Opinião

Ano Novo, novos desafios

Victor Silva

E amanhã vira-se mais uma página do calendário, abrindo espaço para um novo ano que todos esperamos seja, efectivamente, melhor na qualidade de vida dos angolanos e na redução das dificuldades  com que vêm vivendo há anos.

A esperança num futuro melhor tem sido o tónico para que a maioria dos cidadãos acredite que será possível implementar as mudanças necessárias para alterar o quadro actual, de grandes privações nos domínios básicos, criando-se uma sociedade mais justa e onde os sacrifícios sejam repartidos em igual proporção que os benefícios e sentidos por quase todos.
2018, que se despede, não foi um ano de grandes realizações no sentido da satisfação das necessidades mais prementes dos cidadãos e das famílias e até mesmo dos empresários e empresas. O Programa de Estabilização Macroeconómica deu alguns sinais animadores, mas de pouco reflexo na vida das populações. Baixar inflação, o défice e reanimar as reservas líquidas internacionais, são sempre metas importantes que qualquer Governo persegue para o equilíbrio das contas públicas. Porém, esses objectivos se não se reflectirem no nível de vida dos cidadãos dificilmente poderão traduzir-se em crescimento que abre portas para o desenvolvimento.
O país vem de uma recessão de há mais de três anos. Uma recessão que era escondida, era mascarada com a propaganda do estamos sempre a subir para uma minoria privilegiada e que chocava com a triste realidade encontrada pelas actuais autoridades de cofres vazios que faz com que se tenham de mobilizar recursos  financeiros no exterior para fazer face às necessidades mais básicas e  às políticas de diversificação da economia. Necessidades básicas que se agudizaram com projectos megalómanos, quais elefantes brancos, que consumiram milhões e milhões e de quase nenhuma serventia. Ou com a construção e reabilitação de  equipamentos sociais e infra-estruturas que muitas das vezes nem saíram das pranchetas ou das gavetas, outras ficaram a meio da viagem, mas que foram pagos integralmente, sem que os responsáveis sejam chamados à razão.
Chegados aqui, pode dizer-se que 2018 foi um ano onde se vincou a vontade política das novas autoridades, sobretudo do Presidente da Republica, em corrigir o que está mal, a começar pelo cancro da corrupção e o fim da impunidade. Pode especular-se o que se quiser a propósito: que não são apenas os "detidos improváveis" os únicos que se terão banqueteado com os dinheiros públicos, que a lista é tão vasta que levada a sério exigiria a existência de  mais estabelecimentos prisionais.
Mas é também aqui que se notou uma diferença significativa na maneira de governar, com o fim da interferência politica nos órgãos de justiça. Não compete ao Presidente da República mandar prender este ou aquele por mais sólidas que sejam as denúncias de uso indevido dos fundos que a todos pertencem. Essa é uma tarefa dos órgãos da administração da Justiça e nesse particular sabe-se que a complexidade da tipologia dos crimes chamados de “colarinho branco” exige meios humanos e técnicos que não abundam entre nós.
A cruzada contra a corrupção e a impunidade para ser séria tem de se fundamentar em argumentos sólidos de provas, para que a justiça não venha a cair no descrédito e com ela toda a intenção política de lhe dar combate. Um combate que se sabe não ser fácil, com os marimbondos a usarem todas as suas influências e poder financeiro e outro para contrariá-lo, criando factos através de "fake news" que disseminam interna e externamente, pondo em causa propósitos e protagonistas.
A moralização da sociedade não se faz de um dia para o outro, sobretudo quando se vem de décadas de uma desestruturação social, em que a corrupção e a impunidade, entre outros males sociais, estavam como que institucionalizados. Desconstruir toda essa herança, resgatando valores que nos tornem num país normal, vai levar o seu tempo e reclama a participação de todos. Não apenas da justiça ou da comunicação social, como muitos insinuam, esquecendo-se da responsabilidade colectiva e individual e que todos têm nessa luta contra a má fadada sina que se diz destinada à África e aos africanos.
2019  não será, assim, um ano fácil por maior  que seja a esperança em melhores dias, com a solução de muitos problemas básicos que passam por mais  saúde, educação, emprego, saneamento básico, transportes, energia e água e habitação.
Para as autoridades o desafio não poderia ser maior ao tentar traduzir em realizações os objectivos dos programas de equilíbrio macroeconómico, para os quais contará com a assistência técnica, monitoramento e financiamento do Fundo Monetário Internacional. As mudanças estruturais que têm sido implementadas são de iniciativa do próprio governo e , em certa medida, ter-se-ão antecipado ao quadro de exigências comum do FMI. O desafio agora é levar essas reformas estruturais a um ponto mais alto, com uma administração pública muito mais ligeira, mais eficiente e mais eficaz, menos gastosa, a começar pelo enxugamento do próprio Executivo, tornando-o também ele mais eficaz nas respostas às preocupações dos cidadãos, sob escrutínio da Assembleia Nacional e da sociedade de uma maneira geral. O caderno de encargos é vasto e os recursos, como se viu, são parcos, havendo por isso necessidade de passar das palavras aos actos, perseguindo efectivamente a diversificação económica e tendo no sector privado um aliado importante para que se produza internamente, pelo menos, o que se consome, se criem os empregos e com eles se garanta o rendimento básico para que fome e pobreza possam ser imagens do passado.
Venha, pois, 2019 e os seus muitos desafios. Feliz Ano Novo!

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