Opinião

Embalados na rede

Caetano Júnior

No final da semana passada, Paulo Dentinho, director de Informação da RTP, colocou à disposição o lugar que ocupava na administração da empresa de Media portuguesa. O pedido de demissão - aceite de imediato - constitui o auge da polémica levantada por  uma publicação no facebook, sobre o caso de Cristiano Ronaldo, feita pelo jornalista. O post recebeu uma saraivada de críticas, pela ironia e pelos termos usados.

Portanto, o profissional da comunicação acabou por deixar o cargo, o que reacende a velha discussão sobre liberdade de expressão ou o direito de alguém se exprimir espontaneamente, sem o risco de sofrer pressão e até penalização por dar livre curso à sua liberdade de opinião. Em Portugal, onde ocorreu o incidente, não existe legislação específica que impeça quem quer que seja de publicar o que entender nas redes sociais. Em Angola, também não!
Assim, já se vê que, trazida ao País, a discussão sobre o controverso caso de Paulo Dentinho também sai do âmbito legal, do contexto da lei, para circunscrever-se ao espaço ético. Logo, é de carácter que se trata; do comportamento de profissionais como médicos, jornalistas, advogados, professores ..., que devem ter a conduta orientada por valores, princípios e ideais. Não é o mesmo que eregir um conjunto de normas legais ou deontológicas, para forçar que alguém se vergue à “Teoria do Dever” e à “obrigação de fazer”, para não sofrer as consequências já previstas. Lamentável é quando assim ocorre, porque é prova de que o carácter e os princípios se recolheram.  
A ética ensina que um profissional é único e não compartimentado por facetas que atendem diferentes contextos. De contrário, abrem-se brechas para o surgimento de situações passíveis de configurar conflitos de interesse e de levar ao questionamento da decência. Ninguém pode (nem deve) ser um jornalista no período diurno e à noite vestir o uniforme do activismo, por exemplo, em defesa de causas propensas a contradições com o alinhamento da empresa que também representa. Nem a lei, nem a deontologia precisam de ser chamadas para fazer testemunho disso. É tão lógico, que até arrepia que se pense o contrário.
O assunto é demasiado sério, mas a realidade quotidiana mostra que é encarado com leviandade; que recebe tratamento residual; subalterno. Estamos fartos de posts de colegas da  comunicação  social que, nas redes, reclamam da empresa para a qual trabalham; criticam-lhe “eventual mau procedimento” ou até sugerem a postura que devia adoptar num determinado contexto ou situação. Será mesmo preciso que se reafirme a estes navegadores a irresponsabilidade e a imoralidade dos gestos que afivelam? Ou que se lhes refira a falta de ética que semelhantes desdobramentos representam? Acaso saberão que as opiniões expressas podem abrir espaço a procedimento legal?
Por muito que às vezes se acredite no contrário, é a mesma e única pessoa o jornalista comprometido com uma empresa de comunicação e o fazedor de opinião, que, num outro momento, enche de comentários determinada rede social. Aliás, não poucas vezes, os meios usados para o envio de posts são do empregador e as duas actividades, a laboral e a de internauta, são consumadas a meias, em prejuizo da primeira e no espaço desta.
Em 2013, a norte-americana Justine Sacco, à época trabalhadora da IAC, conseguiu o repúdio internacional, ao postar uma mensagem onde afirmava que viajava para África e que esperava “não apanhar Sida”. Depois, concluiu o que pretendia que fosse encarado como simples diversão: “Estou a brincar, eu sou branca”. Exemplo mais evidente de postura irresponsável quase não existe. Na sequência, a empresa anunciou a demissão da funcionária, referindo que “estes comentários ofensivos não reflectem os valores da IAC” e que “não há desculpa para as vergonhosas declarações que foram feitas”.
Para trás, ficou um testemunho de que a empresa e o funcionário têm a imagem associada e que devem ambos fazer para uma co-existência harmoniosa. Ao segundo, cabe, quando no meio público, guiar-se por actos marcados pela responsabilidade e seriedade. É verdade que a ética não é de cumprimento obrigatório; é facultativa, ao contrário da lei. Aliás, ninguém pode ser compelido, sequer pelo Estado, a cumprir normas morais. Mas quando pisoteadas, as consequências podem chegar sob diferentes formas, sendo o repúdio geral quase certo.   
Por conseguinte, não tem força moral a alegação de que se exercita a liberdade de expressão quando um funcionário faz comentários depreciativos sobre, por exemplo, uma comunidade. A imagem do trabalhador está sempre associada à empresa. Igual falta de sustentação se coloca na situação em que se atira para o domínio do público informações de cunho privado, estritamente ligadas a uma instituição. Neste contexto, também são violados direitos de outros quadros, o sigilo que merecem os assuntos que cada um taxa como  privados.
O trabalhador deve lealdade à entidade empregadora. Pelo menos, enquanto não houver uma razão objectiva para a quebra da confiança. O sigilo profissional deve prevalecer! Limites para o espaço externo precisam de ser considerados. Choca contra esses princípios básicos a publicação de informações respeitantes a uma empresa ou a produção de comentários passíveis de descredibilizar a sua imagem ou chamuscar o seu bom nome. Assim, por que liberdade de comunicação e expressão clama quem posta comentários ofensivos à dignidade de colegas ou de responsáveis de uma instituição? Não há, nas redes sociais, posts privados. O que nelas se coloca, em grupos fechados ou não, acaba por se disseminar, por  viralizar, à velocidade da luz e em proporções incalculáveis.
À vista disso, o apelo a que não se veja nas redes sociais espaços para a extensão de problemas laborais  ou para a afixação de escritos opinativos, muitas vezes contrários ao pensamento da empresa que representamos, está longe de engrossar práticas identificadas com o asfixiar da liberdade de expressão. É, na verdade, um exercício de Pedagogia,  mais inclinado para o resgate da ética, do carácter, da moral, que, cada vez mais, perdem espaço para a ânsia quase generalizada de tudo publicar e sobre tudo comentar.

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