Opinião

Artesãos do jogo

Caetano Júnior

Já não se fazem Palancas como antes. É, pelo menos, a ideia que fica do rescaldo da prestação no Egipto, onde o combinado nacional deixou uma imagem desoladora e assinou uma propaganda tosca do futebol angolano. E para encontrar quem ergueu com honra e dignidade o símbolo nacional que é a bandeira nem é necessário um mergulho tão fundo no passado, ao ponto de trazer à conversa Ndunguidi, Jesus, Fusso, Sarmento, Napoleão, Luvambo, Garcia, Saavedra, Carlos Pedro ou outro futebolista do mesmo contexto. Basta, para atestá-lo, um recuo aos anos 1990.

A dado trecho da década de 90 começa um dos mais deslumbrantes instantes do futebol angolano, puxados, principalmente, por Armando Machado, então presidente da FAF, e o finado Carlos Alhinho, como coordenador das Selecções Nacionais. Também foram tempos de aperto financeiro, mas de futebol-confiança: alegre, jogado a toda a dimensão do terreno e de levar o “mundo” à Cidadela, porque de previsível vitória.
Angola via o seu futebol reconhecido não pela opulência dos estádios, mas devido à qualidade que as selecções davam a observar e à magia que libertavam os futebolistas que o faziam fluir. A bola rolava impelida por toques de padrão já refinado para a época e os resultados eram, em geral, directamente proporcionais à exuberância espalhada em campo. Uma marca transversal a todas as Selecções, então sob a supervisão de Carlos Alhinho: Sub-17, Sub-20, Sub-23 e Honras. Quem viveu testemunhou-o, a menos que o não fizesse por mera birra.
Foram, também, tempos em que, internamente, as competições “bombaram”, à custa da arte e do engenho de futebolistas da igualha de Castela, Neto, Marito, Pedro Rodrigues, Hélder Vicente, Chico Diniz, Zé Gordo, Rosário, Agó, Filipe, Fuidimau, Jonas, Ndulo, Mendonça, Assis, Nsilulu, Lucau, Bolefo, Mwanza, Yamba Asha, Julião, Zico, Cacharamba, Quinzinho, Paulão, Betinho, Bodunha, Dé, Renato, Aurélio, Jamba...
Aos santos da casa, estes operadores de milagres, que, com exíguos recursos, edificaram monumentos ao futebol angolano, juntava-se a legião estrangeira, diamantes já lapidados que Carlos Alhinho foi desenterrar em prospecções na Europa, em Portugal, particularmente. São exemplos Fua, Wilson (o Palanca Branca), Tatá, Diogo, Amadeu, Luís Carlos, Johny, Luisinho, David, Tó Brandão, Miguel Pereira ... E foi, pois, com naturalidade que Angola chegou ao seu primeiro CAN, em 96, na África do Sul, e ao segundo, em 98, no Burkina Faso. E a até agora única presença num Mundial (Alemanha-2006) pode ter sido ainda o corolário de todo o trabalho iniciado por Armando Machado e Carlos Alhinho.
Os feitos consagraram a escolha pela prospecção de talentos, feita com a inclusão, no projecto, de treinadores como Sabu e Oliveira Gonçalves. Uma opção que desembocou também na conquista, em 2001, em Addis Abeba, do Africano de Sub-20 (e na consequente presença no Mundial da Argentina, no mesmo ano). Ao processo não foi preciso chamar “scouting” - como agora - para se rodear de sucesso, comprovado, igualmente, na produção de jogadores dos segmentos “Sub”, como Totó, Acácio, Victor, Loló, Kikas, Maninho Loyd, Bifex, Matuaia, Miloy, De Vigor, Vidal ou os mais altos expoentes Mantorras e Akwá.
Soa até a injustiça deixar no esquecimento um nome que seja desse conjunto de artesãos do jogo, fundadores de uma era que se revelou dourada para o “desporto-rei” no país. Um período durante o qual o exercício em campo acabou, a médio/longo prazo, por produzir resultados capazes de fazer escorrer lágrimas de emoção até do rosto do mais insensível dos angolanos.
Ao tempo, só por merecer espaço na convocatória, o jogador tinha o ânimo igual ao de quem recebeu doses cavalares de droga, tal era o sonho dos futebolistas de fazerem parte de um tão restrito grupo. Não foi por acaso que Manuel Rabelais, então nas vestes de locutor, numa partida dos Palancas Negras, gritou “até Minhonha sobe”, referindo-se, muito provavelmente, às transformações operadas na atitude ofensiva do jogador, em quem pouquíssimos apostavam. Muitas vezes, a diferença está na mentalidade ou na causa por detrás da acção do profissional.
Também ontem, como hoje, a FAF enfrentou problemas financeiros, que lhe transtornaram a organização e travaram ou adiaram projectos e realizações. A determinada altura, o então presidente chegou a viver na pele e na alma a fúria dos adeptos, a incompreensão da opinião pública e a pressão da Imprensa, que lhe dedicou apertada vigilância, não lhe permitindo veleidades. Mesmo assim, Machado nunca perdeu o “cabo”. Pelo contrário, teve-o sempre “bem enfiado”, como certa vez disse. Ele e colaboradores (entre estes, Geovetty Barros, Luís Prata, Jesus, Dantas Cardoso, Rui Costa, Valente Silva ...) procuraram encarar de frente os problemas e buscar soluções, sem tentar jamais escudar-se em desmentidos, para criar verdades fugazes, de curta duração.
No passado, tivemos, realmente, futebolistas que, além de jogarem “p'ra caraças”, estiveram comprometidos com as causas. E os dirigentes desportivos eram, decididamente, menos oportunistas e muito mais empenhados. Ou não? Infelizmente, do Egipto não chegaram acções, gestos, atitudes ou resultados que o desmentissem. Pelo menos até ao apito final do marroquino J. Redouane.

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