Opinião

As infra-estruturas africanas

José Ribeiro |

O grande problema do continente africano está no fraco desenvolvimento da sua infra-estrutura económica e social. Este problema condiciona tudo o resto. Evidentemente que para se edificar essa infra-estrutura é preciso visão, boas políticas, recursos e pessoas qualificadas para dirigir e trabalhar.

Mas sem uma base forte na qual assente a actividade económica, o ensino, a saúde, o lazer e o desporto, dificilmente se conseguem fazer coisas com durabilidade e sustentabilidade. Há ainda o problema recorrente da conflitualidade em África, mas muitos conflitos podiam ser evitados se existisse essa infra-estrutura económica e social sólida que garante estabilidade, crescimento e emprego.
Depois de conseguida a paz e a reconciliação, a decisão do Governo de começar por recuperar a infra-estrutura nacional foi acertada. Pena foi que a UNITA, co-participante no conflito, tivesse recusado, primeiro, o convite do MPLA para se juntar ao esforço de reconstrução, depois, o apelo para a definição de uma Agenda de Consenso Nacional para muitos anos. Mesmo alguns países que intervieram directamente ou indirectamente na guerra deram sinais, ainda que à espera de retorno, de quererem ajudar Angola a refazer-se do marasmo em que caiu, o que foi importante para ultrapassar o compromisso desfeito da Conferência de Doadores.
A inauguração da Central II da Barragem de Cambambe, empreendimento de extrema importância nacional, vem dentro dessa linha a que nos habituou o Executivo do MPLA de conciliar a instalação de grandes projectos com impacto na vida das populações com o lançamento de programas específicos de combate à fome e à pobreza e de promoção do emprego.
Essa linha de actuação é, aliás, um elemento diferenciador de muitos que é fácil encontrar na comparação com a UNITA. A UNITA tem uma conduta tradicionalista, facilmente identificável por trás da linguagem retórica e jurídico-política a que recorre (escrita talvez por advogados) sem adaptação à realidade concreta, pouco perceptível para o cidadão e que se desmorona rapidamente. Foi o que aconteceu com a posição sobre as empresas contratadas pela CNE, a Sinfic e a Indra, para prestarem serviços de suporte eleitoral, e na recente entrevista que Samakuva deu ao jornalista Henrique Garcia, em directo, na TVI, durante a sua visita a Portugal e Espanha.
Ao atacar duas empresas internacionais de grande prestígio e afirmar, em directo, num canal de grande audiência, que não quer ver governantes portugueses em Angola durante as eleições, o partido deu vários tiros nos pés em má época. Mas apareceu com o seu registo verdadeiro, que é de ser contra os investidores e contra os estrangeiros, no caso portugueses (algo que estes não perdoam). Claro que, durante a campanha, o partido vai procurar corrigir os tiros, mostrando outra face. Mas o mal está feito.
Ora, para continuar a desenvolver a sua infra-estrutura, Angola precisa de muitos empresários, incluindo estrangeiros, e não vai deixar de receber governantes portugueses só por causa das eleições. Por que razão sucederia isso? A estrutura económica de Angola exige grandes tecnologias industriais e muito capital. Isso não é compaginável com a linha política partidária de quem tem pretensões de se erguer a política de Estado mas hostiliza empresas e investidores de outros países.
Outro problema que se coloca à infra-estrutura africana é o da continuidade. Lançam-se empreendimentos, instalam-se bons equipamentos. Passado algum tempo, param. Para termos uma boa democracia, um bom exercício dos nossos direitos e uma boa qualidade de vida, precisamos de ter uma boa infra-estrutura económica e social que perdure e se modernize, sempre que for necessário.

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