Opinião

Ao Patrick da Vila Alice

José Ribeiro

Os mais altos dirigentes do ANC tiveram, sempre, em Angola, um porto seguro e total apoio durante a luta contra o “apartheid”. A luta armada de libertação nacional só fazia sentido quando os povos irmãos da Namíbia, Zimbabwe e África do Sul também estivessem libertados. Esse espírito fraterno e solidário custou a Angola uma guerra sangrenta de décadas e a destruição do país.


O balanço desses anos não pode ser feito a quente, em cima do acontecimento. Nestes tempos de reconstrução física e moral, quando a esperança fervilha, aos angolanos basta a certeza do dever cumprido. Demos um contributo inestimável à libertação da Namíbia, do Zimbawe e da África do Sul. Ajudámos a libertar Mandela e a derrubar o "apartheid".


Os historiadores, quando a poeira do tempo assentar, melhor do que ninguém, farão o retrato destes anos exaltantes em que forças revolucionárias africanas liquidaram o colonialismo e o "apartheid". Lembro-me de, em Brazzaville, uma mulher dizer a "Pik" Botha que só lhe vendia a peça de artesanato se ele deixasse Mandela sair da prisão.


Hoje a minha palavra vai para "Patrick", nome de guerra com certeza, um companheiro de luta que vivia na Vila Alice, naquele núcleo sagrado onde se instalou a primeira delegação oficial do MPLA, depois de heróicos anos de luta armada. "Patrick", Oliver Tambo e tantos outros combatentes do ANC estiveram entre nós, não como estrangeiros, mas como irmãos muito especiais, companheiros de uma causa nobre. De resto, da única causa que engrandece o Homem e as suas armas: a liberdade.

"Patrick" viveu ao nosso lado, os nossos problemas, as nossas dificuldades. Comeu no mesmo prato. Sonhou os nossos sonhos, derramou as nossas lágrimas, riu e gargalhou com as nossas alegrias fugazes, nos intervalos da guerra - e apaixonou-se, também, por mulheres angolanas.

Esse combatente da liberdade sabia que entre o Soweto e Alexandra e Crossroads corriam rios de sangue, que havia um povo amordaçado, humilhado, despojado de tudo, até da dignidade. Regressou à sua pátria e, apesar do fim do "apartheid", lutou, lutou sempre, como nos velhos tempos da Vila Alice. E hoje ele sabe que o caminho entre o Soweto e Pretória está repleto de esperança. Ele próprio é o centro irradiador dessa luz que faz os pobres e os deserdados sonharem com um dia melhor.


Ontem, Jacob Zuma tomou posse como Presidente da África do Sul. Nunca tantos irmãos olharam para ele com tanta esperança e tanta expectativa. Os seus irmãos sul-africanos. Os seus irmãos africanos, que esperam por lideranças fortes em África que sejam capazes de devolver a África já não o direito à independência e à autodeterminação, mas o direito à felicidade para todos.


Jacob Zuma vai ter ao seu lado o povo sul-africano. Quando, ontem, tomou posse como Presidente da África do Sul abriu-se um novo capítulo na história da África do Sul, da região austral e do continente. Ele não vai defraudar as expectativas. Em Angola, na Namíbia, no Zimbabwe, em Moçambique há milhões de irmãos que precisam de uma África do Sul solidária e cada vez mais consciente do seu papel político e económico na região.


Ontem, estivemos todos com Jacob Zuma naquele imenso edifício de Pretória, durante a sua investidura como Presidente da República. Hoje, estamos todos com ele, no seu combate contra a pobreza e pelo progresso da nossa região. Zuma, quando visitou Angola, depois de assumir a liderança do ANC, veio ver o local onde começou o fim do "apartheid", o Cuito Cuanavale. Esperamos que a sua estada nesse lugar sagrado na luta pela liberdade o tenha inspirado para governar a África do Sul.


Jacob Zuma e todos os "Patrick" vão conseguir cumprir mais esta exaltante missão. Como nos velhos tempos da Vila Alice.

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