Opinião

Ano de esperança

Victor Silva

O calendário abre hoje uma nova página que se deseja venha a dar maiores esperanças de melhoria da vida dos angolanos. Uma melhoria material e realista e não uma melhoria hipotética de contornos políticos que, está visto, tem tudo para não dar certo, caso os interesses partidários se sobreponham às verdadeiras prioridades do país.

Depois de dois anos de grandes sacrifícios para se corrigir o muito mal que impera(va) ainda haverá alguns apertos nas contas familiares, como consequência das políticas reformistas que o país está obrigado a seguir para não colapsar, cortando alguns subsídios a produtos e serviços para que esse dinheiro possa servir a economia. O tempo das “vacas gordas”, quando o preço do barril de petróleo estava acima dos cem dólares, já acabou há muito e não foi bem aproveitado em benefício do país, mas sim de uma elite predadora, como atestam, descaradamente, os últimos desenvolvimentos que correm na justiça.
O acerto nas contas públicas é uma prioridade para a qual se exige uma cultura de disciplina orçamental por parte dos gestores públicos, também eles, novos e antigos, viciados nos esquemas do desregramento e do esbanjamento nas despesas, pensando que os tempos de ilusão ainda continuam e que haverá uma varinha mágica que, à última hora, vai cobrir os rombos financeiros que a sua gestão provoca no Tesouro.
Politicamente pode até ser um disparate, mas realizar eleições autárquicas nesta fase parece um contra-senso, porque, ao contrário do que muitos propalam, não será a institucionalização do poder local que vai resolver os problemas actuais.
O Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) pode também não ser a solução, mas tem tudo para garantir um desenvolvimento mais harmonioso das várias regiões, a começar pelos imprescindíveis recursos financeiros. O PIIM visa dotar os municípios de condições básicas para a melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes e, na sua fase de execução e funcionamento, vai proporcionar milhares de empregos para jovens e menos jovens, um dos flagelos da actualidade. Com a sua implementação, ficará mais facilitado o programa de descentralização e desconcentração, com a transferência de competências, que, sim, vão possibilitar que haja uma governação local efectiva e não apenas para cumprir caprichos políticos e financeiros.
Paralelamente, outras medidas estruturantes, como o PRODESI, o PAC e outros, ambicionam reduzir as importações de produtos alimentares, pelo menos os da cesta básica, fomentar a produção agrícola, pecuária e a agro-indústria, baixando a pressão sobre as divisas que devem ser utilizadas para aquisição de equipamentos e matérias-primas e outros bens industriais.
O factor homem é a chave de toda a equação, porquanto se não se mudarem as mentalidades dificilmente se poderão concretizar esses programas. O combate à corrupção e contra a impunidade tem sido uma das bandeiras das novas autoridades e, por isso, espera-se que neste ano que agora inicia a justiça continue a dar mostras de também ela estar a desprender-se das práticas do passado e a actuar com mais rigor e celeridade, seguindo a máxima de que ninguém é suficientemente poderoso para se furtar ao juízo ou bastante pobre para não merecer apoio.
A moralização da sociedade faz-se com exemplos e, neste particular, assiste-se hoje a uma mudança clara do paradigma, muito também graças à intervenção crescente e organizada da dita sociedade civil e dos cidadãos de uma maneira geral, comprometidos com a denúncia de práticas lesivas aos interesses comuns.
A cidadania ganha força pela sua acção nas diferentes áreas, na concertação e auscultação e, já agora, na atribuição do bilhete de identidade, um dos muitos exemplos do que andava mal feito, com o país a ter mais eleitores que cidadãos nacionais, num exercício pornográfico de cada ministro da Justiça vir com o seu BI na carteira.
Hoje, 1 de Janeiro, dia em que se celebra mundialmente a paz, deverá ser uma ocasião para dar sequência, durante o ano, à reconciliação nacional, não apenas entre os ex-beligerantes militares, como na dignificação de todas as vítimas dos conflitos políticos e na influência que Angola tem vindo a ter na solução de alguns focos de instabilidade que ainda assolam o nosso continente.
No abrir da nova folha do calendário, desejamos a todos os nossos leitores um ano próspero, no qual a esperança não esmoreça, apesar dos contratempos que, aqui e ali, poderão surgir.
Feliz 2020!

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