Opinião

Depois do plágio...

Caetano Júnior

O concorrente a um prémio de literatura infantil viu, na semana passada, a distinção ser-lhe negada, já depois de anunciado vencedor, sob a acusação de plágio. O candidato a escritor, de acordo com nota da instituição promotora do concurso, plagiou “O livro que não tinha fim”, da brasileira Sandra Aymone, reencarnando-o sob a forma de “A Kandengue do Gulungo e o livro que não tinha fim”.

Como avaliação preliminar, fica a certeza de que, ao desmascarado autor, falta criatividade e sobra preguiça mental: eliminar, no título, resquícios do trabalho original é o mínimo que se espera de quem se aventura na desonesta tarefa de tomar como sua obra literária alheia.
A descoberta deste exercício de plágio a ninguém, entretanto, deve admirar. Aliás, surpreende até que só agora aconteça a divulgação pública desta natureza de deslealdade, quando o cenário académico em Angola há muito nos dá mostras de profunda degradação. De facto, um país cujo sistema de Ensino e Educação se confronta com problemas de base tão graves, cujos reflexos estão afixados na péssima qualidade de estudantes universitários e de graduados, não pode ter tanta gente a escrever e a publicar obras, literárias ou não, como tem ocorrido nos últimos anos. Já em algumas ocasiões alertámos para esta natureza de contradição.
O autor do plágio teve o azar de ser desmascarado - esperava ele, naturalmente, que o crime que cometeu fosse perfeito - e nós a sorte de o ter como prova do défice de habilitação de que está infestada grande parte do nosso tecido intelectual. Anualmente, saem das faculdades do país mais de 10 mil graduados, à partida preparados para preencher eventuais necessidades do mercado de trabalho. Eles juntam-se a outros tantos licenciados em anos anteriores, pós-graduados, mestres, enfim, detentores de títulos que lhes enriquecem o currículo.
Muitos destes quadros produziram monografias, teses e outros trabalhos a que estão obrigados no final da formação. Subscrevem-nos como pertença conseguida à custa de inestimável sacrifício e, não poucas vezes, publicam-nos nos espaços que lhes aprouver, para anunciar a ascensão de mais um degrau na Academia e a consequente elevação da competência intelectual. Mas poucos deles merecem o crédito. Grande parte da produção científica não é de sua autoria; é resultado de cópia, em parte ou completa, de escritos achados na Internet. Alguns são tão desleixados (ou serão pouco inteligentes?) que entregam a “obra” com marcas da origem, inclusive o clique aqui ou veja mais em www...
É assim que eles entendem a consulta ou pesquisa: a reprodução completa de trechos ou da obra alheia. Submetem-na, depois, à avaliação de quem, na instituição onde estudam, tem competência para tanto, que a aprova, consciente ou não de que tem pela frente um “roubo intelectual”. É, pois, ele quem dá testemunho final à formação de um estudante comprovadamente inepto para os desafios que o aguardam. E o vício ou a má prática estende-se a outros lugares. Por isso, cruzamos com plágios em textos jornalísticos, em letras de música, em projectos de natureza diversa e até em simples ideias, ouvidas em inocentes conversas.
Quantas vezes encontramos, em textos, passagens de que nos lembramos ter lido algures, mas não nos vem a coragem para questionar, por receio de criar constrangimentos? Em quantas outras ocasiões percebemos que determinada qualidade escrita não está ao alcance de quem a dá como sua, mas mesmo assim permanecemos calados? É esta forma de proteccionismo que também concorre para que se vulgarizem plágios e outra natureza de desonestidade.
O que falta é cortar à nascença indícios que podem desembocar nestas práticas mais graves. É preciso desencorajá-las. Afinal, como qualquer outro acto desonesto, quem tende a plagiar começa por pequenos “delitos intelectuais”. São gestos cuja gravidade aumenta aos poucos: mentiras aparentemente inofensivas, cábulas, tentativas de suborno aos professores, compra de documento para certificação de conhecimentos, enfim ... Mais do que simplesmente apresentar como nosso um trabalho intelectual sem a anuência do autor, plagiar reflecte a nossa própria incapacidade mental.
De facto, o plágio ilustra, no contexto literário, falta de criatividade e de competência escrita, aliada, já entre nós, à necessidade de notoriedade intelectual. É para onde a tendência hoje aponta, a auto-promoção. Mas não é um problema restrito ao campo literário ou àqueles que procuram ganhar visibilidade à custa da escrita roubada. É um mal conjuntural. É o que cada um de nós conhece um pouco, de ver ou ouvir; é a busca da realização imediata, sem esforço. Pouca gente parece determinada a cumprir com as etapas que, por norma, preenchem o período entre o começo de um aprendizado e a certeza de que se está preparado para as incumbências. É um momento que chega depois de aturado sacrifício, dedicação e humildade. É prémio para poucos.
A mais alta qualidade criativa e escrita deve ser celebrada. Mas não com o indecoro de um plágio! Pode ser lembrada enquanto referência para determinado contexto, literário ou não. Melhor ainda se for trazida à luz com os trechos que interessam à abordagem perfeitamente marcados e o autor citado. Deste modo, não apenas assinalamos a nossa integridade moral, como também deixamos vincado o respeito que nos merecem o escritor e o livro. Citar é, além disso, um gesto de elevada humildade. Afinal, ninguém é original: somos o conjunto das obras que lemos e de ensinamentos de quem acumula sapiência suficiente para nos moldar.
Como já o dissemos, não há atalhos para a produção do texto perfeito. Quem o consegue é forjado na leitura diversa, nos conhecimentos gerais e específicos que acumula ao longo dos anos de “tempero”. É um rebento da formação. Mesmo o candidato a autor do livro mais simples não salta as etapas que levam à consagração final. Convém, pois, recuar no tempo e investigar que fases da escolarização terá o “nosso escritor” evitado ou falsificado no percurso que fez.
É que depois do plágio, já não admira o que tiver “aprontado” lá atrás.

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