Opinião

A viragem no caminho da América

José Ribeiro |

Se o mundo estava em estado de suspense à espera das eleições americanas, com a vitória de Donald Trump e o seu discurso de investidura na sexta-feira as coisas ficaram melhor definidas.

 A ideia de defesa do perdido orgulho da América, avançada de forma explícita pelo novo Presidente dos Estados Unidos, falando numa “América Primeiro”, mesmo na relação com o resto do planeta, contrasta com os oito anos de Obama e seus antecessores. Só agora é possível perceber qual foi a mudança de Obama – ou o seu falhanço. 
Do lado do novo Presidente, as dificuldades nascem no interior do próprio país, onde a contestação começou. Numa era de globalização de tudo, está para ver como o novo Presidente vai conjugar uma política de proteccionismo económico sem prejudicar as empresas que se deslocalizaram para fora dos Estados Unidos  para reduzirem os custos de produção e maximizarem o lucro, sendo claro que não poderão ser elas a pagar a despesa. 
Interessante seguir o caminho da América de Trump. A expectativa permaneceu até Trump começar a aplicar a primeira das suas medidas, acabando com o “Obamacare”, que alargou a cobertura do seguro de saúde a milhões de americanos. O novo hóspede da Casa Branca mostra que vai mesmo realizar as promessas e que ninguém o vai parar. Para já, o surto de violência gerado com a subida do multimilionário ao poder é mais o reflexo da derrota dos Democratas e de Hillary Clinton do que do arrastamento e agravamento das debilidades e distorções de que enferma o sistema democrático norte-americano. O país líder do Mundo Livre está a mostrar ser menos perfeito do que se dizia. Esta é a vez de Trump. 
O combate de Barack Obama não resultou num sucesso. O próprio Obama reconheceu que muita gente nos EUA não vota por causa de ameaças ou medo de represálias. As fraquezas do sistema político norte-americano vieram à tona. As grandes conquistas tidas como adquiridas na Era Obama e que encantaram a ingenuidade mundial, foram demolidas por Trump em poucos minutos, porque assentavam numa retórica e teatralidade que envaidece alguma Esquerda moderna, também na Europa, mas nada transforma. Nem a última frase escrita por Obama no site da Casa Branca na Internet, “Sim, Conseguimos! Sim Podemos!” deixa a esperança de voltar a renascer na Casa Branca a “América de Obama”, até porque a 22ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, ractificada em 1951, o impede de concorrer a um terceiro mandato. Trump respondeu no instante seguinte: “Vamos voltar a tornar a América grande!” 
A severidade quase golpista colocada por Trump no discurso foi assustadora. O nervosismo geral foi, aliás, evidente durante o juramento. Mas em nenhum momento ouvi uma declaração de guerra do novo Presidente contra qualquer outro país. Durante as eleições ficou provado que o sistema eleitoral dos EUA está refém de poderes privados. Ficou ainda claro que a justiça e a transparência do processo eleitoral, no final, não estão garantidas. O voto é decidido por um Colégio Eleitoral que decide de modo diferente da vontade expressa pelo eleitorado. A candidata democrata Hillary Clinton teve mais três milhões de votos do que o adversário, suficientes para ser declarada vencedora, mas o Colégio Eleitoral deu a vitória a Trump. O voto não é respeitado. Uma fraude eleitoral e um escândalo. Mas em oito anos Obama nada fez para mudar um sistema eleitoral viciado. Como nada fez por África, que depositou em si muita da sua esperança naif. As mulheres africanas, que Obama veio defender com frases bonitas, agradecem, mas são elas as primeiras discriminadas na América. A derrota de Hillary, vencedora da votação, foi uma vergonha para a democracia mundial.
Ainda é cedo para avaliar o que será a América de Trump, mas o facto de apontar como único inimigo militar externo o extremismo do ISIS – ninguém de bom senso duvida – e priorizar o combate no terreno económico, numa altura em que se tornou moda e gala a interferência a torto e a direito em assuntos alheios, é um bom sinal. Portugal prepara-se para exercer uma interferência em massa nas eleições gerais deste ano em Angola. Com a ajuda de antigos colonos, servidores do apartheid, finança internacional, falsos jornalistas, canais televisivos e revolucionários de pacotilha, está em curso um plano diabólico. Talvez não fosse mau seguir as lições do passado e o exemplo de Trump. Deixem ser os próprios angolanos a decidir sobre os seus destinos!

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