Opinião

“É leio, nu mexe”

Caetano Júnior

Numa quinta-feira, há dois meses mais ou menos, um cidadão deslocou-se à centralidade do Zango 5 - também conhecida por Zango Oito Mil - para tomar o primeiro contacto com a moradia que lhe cabia, depois de longos meses de espera e de cumpridos os pressupostos burocráticos e outros procedimentos que acabariam por habilitá-lo ao processo de aquisição.

A expectativa logo acabou gorada, mal o homem chegou à que seria a sua habitação. Encontrou-a movimentada; em ambiente festivo: uma família convidara parentes e amigos para com eles celebrar a materialização do “sonho da casa própria”. Portanto, a residência que lhe foi indicada como sua teria, afinal, também sido entregue a outra pessoa, que tinha acabado de “cortar a fita” para o acto formal de entrada.
Coincidentemente, ou não, nessa quinta-feira, uma delegação da empresa que gere as habitações fazia uma visita de inspecção à centralidade. Vendo a circunstância como a ideal para colocar o problema com que, de repente, se confrontou, o cidadão contactou um dos membros da comitiva e apresentou a situação aflitiva em que se achava. E porque no local havia um representante do SIC - Serviço de Investigação Criminal -, o processo de averiguação começou logo ali. O ocupante da habitação disse que a adquiriu de um intermediário, a quem pagara dois milhões e meio de Kwanzas pela chave, ficando a entrega da documentação dependente dos restantes 500 mil Kwanzas, valor que faltava para completar a totalidade dos três milhões acordados.
Portanto, o “anfitrião” tinha sido apanhado numa rede lançada por burladores. Aliás, ele mesmo, que no momento também celebrava mais um aniversário natalício, transformou-se em suspeito ou, no mínimo, em pista para se chegar à cabeça da organização. Acabou, inclusive, por passar a noite sob detenção, para dar corpo aos procedimentos investigativos e fazer prova de que não passava de vítima. Assim, a tarde de celebração de uma família e amigos depressa registou alteração negativa, para um momento de tragédia, que interrompeu um velho costume nosso de “molhar” e/ou abençoar o novo: a residência, a viatura, o emprego, enfim…
Para trás, ficou mais um episódio dos muitos que conformam actos de desonestidade, no caso concreto, de tentativa de apropriação indevida de um bem. São, na verdade, eventos de algum modo corriqueiros nos nossos dias. E, em quase todas as situações dessas, em ocorrências criminosas, o desfecho é dramático. Nos últimos tempos, acções delituosas dessa natureza tendem a aumentar, o que pode ser confirmado sem necessidade de estatísticas oficiais, bastando para tanto o recurso ao senso-comum, às informações que nos chegam diariamente.
Por exemplo, estamos de ouvidos a arder de tantos casos investigados pela PGR (Procuradoria Geral da República) ligados a actos lesivos ao Estado, ao erário, sobretudo. Mas os exemplos da atracção pelo alheio abrangem a população de um modo geral; atingem, inclusive, gente com histórico de honestidade. A ocupação ilegal de apartamentos e moradias em centralidades é a prova mais à mão.
De facto, nada justifica a invasão da propriedade alheia. Sequer a gritante carência de habitação, que se verifica particularmente em Luanda, deve servir de mote para que se quebrem normas de convivência colectiva e se ignore a Justiça. A ocupação ilegal é uma transgressão punida por lei, com possibilidade de prisão, até, além de que revela falta de integridade. A nossa sociedade está assente sobre sólidos princípios morais e éticos, que ensinam, por exemplo, o respeito que nos merece o que é alheio. Isso “é leio, nu mexe”, ouvimos sempre dizer de quem a vida legou a tarefa de cuidar da nossa educação. São, infelizmente, ensinamentos que a precariedade da vida e o permanente estado de necessidade fizeram diluir.
Mas nunca é tarde para resgatar valores que nos fizeram pessoas honestas, íntegras, correctas ao longo de tantas décadas; desde os tempos em que as palavras dos mais velhos substituíam os livros, que agora os temos aos montes, mas se revelam incapazes de nos “meter na linha”: ou porque os ignoramos, ou os não conseguimos alcançar ou, simplesmente, porque não temos literacia suficiente para os compreender. “Ser pobre não é vergonha, vergonha é roubar”, ouvíamos, então, à guisa de moralização.
Urge, pois, recuperar princípios, que, no passado, orientaram o nosso alinhamento moral; que também defenderam a associação do “eu” a “nós” e aos “outros”. O egoísmo e o oportunismo excessivos que hoje professamos prejudicam terceiros, destroem o próximo. Por exemplo, ao nos apropriarmos ilegalmente de uma residência, estaremos, de certeza, a roubar ao outro um benefício que lhe cabe por direito, como conta o começo do texto.
Vivemos em rede; devemos, por isso, cuidar uns dos outros; pensar uns nos outros. Sempre!

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