Opinião

África e Donald Trump

Guilhermino Alberto|

Donald Trump e o seu decreto executivo de proibição de entrada nos Estados Unidos de nacionais de sete países muçulmanos, a pretexto de serem potenciais terroristas, marcaram de forma preocupante a última Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que decorreu em Adis Abeba, Etiópia, de 30 a 31 de Janeiro de 2017.

Embora os discursos oficiais fossem de alguma forma comedidos, procurando transmitir a ideia de que as medidas tomadas pelo presidente do maior financiador do Sistema das Nações Unidas sejam apenas temporárias, nos bastidores não faltaram vozes a acusar a Administração Trump de estar na realidade a promover uma política de globalização da indiferença, ao proibir a entrada de refugiados fugidos de guerras que tiveram, na sua génese, os tentáculos do “amigo americano” e de outras grandes potências bem conhecidas.
Travar a entrada de terroristas nos Estados Unidos e tornar a América forte e grande de novo, como defende Trump, é um falso argumento, disseram muitos políticos e comentaristas africanos presentes em Adis Abeba. A forma truculenta como Trump está a conduzir a política migratória norte-americana é por eles vista não só como segregacionista, mas como uma acção concertada que tem como propósito, à la longue, impedir a entrada de minorias étnicas nos Estados Unidos. Está-se na presença da velha teoria da selecção natural das espécies de Charles Darwin, que infelizmente a administração do multimilionário Donald Trump parece querer aplicar aos económica e socialmente menos capacitados.
África e a sua massa pensante, que viram a degradação completa de países estáveis e prósperos como a Líbia, esperam de Trump maior contenção e, mais do que isso, uma maior compreensão. Pensam que uma nação com o histórico de imigração dos Estados Unidos, não devia repetir os erros da história. E que Trump, como filho e neto de imigrantes escoceses e alemães, devia ser o guardião primeiro deste legado histórico.
Banir a entrada de muçulmanos a pretexto de serem potenciais terroristas, não é justo nem politicamente correcto, quando até são milhões os muçulmanos americanos. O terrorismo não se combate com a globalização da indiferença pelo sofrimento alheio. Combate-se com políticas migratórias de inclusão social e exigir nas relações entre os Estados fazer respeitar a reciprocidade de tratamento nas relações religiosas. Se é permitido construir mesquitas na América, também deve ser permitida a construção de igrejas na Arábia Saudita, por exemplo.
Nunca será também o melhor caminho para travar o terrorismo impedir a entrada de cidadãos de países cujo caos económico, político e social tem na sua génese, repito, a mão do “amigo americano”. É preciso não transformar em pesadelo o sonho americano do reverendo Martin Luther King. A América não deve pôr de parte que só é hoje uma grande Nação porque recebeu, de braços abertos, talentos vindos de todos os cantos do mundo. Prova disso estão os prémios Nobel ganhos. Os números falam por si. Mais de um terço dos cientistas americanos que ganharam o Prémio Nobel nasceram fora dos Estados Unidos e hoje cerca de 17 mil estrangeiros estudam em instituições americanas, em programas de mestrado e de doutoramento. Impedir que todos esses talentos entrem nos Estados Unidos é dar um duro golpe à ciência e atrasar o desenvolvimento da humanidade.   
Como disse António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, na sede da União Africana, em Adis Abeba, é importante que os Estados Unidos da América (EUA), de George Washington e Abraham Lincoln, continuem a ser os bons anfitriões que sempre foram. Não deixem de ser generosos para com os refugiados. Abram as fronteiras para aqueles que fogem da guerra, da fome e precisam de protecção.

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