Opinião

Época de professar a solidariedade

Caetano Júnior

Se existe um período propício para recuperar (alguém que o tenha perdido) ou reforçar (quem já o professa) o sentido humanista, a valorização do ser humano, é este, que se vive nestes dias. Porque é Natal, um feriado religioso, cristão, mas que também é comemorado por não-cristãos. E se o Natal se abre para ateus, descrentes e praticantes ou fiéis de outras confissões religiosas, sinal maior de aproximação na diferença fica difícil encontrar.

A coabitação na diversidade é dos mais fortes indícios da aceitação do outro; do acolhimento do próximo. Este estágio deve abrir caminho à empatia, que guarnece o amor e nos torna solidários, capazes de sentir o sofrimento alheio e o tornar nosso, para então acudir. Esta época do ano é sempre diferente, porque liberta e sensibiliza. São, pois, instantes que aconselham a introspecção; pedem alguma auto-avaliação; exigem um olhar no retrovisor da vida, para inventariar as omissões.
Que Homens seremos nós, se não tivermos a coragem de olhar para trás e registar a quantidade de estilhaços a recolher e juntar, no rescaldo das acções que afivelámos ao longo de um determinado período de tempo? Já somos simples mortais. Logo, de curta duração. Marquemos, então, a nossa fugaz passagem pela existência com acções que valorizem a vida; com gestos que exaltem o próximo ou com atitudes que ajudem quem perde a dignidade a recuperá-la.
Não precisamos ser nem ordinários, nem insensíveis! Não nos devemos demitir de obrigações nossas, enquanto seres bafejados pelo dom do pensamento! Também não temos de nos arvorar em entes superiores, porque, entre nós, humanos, ninguém o é, embora muitos assim se suponham. Aliás, é o sentimento sobranceiro, o estado de arrogância, a razão primária para que homens se sobreponham a outros, humilhando-os, desprezando-os, escravizando-os, enfim, tolhendo-lhes as aspirações.
Estamos no Natal, época de profissão da solidariedade e de outros valores que lhe estão adjacentes. É tempo de prestar caridade, de estender a mão e assim aliviar a dor de quem mais precisa. O cliché "eu também não tenho" há muito tempo deixou de ser desculpa plausível. A determinada circunstância, chega, inclusive, a ser pecaminoso, ao nos darmos conta da opulência em que se acomoda quem alega faltar-lhe o que oferecer ao outro, que clama por uma côdea. Estar condoído é também dirigir uma palavra de conforto àquele que tem o ânimo em frangalhos, já à beira do precipício, para o qual resvalará ao sopro da próxima brisa.
Precisamos, todos nós, os Homens, de devassar o interior de nós mesmos a ver se sobrou, escondida, alguma da sensibilidade com a qual a Mãe Natureza nos brindou à nascença. Sim! Nascemos completos, com a confusão de qualidades e defeitos, latentes, adormecidos, à espera de que, ao longo da nossa história de vida, sejam, aos poucos, despertados. De certeza que os valores mais edificantes também os portamos, porque os ouvimos pregar. Precisam é de emergir, a ver se nos ajudam a nos tornar seres mais humanos e menos propensos aos episódios diários de desumanização que nos enregelam o coração e nos embaciam a visão.
Ainda que não tenhamos tanto para oferecer, porque também flagelados por eventos infaustos, pensemos, antes de qualquer veleidade, naqueles a quem, neste preciso momento, uma sopa quente, um cobertor ou outro agasalho aconchegante e um corpo no qual se apoiar ajudam a compreender quão ténue é a linha entre a vida e a morte.

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