Opinião

Em tempo de retoma

Caetano Júnior

Desde a última quarta-feira que o mundo deu início à retoma, em todas as acepções que o dicionário confere ao vocábulo: “...dar continuidade a algo que fora interrompido”; “regresso a um estado ou a um ritmo anterior”; “recuperação”; “reconquista”, enfim. É, na verdade, o tornar à vida, o voltar a uma realidade materializada nos 365 dias que, de novo, se estendem pela frente.

Duros, muito duros, para a maioria de nós, cujos projectos são a curtíssimo prazo, porque se circunscrevem a acordar a cada 24 horas com força suficiente para conquistar as próximas. É que o tempo e a própria existência, inexoráveis, não se compadecem de quem se deixa ficar para trás.   
Porém, primeiro e antes de mais, é preciso afivelar a crença em que as conquistas diárias serão materializadas, para então se chegar ao fim - que também é o princípio - olhar no espelho e considerar-se apto para nova retoma. Por outro lado, ainda que o rescaldo dos 12 meses decepcionem, a frustração não deve substituir o optimismo, nem o desespero a confiança. Afinal, existem sempre alternativas para lá do que a nossa vista consegue alcançar e o horizonte nos mostra. 
De nada serve, pois, lamentar-nos ou ter pena de nós mesmos. Também será pouco edificante agir como se Deus e o Mundo encabeçassem uma conspiração que tem por fim a nossa derrocada. Há modelos de superação; contam-se histórias de vida que nos devem atingir, para que nos sirvam de motivação. 
Por exemplo, o romance Fahrenheit 451 (acabou também por ser levado à grande tela) de Ray Bradbury (1920-2012) guarda um particular contexto que nos pode servir de inspiração ou ajudar a afinar a resiliência. Na trama, a posse de livros e a literatura são proibidas. Os bombeiros tinham como principal missão queimar todas as obras, até que não sobrasse sequer uma. O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius. Quem fosse encontrado a ler ou a transmitir algo escrito corria ele próprio o risco de também ser queimado. 
Um grupo de difusores da leitura ou defensores dos livros procurava, entretanto, formas de os proteger e os conservar, o que só era possível à custa de actividade clandestina, naturalmente. Diz-se que “as dificuldades aguçam o engenho”. Um adágio que tem comprovação diária. Os “amigos da literatura” - chamemos-lhes assim - optaram então por assimilar o teor  de obras inteiras: palavras, frases, parágrafos ... um deles assinou a proeza de decorar treze livros, o que é realmente notável.
Antes de se imolar, como se quisesse mostrar aos bombeiros como se põe fogo, uma senhora iniciava, por seu lado, a tarefa de apreender as “Vinhas da Ira”, de John Steinbeck. O desejo de que os ensinamentos escondidos em livros chegassem a outras pessoas e fossem perpetuados é, nestes exemplos, levado ao extremo. Portanto, portas e janelas fechadas não implicam, necessariamente, ausência de saída. Haverá sempre uma alternativa que seja!   
Claro que para trás ficou o desenho de uma situação tirada de um quadro fictício, como quererão sublinhar alguns. Mas é preciso reter que “a realidade é mais incrível que a ficção”. Por mais aguçada que seja a imaginação de um escritor ou argumentista dificilmente será capaz de criar um evento de consequências tão drásticas para o homem, como a própria vida já se encarregou de lhe fazer sentir. 
Portanto, conhecer que alguém foi capaz de assimilar o teor de 13 livros é uma experiência que nos chega da ficção, mas há gente que, na vida real, já se confrontou com a obrigação de se submeter a algo de dimensão semelhante. Resistiu e hoje conta a sua história, que é fonte de inspiração e exemplo de superação.     
À entrada de um novo ano, atitudes que testemunham resistência a contrariedades ajudam quem chega de 365 dias arreliadores, com cada vez menos forças e razão para prosseguir. É preciso derrotar o desânimo e cantar vitória sobre o pessimismo. Em tempo de retoma, a busca é por soluções. Há que prestar atenção, porque estão aí, algures; devem é ser encontradas ... as soluções.

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