Opinião

Até as liberdades

Caetano Júnior

Medidas extremas da China vão ter de ser copiadas? A OMS diz que resultaram”. O título do Diário de Notícias chama a história - retomada pelo Jornal de Angola - de como o país asiático, onde, em Novembro passado, se deu o primeiro caso, procedeu, a partir da segunda quinzena de Janeiro, para travar a propagação do Covid-19.

Na Província de Hubei, onde se localiza Wuhan, cidade que acolhe o mercado de marisco onde tudo terá começado, a vida já corre o curso normal, desde a passada quarta-feira. Os seus 58,5 milhões de habitantes saem à rua, caminham livremente e até viajam, passados que estão os tortuosos meses de confinamento.
Embora os habitantes o façam ainda de forma tímida, o regresso de Hubei à vida é uma realidade que leva esperança a outros povos e nações, que hoje vivem o mesmo calvário. São pessoas que levam, nestes dias, uma existência de ansiedade, habitam na angústia que traz cada novo caso e cada morte anunciada ou testemunhada. A expectativa que as aflige consubstancia-se, pois, no que lhes reserva o futuro, cujo horizonte está bem à vista, nos limites impostos pela quarentena, a espécie de separador entre vida/saúde e morte/doença, o cerco do qual a própria consciência deve obrigar a não escapar.
Já em Wuhan, ontem epicentro do vírus, que dizimou famílias inteiras, o levantamento das restrições espera até 8 de Abril, para que os seus 11 milhões de moradores possam deixar o isolamento, regressar às ruas e deslocar-se entre regiões. São medidas destas, calculadas, ponderadas e tomadas pelas autoridades locais, assim que se deram conta da letalidade do coronavírus e do seu grau de propagação, que ajudam a compreender a razão por que a China saiu do sinal vermelho relativamente à doença. Mas o que terão feito de errado os países que agora sofrem com o mal, mais até do que a própria Nação que lhe terá dado vida? Terá a ver com liberdades, direitos, enfim, com democracia, como também se aventa?
Como prevenção, depois de mortes e de contaminação em massa, em meados de Janeiro, a China impôs medidas de excepção: isolou cidades, deixando mais de 50 milhões de pessoas confinadas às próprias residências, numa altura em que o vírus já tinha saído das fronteiras de Wuhan e até do país. Enquanto isso, a Europa, hoje detentora de números incontáveis de mortes e de casos confirmados, questionava a razoabilidade ou a sensatez das decisões anunciadas em terras de Mao Tse-Tung. Na perspectiva ocidental, colocavam em causa direitos, como o de ir e vir, e tolhiam outras liberdades.
No “Velho Continente”, as medidas das autoridades chinesas seriam, pois, impopulares e inéditas, pois trata-se, de um modo geral, de países democráticos e os tempos são de paz. Veja-se que mesmo em Portugal, enquanto era avaliada a possibilidade de quarentena, a questão legal ou a (in)constitucionalidade da decisão acabou por assomar. Impasses destes levaram à perda de tempo, que devia ser investido na acção de prevenir a propagação do vírus. Hoje, a Europa e o mundo acabam confinados e não há arauto da democracia que se lembre de apregoar, por exemplo, a liberdade de movimentos.
Os Estados restringiram direitos e garantias, a troco de bens maiores, como a vida e a saúde, sem os quais não faz sentido abertura alguma. Pode até um ou outro cidadão afivelar ousadia suficiente para violar as directrizes baixadas no interesse de toda uma Nação, mas de certeza que vai arcar com as consequências. Veja-se que agora, depois de desinteligências sobre a (i)legalidade da quarentena, 80 por cento dos portugueses concordam com o Estado de Emergência. É, no fundo, a racionalidade, a sensatez. De certeza que, em Angola, a medida é, igualmente, bem acolhida, embora esta avaliação se baseie no senso comum, na opinião, e não no conhecimento formal, na informação científica.
Governos decretam Estado de Emergência, para se munirem de instrumentos legais que lhes permitam responder a perigos como são desordens civis, desastres naturais, declarações de guerra, conflitos armados internos ou internacionais e outros. As situações que agora se conhecem pelo mundo decorrem da necessária réplica a uma ameaça biológica. É, pois, um momento de excepção, que, entretanto, não deve, por si só, ser confundido com sonegação de direitos e liberdades, perseguição política ou abuso do poder, mas ser avaliado enquanto alternativa na procura de respostas àquele que é, muito provavelmente, o maior desafio que a humanidade enfrenta, cujo combate obriga o uso de todos os expedientes e meios ao alcance. Em contextos de restrições, como estes, a vida continua, embora sob novas regras. Porque também é preciso que se pavimente o caminho por onde deve correr a subsistência, ao mesmo tempo que se erradica o mal-supremo.
O mundo teria, pois, muito a perder, se continuasse a negligenciar a ameaça que constitui o Covid-19, mal que deixa à beira do colapso países que se pensava estarem resolvidos, como França, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos. Em pouco tempo, as economias dão sinal de colapso, a viver “em coma induzido”, como alguém avaliou, daí que se torne ainda mais oportuno deixar para trás o não-essencial na busca de soluções para o enorme problema que colheu o mundo de surpresa. É, portanto, esta a hora de a democracia se recolher, por pouco tempo que seja, e dar passagem à vida, sob a forma de ser preservada. Afinal, as liberdades não fariam qualquer sentido, num contexto em que a existência humana tivesse sucumbido.
Dá-nos, entretanto, ânimo saber que o homem já por diversas vezes comprovou talento e capacidade para se reinventar, sempre que sente necessidade de se libertar de situações desconfortáveis. Tardias acções práticas contra o avanço do Covid-19 resultaram em mortes desnecessárias e em enormes prejuízos económicos e financeiros. Mas segue a corrida contra o tempo. Urge, pois, despertar para a realidade que nos torna a todos mais semelhantes, ante a grande ameaça à integridade física de cada um de nós, independentemente da localização geográfica ou do estatuto social. Para a ameaça que sobre nós pende, a salvação é mesmo local. Do outro lado das fronteiras, não há,desta vez, solução milagrosa, nem que houvesse como as transpor. Protejamo-nos onde estamos; cerquemo-nos das medidas que nos deixem mais seguros, intransponíveis até.
A corrida para que se preservem vidas nunca devia ter encontrado entraves. O acessório podia perfeitamente ficar para depois, para quando nos livrássemos do mal que tudo ameaça levar. Até as liberdades.

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