Opinião

É do ensino ...

Caetano Júnior

A imagem do sistema de ensino em Angola tem, de um modo geral, estado particularmente desgastada. Pelo menos assim fazem inferir os últimos factos trazidos à luz. Evidências de que, afinal, a aura de credibilidade de que estaria guarnecido, como muitos insistiam em fazer crer, não passava de fogo-de-vista, de um artifício cujo propósito único era, se calhar, inseri-lo no pacote do “País Maravilhoso”, o agregado dos sectores infalíveis e bem encaminhados que o merchandising ajudava a promover e disseminar.

As evidências com que todos os dias nos confrontamos talvez sejam persuasivas o suficiente também para trazerem à realidade analistas que ao longo dos anos venderam a ilusão de que era o nosso país, entre os africanos, aquele que mais licenciados trazia à existência e que mais universidades edificava, num processo irmanado à qualidade dos quadros. Mas não está em discussão a quantidade de estudantes saídos das universidades com o canudo entre os dedos, nem de instituições construídas. Obriga-nos à reflexão a competência dos graduados.
Há poucos meses, neste mesmo espaço, trouxemos à conversa a exposição, pelos próprios estudantes, na altura acabados de graduar, de inadequações ortográficas em “posts” nas redes sociais, para onde tinham ido esbanjar a vaidade pela licenciatura. Antes, um outro artigo chamara a atenção para os sucessivos casos de erro clínico, em unidades hospitalares privadas e públicas. O que continua a preocupar não é apenas o equívoco no diagnóstico e no tratamento de doenças, mas a regularidade e a facilidade com que incidentes desses ocorrem.
Também assusta o desconhecimento quase geral de eventuais consequências sobre os responsáveis para que pacientes sejam negligenciados, cumpram medicação inadequada, sofram procedimentos errados ou morram porque tiveram a doença mal diagnosticada e pior tratada. Portanto, mais evidências que nos remetem para a qualidade dos quadros. E grave não é só a existência desses casos; é também o silêncio de que parecem estar rodeados.
Na última semana, fez sensação, pela negativa, obviamente, a reprovação dos mais de 700 candidatos que tentaram o ingresso na Faculdade Agrária do Huambo. Portanto, sequer um passou, o chumbo geral, num universo superior a mais de sete centenas de estudantes, de acordo com os resultados tornados públicos. De novo, as responsabilidades são (e devem ser) assacadas à qualidade do ensino, com consequências directas sobre a capacidade do candidato, no caso.
Em Janeiro passado, a realidade sobre o mesmo ensino que se ministra em Angola foi-nos atirada à cara, com toda a carga de dramatismo que carregava: dos 1.355 candidatos ao concurso público do Ministério da Saúde, para o preenchimento de 1.500 vagas na carreira de médico interno-geral, 733 (54 por cento) foram reprovados. Agora, 878 vagas estão à espera por quem ajude a ocupá-las. É, uma vez mais, o ensino a revelar-se no que tem de mais cruel e lamentável; a declarar-se incapaz de prover, com a qualidade que se exige, quem dele se socorre.
O desastre que foi, em relação ao aproveitamento, o concurso público do Ministério da Saúde, realizado em Novembro, ajuda-nos a compreender situações que se conhecem de instituições hospitalares, públicas e privadas. Leva a concluir que muitos dos homens e mulheres que preenchem o quadro acumulam insuficiências várias, decorrentes da débil formação; que, muito provavelmente, escaparam a um escrutínio mais rigoroso durante o processo de selecção ou simplesmente passaram ao largo da exigência que é o concurso público. Assim, os erros clínicos vão seguir o “curso normal”, não havendo previsão para um fim à vista. Pelo menos a curto ou médio prazos.
Grave também é, no rescaldo das reprovações no referido concurso público, o Sindicato Nacional dos Médicos de Angola ter acusado a ministra da Saúde de passar “certificado de incompetência” aos candidatos, como se ela tivesse responsabilidades no nível de competência de cada um deles ou os tutorasse. De um grupo de intelectuais, espera-se por acções, gestos e atitudes mais edificantes e menos improfícuas. Sílvia Lutucuta limitou-se a anunciar os resultados e, à guisa de informação adicional, detalhar as áreas do saber onde os concorrentes foram mais ou menos proficientes.
A menos que existam outras motivações subjacentes ao “certificado de incompetência”, convocar uma “marcha de protesto” por causa das declarações da ministra é desviar do foco. É incoerente ignorar o essencial e concentrar a atenção no acessório. O sistema de Ensino e Educação em Angola não é confiável. Também por isso, serviço algum o é. Eis a raiz do problema. É do ensino e de quem faz com que se concretize: alunos, professores e gestores.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia