Opinião

Devagar que temos pressa

Victor Silva

O fim do ano aproxima-se e com ele as recorrentes reflexões e avaliações.

2017 será, indubitavelmente, o ano da mudança em Angola. Em quarenta e dois anos de independência, os angolanos conhecem o seu terceiro Presidente da República, saído de eleições gerais marcadas, elas próprias, com o slogan de mudança. Quer a oposição quer o partido no poder ergueram a bandeira da mudança com argumentos de disputa eleitoral acabando por  convencer os eleitores  o apresentado pelo MPLA.
Pode dizer-se que mudar por mudar, a maioria dos eleitores preferiu a que lhe foi apresentada pelo partido no poder desde a independência, assumindo algum realismo face a promessas que  outros no essencial traziam mais desconfianças do que certezas.
Ao apostar num novo candidato a Presidente da República, o MPLA antecipou-se a toda a estratégia de combate político que havia sido previamente delineada pela oposição, com alvos bem definidos, acabando por ser esse o argumento de  mudança que mais terá pesado para a sua continuidade no poder.
Desde as eleições, a aposta tem-se revelado de todo acertada, como revelam os índices de popularidade que o Presidente da República vem conhecendo, em menos de três meses de mandato.
João Lourenço tem sido o catalisador das mudanças por que passa o país, com as medidas que tem vindo a tomar, algumas de assumido risco político e merecedoras de reconhecimento por todos, incluindo os  líderes da oposição.
É evidente que muito ainda haverá a fazer, mas não deixa de ser significativo que, pouco a pouco, até franjas que levantavam algumas reservas quanto ao seu desempenho enquanto Chefe de Estado estejam a render-se à evidência dos factos e  a aceitar, ainda que com certa relutância, que o país entrou, definitivamente, numa nova era. No novo ciclo político onde  recuar será perder,, haverá  revezes próprios de uma caminhada onde nem todos se identificam, ou por estarem a ver beliscados os seus interesses ou por se oporem, pura e simples, aos ventos da mudança, apostando na continuação de um quadro que se tem revelado desagregador, beneficiando uma minoria  que se apoderou das riquezas nacionais como se propriedade privada se tratasse, ou herança vai-se lá saber de quem, em detrimento da maioria dos angolanos que têm um dia-a-dia de enorme sofrimento que era propagandisticamente mascarado mas hoje  conhecido e permanentemente  discutido num exercício que se deseja pleno de expressão e naturalmente de liberdade de imprensa.
A realização  de um seminário  sobre os crimes a que os titulares  de cargos públicos estão sujeitos, iniciativa da bancada parlamentar do MPLA, é, em si, sinal dos novos tempos, pois questões como a corrupção e o nepotismo, foram quase sempre tabus no léxico político dos “camaradas” e desde a campanha  passaram a ser temas de livre debate e de denúncia. Aliado a isto  acrescermos o anúncio que o governo irá adoptar, já a partir de Janeiro, medidas para o repatriamento das fortunas angolanas acumuladas no estrangeiro, é justo corroborar de que nada será como antes e que não se está apenas na retórica das promessas eleitorais mas na sua materialização, para  moralizar a sociedade e torná-la menos desequilibrada, a tal ponto de que “ninguém é rico ou poderoso demais para se furtar a ser punido, nem ninguém é pobre de mais ao ponto de não poder ser protegido”.
Não se trata de qualquer cruzada contra os endinheirados ou uma caça às bruxas, como ficou claro na intervenção de João Lourenço. Foi  anunciada uma moratória para que esse dinheiro retorne ao país e sirva os interesses de Angola e dos angolanos, ajudando no crescimento da economia e no desenvolvimento , com a criação de empregos e o combate das assimetrias sociais e regionais.
 Findo esse estado de graça, o governo vai adoptar medidas para o retorno coercivo desse dinheiro, através de mecanismos que hoje já existem a nível mundial e que estão ligados ao combate ao branqueamento de capitais, o que coloca os seus titulares perante o dilema de ou continuarem ricos e endinheirados no seu próprio país ou verem os seus bens confiscados pelas autoridades dos países onde depositaram a sua riqueza.
Acredita-se que, à semelhança de outros países,  Angola poderá ter sucesso neste desafio, em que estaremos a falar de somas que dão a volta às actuais reservas líquidas internacionais e que, uma vez ao serviço do país, poderiam  aligeirar o défice das contas públicas, diminuindo a necessidade do endividamento e minimizando o impacto de algumas medidas que se mostram indispensáveis tomar, no curto prazo, para a sustentabilidade  económica e que, na sua aplicação, poderão manifestar-se impopulares no imediato mas de grande valia a médio e longo prazos.
Avisado está o governo que não se trata de um combate fácil e que para isso não basta apenas a vontade política.  É um desafio geral para corrigir mesmo o que está mal e termos um país mais harmonioso e solidário, onde as necessidades básicas deixem de ser um quotidiano de desespero e  fortaleçam-se  os alicerces para a melhoria do ambiente político e de negócios capazes de captar os investimentos externos, como já está a acontecer.

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