Opinião

Corrigir, sempre!

Víctor Silva

Anda meio mundo com a calculadora na mão a somar os casos positivos do novo coronavírus, anunciados pelas autoridades, para determinar se a contaminação comunitária já chegou ou não a Angola e na antecipação de uma possível catástrofe geral que isso poderá representar, sobretudo num sistema de saúde já débil de outras maleitas que lhe vêm afectando o funcionamento, há décadas.

Por entre esses “contabilistas” há os que avançam, sem hesitação, que a contaminação comunitária já é um facto faz tempo e que as autoridades estão a esconder para não alarmar a população, como se a pandemia fosse algum trunfo político criado pelo Governo para jogar na altura que melhor convenha ao seu calendário.
Desde o início que se sabe que da transmissão local para a comunitária vai um passo tão curto quanto à imprevisibilidade do impacto da doença ou o seu grau de letalidade. Sair de um estágio para outro não altera em nada as medidas de prevenção que vêm sendo tomadas e que constituem a maior garantia para travar ou minimizar o contágio do novo coronavírus. Antes pelo contrário. Obriga a que as medidas sejam reforçadas, porque são públicas as debilidades das nossas unidades de saúde para atender as solicitações de quem lhes bate à porta, apesar dos esforços que têm sido feitos para melhorar a sua prestação seja em meios humanos, como técnicos e materiais.
Por isso, independentemente de se estar ou não numa situação de contaminação comunitária, que obrigará logicamente a adopção de medidas apropriadas, a profilaxia continua a ser o melhor remédio já que a doença tem provado não ser selectiva na sua propagação, não escolhendo as vítimas em função do seu estatuto ou condição social.
Isso não desresponsabiliza o facto de se terem perdido dois a três meses na testagem aleatória que agora iniciou e que poderia dar números mais próximos da realidade da contaminação da Covid-19 no país.
Ante tantas incertezas sobre os reais efeitos da peste na sociedade, a prudência mostra-se ser a melhor conselheira não se recomendando excessos e larguras que nos eram tão familiares em épocas não tão longe assim.
O Orçamento Geral do Estado revisto que começará a ser discutido, nesta semana, na Assembleia Nacional é um exemplo prático de que o tempo das “vacas gordas” já era e que entre desejos e capacidade de realizar vai uma grande distância que se traduz no aproveitamento dos poucos recursos disponíveis, por força da Covid-19 e dos seus impactos na economia e finanças mundiais, que já vinham a dar sinais de alguma fraqueza antes mesmo da crise sanitária.
Está-se perante uma proposta moderada que salvaguarda o funcionamento das principais necessidades sociais públicas e aposta no fortalecimento da produção interna, com um sector privado mais motivado e a desempenhar o papel que efectivamente lhe compete na batalha da diversificação e relançamento da economia, numa conjuntura de todo adversa.
Mas é evidente que não basta ter um OGE bonito ou um Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) em execução para que os resultados possam ser facilmente perceptíveis pelos cidadãos na sua difícil luta diária pela sobrevivência.
Há um longo caminho a percorrer na mudança de mentalidade, quer de dirigentes, gestores e mesmo dirigidos, habituados a tratarem os bens públicos sem rigor, sem respeito e sem parcimónia.
Uns, locupletam-se sem cerimónias, ignorando os sinais de mudança que são dados a cada denúncia e cada processo que corre nos trâmites da justiça. Forjam concursos para ludibriar as exigências de adjudicação de empreitadas a nível do PIIM, para não falar do critério da escolha das próprias obras, chegando-se ao cúmulo de se contratar um enfermeiro como fiscal, como foi agora denunciado.
Outros, beneficiários, não cuidam dos bens e serviços que lhes são colocados à disposição, enveredando por actos de destruição e destrato que em muitos casos cheiram a verdadeira sabotagem, tal a sua dimensão e impacto.
Há, pois, um longo trajecto a seguir para se diminuírem tais práticas, herdeiras de uma mentalidade que se foi instalando entre nós e faz com que se pense que compete ao Estado resolver todos os problemas da sociedade, mesmo que na prática quotidiana de cada um, o individualismo, a gula, a ganância e a ilicitude sejam as marcas registadas. Práticas que nos trouxeram ao estado em que nos encontramos e que, por serem bastante lesivas aos interesses públicos, precisam de ser combatidas sem debates internos nem palmadinhas nas costas, mas fazendo prevalecer o princípio da igualdade, da equidade e de que ninguém está acima da lei, independentemente do apelido ou título que ostente.
O sacrifício não deve ser apenas para os mesmos de sempre, quando outros continuam a somar lucros por cima do sofrimento da maioria. A equidade também deve ser observada na tributação, penalizando quem mais lucra em detrimento do cidadão que já nem cinto tem para apertar mais uns furos no esforço diário para se manter sobrevivo.
As multas aplicadas pelo Banco Nacional de Angola aos bancos comerciais que não têm respeitado as directrizes para concederem crédito ao sector produtivo, evitando-se assim as importações - cujo lobby continua tão fortemente implantado nas esferas do poder -, são outro exemplo de que as resistências às mudanças não se ficam por aqueles mais ou menos famosos que se lambusaram à farta no passado recente.
Eles andam por aí, cada vez mais afoitos e desafiadores, depois de algum período de retração, deixando passar a ideia de que, afinal, os novos tempos são meras palavras que o vento (já) levou.

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