Opinião

Cair na real

Víctor Silva |

A situação económica e social do país não se alterou pelo simples facto de ter havido eleições e ter sido eleito um novo Presidente da República.

 O quadro continua difícil para as contas públicas, em que a falta de recursos tem condicionado a concretização de diversos programas e projectos, sobretudo virados para a  minimização das dificuldades por que passam a maioria dos cidadãos e suas famílias num quotidiano de quase sobrevivência.
Os períodos eleitorais prestam-se a muitas promessas, uma boa parte das quais sem sustentação face à crueza da realidade dos números. Essa realidade revela que não houve, nem o tempo permitia que fosse de outra forma, qualquer mudança substancial na melhoria das receitas, para se conseguir uma maior folga orçamental que permita dar algum avanço na melhoria da qualidade de vida dos angolanos. Se é certo que a principal fonte de receitas do país, a produção e exportação de petróleo, tem conhecido dias melhores, não é menos verdade que esse ligeiro aumento ainda está muito longe das reais necessidades de tesouraria.
De Agosto até  hoje, só um milagre poderia fazer com que os cofres voltassem a estar folgados e assim estar à altura de ir respondendo às inúmeras situações de aflição, cada uma mais prioritária que a outra, por que passam todos os sectores económicos e sociais do país, incluindo o petrolífero.
Como milagres só mesmo na literatura ficcionada, a realidade leva a que se tenha de ir acostumando a viver com o pouco, numa base mais equitativa de sacrifícios e benefícios, seguindo uma política mais racional e menos emocional, cortando com alguns erros do passado que contribuíram para que, independentemente da crise, o país caísse tão fundo.
Fica evidente que há um novo paradigma e é na base desse quadro com o qual se terá de encarar os desafios do futuro, que todos reconhecem não serem fáceis.
Em pouco mais de dois meses de vida, seria impensável exigir ao novo governo que cumprisse o que foi prometido na campanha. Contudo, esses primeiros tempos da nova governação vêm acumulando um capital talvez tão importante quanto o vil metal, que vai no sentido da moralização da sociedade através do resgate das boas práticas e da correcção de erros que vinham de trás e que provaram ser factores de estrangulamento, ao contrário da imagem de empoderamento que alguns propalavam. Seguramente que uns poucos beneficiavam dessas práticas, sobrepondo-se a uma maioria que assume cada vez mais os princípios de cidadania,  e não se contenta em ver a caravana passar, reclamando direitos e exigindo uma maior participação na discussão das políticas e na solução dos problemas que a afligem.
E tem sido em resposta a essa realidade que acompanhamos um novo paradigma de governação, de maior interacção entre governantes e governados, apesar do pouco tempo que leva a legislatura, procurando-se definir balizas para este ciclo político de transição. Pode parecer um contra-senso estar a impor limites quando em democracia as barreiras devem ser eliminadas, mas é preciso entender que na nova realidade há que procurar fazer um corte com o passado, sem que isso signifique uma "caça às bruxas", uma purga ao passado recente, como alguns querem fazer crer, entre elementos da oposição e mesmo da situação.
Até agora, o capital de esperança tem sido alimentado quase que exclusivamente pela acção do Presidente da República. Têm partido dele as iniciativas para procurar desenvencilhar o novelo do nosso quotidiano, marcado por colossais assimetrias de toda a ordem. Mas, paralelamente ao exercício de procurar colocar as pessoas certas nos lugares certos, um exercício que se tem mostrado bem mais difícil do que seria suposto, há um conjunto de medidas que estão a ser adoptadas por forma a reverter o quadro económico e social. Algumas dessas medidas, contidas no chamado plano intercalar, serão muito provavelmente impopulares, mas afiguram-se de todo necessárias para acompanhar o ritmo de mudanças e transformações por que passa a sociedade, onde as carências são vividas no dia-a-dia.
Quer no espaço doméstico, quer no domínio internacional a aposta é procurar fazer mais e melhor, com menos recursos e em menor tempo, até porque a normalidade constitucional do país não permite a repetição de cenários antigos.
Longe de uma cruzada contra figuras protagonistas do passado, o novo ciclo exige a responsabilização dos que, comprovadamente, agiram ou agem contra os interesses nacionais, naquilo que é a moralização da sociedade, com o fim da impunidade, passo importante no combate à corrupção, decididamente um dos piores males que afectam Angola nos dias de hoje.
Exige-se também o fim da megalomania, quase sempre transformada em elefantes brancos, e um maior realismo e pragmatismo na concepção das políticas e projectos, seja no plano interno, seja no elencar das parcerias internacionais, de que os recentes acordos com a África do Sul são um óptimo exemplo, que vai muito para além da supressão dos vistos de entrada para os cidadãos dos dois países.

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