Opinião

As crianças são o nosso espelho

Víctor Silva

Há já algum tempo que perdemos algumas boas práticas de uma época em que vivíamos e cultivávamos a ideia do sonho comum. A escola era para todos. O hospital era para todos.

Cultivávamos o ideal do bem comum, socialista, mesmo se alguns estavam já há largos passos no processo de acumulação primitiva de capitais, como depois veio a constatar-se pelas suas consequências catastróficas. De um tempo para cá, a escola deixou de ser um espaço de referência para a aprendizagem e socialização das nossas crianças uma vez que foi tomada pela mercantilização da sua própria natureza. É o que vemos ante o número elevado de estabelecimentos de ensino privado em toda a escala - creches privadas, colégios privados e universidades e institutos superiores privados. Às vezes ficamos mesmo com a impressão, por falta de estatísticas, de que temos mais colégios do que escolas. É assim nos bairros periféricos, é assim também nos bairros das nossas elites como é, por exemplo, o Talatona.
Mas quando falamos de escola, temos necessariamente de falar das crianças. Por sinal, amanhã celebramos o 1º de Junho, Dia Internacional da Criança, pretexto mais do que suficiente para olharmos para a realidade do que é o nosso futuro.
De um ponto de vista formal, as convenções internacionais - como a Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989, a Carta Africana sobre os Direitos e o Bem-Estar da Criança de 1990 - e a nossa legislação interna - alguns articulados da Constituição da República de Angola, especialmente o artigo 80º, os 11 Compromissos com a Criança, de Angola, de 2011; Lei sobre a Protecção e Desenvolvimento Integral da Criança, de 2012; Lei do Julgado de Menores; Lei de Bases da Protecção Social e outras - existe um quadro que salvaguarda os Direitos da Criança e as colocam no centro de prioridades do Estado e das famílias.
Este é, portanto, o desafio que se coloca ao Estado e às famílias, nas actuais circunstâncias de Covid-19. Como as nossas famílias estão a lidar e a ocupar o tempo das crianças, o que está a ser feito em prol da sua integração no seio das famílias. É verdade que é urgente promovermos um amplo debate sobre as famílias. Sobre a assistência e protecção que conferimos aos menores.
A preocupação com as crianças começa desde a concepção que deve resultar não apenas do amor que os progenitores devem manifestar ao novo ser, mas, acima de tudo, de uma maternidade e paternidade que seja responsável e capaz de projectar o melhor para os seus filhos. Do Estado conseguir assegurar a melhor assistência para as mulheres gestantes. Que se reúnam melhores condições para a maternidade, seja no meio urbano ou rural. Que o Estado consiga assegurar condições para o cumprimento cabal do programa mínimo e obrigatório em termos de vacinação, permitindo que a nossa população tenha imunidade e resiliência às adversidades que ainda subsistem aqui e acolá.
Grande parte das nossas vulnerabilidades, reflectidas, também, na condição das crianças, depende da transformação necessária que deve ser feita a montante e a jusante em áreas como o Ensino e a Saúde. As crianças são o nosso espelho. São o reflexo do quanto a fome e a indigência estão a atingir alguns segmentos da nossa população.
É claro que acreditamos que a comunicação social tem aqui um papel crucial em termos de educação da sociedade, sobretudo das crianças. Esta é a sua responsabilidade social no sentido de participar na formação integral e libertadora do indivíduo, como apregoa o notável pedagogo Paulo Freire. Já foi assim no tempo em que a TPA e Rádio Nacional de Angola tinham espaços infantis na programação de grande memória, cujo expoente eram os festivais do 1º de Junho, com forte envolvimento, também, da Secretaria de Estado da Cultura e do Ministério da Educação.
Da nossa parte, também no Jornal de Angola e na Revista Novembro proliferaram páginas e suplementos infantis que ajudaram a construir o imaginário dos petizes, com forte participação de escritores como Dario de Melo, Gabriela Antunes, Cremilda de Lima, Octaviano Correia e dezenas de outros e que forjaram alguns dos nomes conhecidos do jornalismo actual, nas suas diferentes formas.
Pretendemos retomar essa visão com o projecto do jornal “Candengue”, cujo lançamento fica adiado por culpa da mesma de sempre, a Covid-19. Gostaria de renovar os nossos agradecimentos em público à Huawei, multinacional de origem chinesa, que nos patrocinou, com meios informáticos este projecto. Esta só é uma feliz coincidência, na medida em que esta empresa de tecnologia actua num segmento com projecção para o futuro. Pretendemos incentivar o gosto pela leitura, independentemente dos formatos, descobrir novos e jovens talentos, na certeza de que os candengues de hoje são usuários de amanhã.

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