Opinião

Aves de rapina

Caetano Júnior

Um grupo de homens, senhores de idade, jantava num restaurante, como o fazia com alguma regularidade. Conta o episódio que um dos integrantes informou que daí a pouco chegaria a sua nova “miúda”, que conquistara dias antes. E, de facto, não demorou para que no umbral surgisse a figura de uma adolescente/jovem, na casa dos 17/18 anos. Acto contínuo, um dos senhores à mesa ficou lívido, só recuperando a cor nas faces e alguma força física depois de os amigos o terem ajudado. A rapariga que apareceu à porta, a “miúda” anunciada por um dos companheiros, era, afinal, a filha.

Para trás fica o relato de uma ocorrência, que, se não se confirma, pode, pelo menos, ser encaixada no conjunto de situações reais, verosímeis, embora, para alguns, difíceis de dar crédito. De facto, a história é demasiado vergonhosa e chocante, para ser engolida, assim, de um fôlego, sem intervalo sequer para respirar, além de que revela a podridão moral em que se tornou a conduta de muitos adultos.
De facto, se a alguns ainda surpreende ver mais velhinhos e menininhas em ambientes íntimos e de total cumplicidade, já para outros, cenários semelhantes não passam de lugares comuns. De tão corriqueiros, há quem os olhe com indiferença, tal como se fosse o mesmo que testemunhar gestos de afecto e carinho entre adultos ou pessoas que não têm na idade uma barreira moral e legal; um óbvio factor impeditivo.
Com efeito, há muito que preocupa, a quem tem algum senso, a naturalidade com que homens adultos se envolvem com meninas menores de idade. Se calhar encorajados pela quase indiferença sob a qual parte da sociedade os observa, alguns destes “predadores” não se coíbem, inclusive, de desfilar livremente com as infelizes vítimas da pobreza ou escravas do dinheiro que as seduz.
Sim! O dinheiro teria força capaz de encaminhar uma adolescente para os braços de alguém que tem a idade do pai ou de quem podia ser a filha mais nova. Também o dinheiro proporcionaria a esses reles mais velhos a oportunidade de abusar de menores, ao mesmo tempo que se oferece (a si mesmo) a ilusão de que ainda reúne o charme, a pujança e a masculinidade de há três décadas ou mais. 
Decididamente, fica a impressão de que a sociedade perde o combate contra a imoralidade, a afronta, o atrevimento, enfim, a falta de carácter e de princípios. Nos dias de hoje, um pai zeloso, que cultiva o amor à família, é obrigado a munir-se de coragem para, por exemplo, passear-se pela cidade com a filha menor de idade. Afinal, não faltarão olhares de desconfiança e expressões que reflectirão censura. Uma caminhada inocente, ao lado da sobrinha, da prima, enfim, de uma qualquer adolescente, pode tornar-se num exercício carregado de desconforto e adulto que se preze tem consciência dessa realidade.
Portanto, o manto de suspeição, estendido por quem ainda se faz mover por valores, é uma realidade vasta e profunda, porque andam por aí “aves de rapina” cuja principal actividade é seduzir criancinhas e roubar-lhes a vergonha, a pureza e a honra. Eis onde o País chegou! Para trás, ficaram tempos de confiança nos adultos e de crença na inocência das crianças. Não havia como substituir valores morais por bens ou dinheiro, porque os filhos ouviam os pais e estes eram exemplos de verticalidade e fortaleza. Mas sempre houve famílias com mais posses que outras.
Nestes tempos difíceis, em que a política, a economia e alguns temas sociais mais prementes, como a Saúde e a Educação, concentram o foco da generalidade da opinião pública, urge lembrar que a contínua moralização da sociedade é uma necessidade incontornável; que o resgate de valores é das prioridades inegociáveis. De outra forma, insistirá o bando de “Mata Anjos” (assim eram chamados, no passado, os adultos que tivessem a ousadia de aliciar ou envolver-se com menores) em investir nas nossas crianças, para mutilar-lhes o presente e comprometer-lhes o futuro.

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