ajudaria a associá-los à delinquência, podem ter seguido o percurso atrás descrito, até chegar à condição por que respondem. Eles têm hoje a mesma necessidade de ontem de viver na opulência e manter o estatuto perante quem sempre os viu como fidalgos. Por isso, procuram fazê-lo, a qualquer custo, o que inclui acções delituosas. Obras relativas à Educação e à Psicologia alertam para os cuidados a tomar ou a melhor forma de proceder, para que crianças não corram o risco de se transformar em adultos em conflito com a lei.  
Portanto, não existem dúvidas de que “a única coisa de valor que podemos dar às crianças é o que somos e não o que temos”. Disse-o Leo Buscaglia, escritor italo-americano.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia