Opinião

Contingências de um ofício

Caetano Júnior

A Polícia está, essencialmente, para Proteger e Servir o cidadão, independentemente do slogan sob o qual se faz anunciar. E, em Angola, é a mesma a razão por que existe: levar tranquilidade às pessoas e à sociedade, em geral, rodeando-as da segurança e da confiança necessárias a uma existência sem sobressaltos.

Um ancião, por exemplo, pode ter no polícia de trânsito o indispensável auxílio para a transposição de uma rua ou estrada normalmente movimentada; uma senhora encontrará no agente da Ordem Pública o conforto psicológico ao circular no troço escuro ou isolado do bairro; uma criança é capaz de se inspirar num desses homens fardados para esboçar o futuro; enfim, um jovem verá na autoridade do patrulheiro que passa a solução para a altercação de rua que tem com outro transeunte. A Polícia chega, de facto, a ser elemento a considerar para que o nosso dia comece e/ou termine bem, daí que se revele de inestimável importância o trabalho ao qual se dedica.
Pelo Mundo, chegam-nos, paradoxalmente, relatos da actuação tosca de autoridades policiais; surpreendem-nos informações sobre acções desastrosas de quem a vida atribuiu a tarefa de Proteger e Servir, mas que, ao invés, acaba por ser ele próprio o algoz das pessoas cuja segurança jurou cuidar. São atitudes aberrantes, que recebem o repúdio e merecem a condenação geral, em países onde ocorrem, independentemente das razões que levam a que sejam tomadas.
Nestes últimos tempos, vêm dos Estados Unidos da América, país célebre pelo pioneirismo na democracia e na promoção das liberdades individuais, as imagens mais inacreditáveis de barbárie jamais vistas em sociedades modernas. Em estados da Nação de Lincoln, que, curiosamente, ganhou notoriedade na História Universal pelo papel central que interpretou na abolição da escravatura, o exercício de tiro ao alvo e o ensaio de técnicas para matar escolheram negros como vítimas de polícias. São abordagens comprovadamente desajustadas dos dias de hoje - se calhar alicerçadas no racismo estrutural vigente em nações avessas à tolerância e à igualdade -, que fazem questionar alguma da acção desses agentes, cuja autoridade permite-lhes os excessos que todos conhecemos.
Em muitos desses casos, os agentes envolvidos acabam, entretanto, suspensos e inquéritos são instaurados para apurar os factos e trazer ao conhecimento público o que realmente ocorreu. Não poucas vezes, os responsáveis dos departamentos envolvidos reconhecem “excessos cometidos”, ao mesmo tempo que se desfazem em pedidos de perdão, ajuntando à “mea maxima culpa” a promessa de uma avaliação aturada à maneira de proceder da Polícia. Sendo impossível fazer recuar as fatídicas ocorrências e prevenir a tragédia que se anunciava, admitir que se está perante uma eventual “actuação inábil” da autoridade é o mínimo que se espera.
Se se parte do pressuposto de que abordagens desastrosas podem ocorrer em contextos em que actuam homens, devem “os sentidos” estar preparados para a circunstância de contrariedades. Instituição alguma é infalível ou tem controlada a cadeia de eventos passíveis de culminar em fatalidade. Inclusive unidades hospitalares, onde, muitas vezes, médicos chegam a ver a morte a assomar-lhes entre os dedos, sem perceberem bem que “disfunções” terão levado o paciente a respirar pela última vez. Por isso, a cada incidente, sobretudo o que envolve perda de vida, deve ser privilegiado um inquérito, o mais minucioso que se conseguir, para apurar responsabilidades.
A nossa Polícia tem a trajectória dos últimos meses marcada por incidentes relacionados ao uso de máscaras em números suficientes para obrigar a uma introspecção sobre o que estará a atrapalhar procedimentos ou a deturpar o sentido das orientações. E assumi-lo é uma postura indicativa de que se pretende encarar o problema; discuti-lo (internamente). A busca pela verdade por detrás de eventos, no mínimo, estranhos e sob escrutínio de estrato considerável da sociedade não é admissão de culpa; é a prova de que se leva a procura por esclarecimentos até às últimas consequências. É um exercício de elevada coragem que a cidadania aplaude.
A Polícia é geralmente avaliada numa perspectiva “todo pela parte”. Para o cidadão comum, por exemplo, o acto individual de um agente engaja necessariamente a corporação. Uma atitude condenável logo é transformada em “acção da Polícia”, ainda que se trate de um gesto de natureza moral. Para quem assim considera, é impossível separar as duas entidades, a figura dentro do uniforme e a instituição que representa. A corporação em Angola pode, nos últimos tempos, ter sido apanhada na teia de eventos aleatórios, impossíveis de prever e difíceis de controlar ou conter. Acontece até à mais eficiente organização e não é por isso que deve ver questionado o percurso de décadas ao serviço do País e da população.
Há instituições cuja credibilidade deve estar longe de questionamentos; acima de qualquer suspeição. E a Polícia é um exemplo. Uma premissa, entretanto, permeada por imprevisibilidades, porque envolve o homem - o ser mais falível que se conhece -, que interage com outros semelhantes, numa relação cuja complexidade a Psicologia continua ainda hoje a tentar perceber e a Pedagogia nem sempre consegue acudir. É uma ligação muitas vezes inconciliável e, por isso, passível de desinteligências, que chegam a dificultar o trabalho de Proteger e Servir.
Portanto, se existe justiça no clamor por mais luz sobre os eventos que culminaram na morte do médico Sílvio Dala, e na manifestação que lhe seguiu, também abunda razão para que não se estigmatize a Polícia, no conjunto que representa enquanto autoridade ao serviço do Estado, culpando-a agora por todos os males que nos acontecem; transformando-a, qual exercício de oportunismo, na bandeira para a incitação à desobediência geral e à violência.
No decurso da actividade profissional, guardamos lembranças de eventos cujos desfechos nos desiludem, ainda que a consciência nos ilibe da responsabilidade directa. Verga-nos o peso de omissões, de falhas, que carregamos na consciência e com as quais somos obrigados a conviver. São as contingências de um ofício.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia