Opinião

Começar, de novo!

Víctor Silva

Ontem, 4 de Abril, o país deveria ter vivido a alegria e a animação próprias da celebração de uma das datas mais importantes do calendário nacional, o dia que assinala o calar definitivo das armas, abrindo a enorme janela de esperança de realização de outra grande e maior conquista dos angolanos, a Independência.

Uma pandemia mundial obrigou a que o país esteja a viver um período emergencial, de prevenção e combate ao novo coronavírus, que obriga ao isolamento social como uma das medidas profilácticas mais adequadas. Já antes, e por diversas épocas e momentos, o país viveu em planos de emergência, mas nenhum com a dimensão do que vigora actualmente, mesmo que se possa fazer uma analogia aos anos em que vigorou o recolher obrigatório.
Sendo o confinamento, a permanência em casa, uma das principais armas, a par de outras ligadas à higiene pessoal e colectiva, para se prevenir a disseminação da doença, é natural, pois, que as comemorações do Dia da Paz tivessem passado um pouco à margem desta causa que põe em perigo todos os caboucos já solidificados na construção da Nação, nos marcos modernos da democracia e do primado da lei.
Não festejar com a dimensão que a efeméride exige está longe de significar que ela tenha caído no esquecimento e perdido a importância inegável que possui na História do país. Antes pelo contrário! O facto leva à reflexão colectiva sobre os ganhos da paz e a necessidade de a preservar como condição básica para se atingir a prosperidade e abandonar o estágio de subdesenvolvimento. Que choca com o potencial de riqueza identificado e por identificar com que os nossos solo, subsolo, rios e mar foram bafejados.
Desde o parto da Independência, e durante décadas, Angola viveu em conflitos político-militares que foram adiando a concretização plena do país sonhado e possível, que garantisse a harmonia e a felicidade para todos, sem distinção. Por isso, a conquista da paz destapou um oceano de esperança e de oportunidades que tardam, contudo, a ser sentidas pela maioria dos angolanos, atirada ao descaso e à sorte por força da inversão de valores que nos são (ou eram) idiossincráticos e que foram substituídos por alguns dos conhecidos pecados capitais, que uma minoria conseguiu impor em beneficio próprio e quase como padrão de vida institucionalizado.
A gula insaciável acentuou as distorções sociais e relegou preocupações e prioridades básicas para um plano inferior à luxúria dos seus egos inflamados, que não se cansa(va)m de massajar intra e além-fronteiras, onde havia sempre uma multidão de aduladores prontos a prestar todos os serviços que a soberba, construída com os dinheiros descaminhados dos cofres públicos, permitia.
Uma praxe que se foi refinando ao longo de anos, na esteira da suposta criação de uma burguesia nacional na base da acumulação primitiva de capital e que, na prática, resultou num saque generalizado ao erário e à construção de impérios supostamente privados, mas com dinheiros de todos.
O novo ciclo político, inaugurado em Setembro de 2017, permitiu resgatar a esperança que andava arredia das famílias, pelos maus exemplos de ostentação insultuosa que se sucediam ante a sua cada vez mais difícil sobrevivência quotidiana.
Por isso, foi declarado o combate à corrupção e à impunidade como uma das prioridades políticas, para que os poucos recursos encontrados nos cofres fossem destinados à correcção das assimetrias então criadas. Combate que se mantém actual quando confrontamos a dura realidade do dia-a-dia das famílias e das empresas, sem a garantia da maior parte dos serviços mínimos em áreas tão sensíveis como a Educação, a Saúde, o saneamento básico, o abastecimento de água e de emergia, a habitação e a mobilidade, entre tantos outros.
Conhecedoras desta realidade, as autoridades decidiram pela medida extrema de decretação do Estado de Emergência, para que o contágio da Covid-19 não atinja os números que se conhecem noutras paragens.
Porque o país não tem um sistema de saúde digno desse nome e tem enormes carências infra-estruturais, além de económicas e financeiras, que tornam o surgimento de qualquer epidemia num autêntico perigo para a segurança nacional, como é agora o caso do novo coronavírus.
Com o reacender da esperança, têm reemergido valores abandonados e que passam pela solidariedade, testada no período de seca no Sul do país, reforçada na quadra natalícia e renovada nesta época em que Angola e o mundo estão numa guerra ante um inimigo invisível. Os gestos de solidariedade multiplicam-se, individual e colectivamente, porque na hora do socorro não deve haver barreiras de qualquer espécie, nem se deve exigir responsabilidades apenas a quem governa. Aliás, a ocasião é propícia para que alguns que conseguiram enriquecer contra a corrente da maioria, possam mostrar o seu lado humanista que se acredita haver ainda entre os homens e devolver parte do que foi retirado do erário ou acumulado licitamente e ajudar na prevenção desta pandemia.
Neste momento, não há certezas. Tudo é incerto ante um inimigo invisível que pode roubar a nossa identidade, razão mais do que suficiente para se repensar o país, desde os seus alicerces, e corrigir, efectivamente, o que está mal e ensaiar novas vias que possam levar mais rápido a recuperar o tempo perdido e não repetir os erros que foram sendo cometidos até hoje. Com base no diálogo, na inclusão e participação, de facto e efectiva, de todos os representantes da sociedade.
Hoje, mais do que nunca, impõe-se um pacto político e social que possa transformar-se numa causa nacional na qual todos os angolanos se revejam e se engajem, porque, por mais optimistas que se possa ser, ninguém está em condições de prever como será o dia seguinte a esta crise sanitária que se veio somar à económica e financeira que já vinha se evidenciando de forma acentuada.

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