Opinião

Espírito Natalino

Caetano Júnior

Eis-nos, de novo e uma vez mais, dentro do Espírito Natalino; colhidos, como a cada ano, na temporada dedicada à profissão da amizade, da tolerância, da partilha, enfim, da solidariedade; a mover-nos o amor ao próximo, como bem vincam os ideais do evento cristão que é o Natal.

É como um ciclo que se renova a cada 12 meses, deixando a expectativa de que o seguinte vá estender uma túnica verde de esperança, tão carregada, capaz de substituir a angústia de quem já não acredita no porvir. É por estes, os flagelados por todas as formas de sofrimento, que, nesta época, os sinos dobram, para que os consigamos valer.
Dias de consagração da existência, estes, de valorização da vida, de glorificação do ser humano. E essas premissas só serão honradas se nos compenetrarmos no apelo à nossa sensibilidade para a causa e o compromisso. Mas, antes que tudo, devemos despir-nos dos complexos que nos tornam arrogantes, dos males que nos tiram a humildade e das vaidades que nos deixam surdos para o clamor dos aflitos, hirtos para a necessidade de quem vive de mãos estendidas, enfim, insensíveis à dor alheia.
De facto, para atendermos os desígnios do Natal, precisamos, primeiro, de descer da condição sobranceira na qual muitos de nós habita e compreender que o “eu”, por tão poderoso que se julgue, é, também ele, insignificante sem o “nós”, sem a coabitação. São tão simples, mas prenhes de valor, os gestos solidários que nos engrandeceriam enquanto Homens e por via dos quais arrancaríamos sorrisos de gratidão de lábios infantis ou faríamos que descessem lágrimas de satisfação sobre rostos fustigados por dissabores.
Aliviar o sofrimento de pessoas tolhidas pela dor, de seres humanos sitiados pelo contexto de carência cada vez mais acentuada implica um esforço mínimo; não custa nem fundos, nem mundos. Vai da palavra de conforto ou do afago sobre a cabeça de um paciente acamado à côdea indispensável ao infeliz a quem calhou papel abaixo de coadjuvante na distribuição dos personagens no filme da vida. Pelo meio, muitos outros rostos, à espera de quem por eles sinta compaixão, desafiam a nossa sensibilidade; põem à prova a nossa resposta aos apelos por solidariedade.
Agradaria mais que a partilha, a doação ou um gesto de afecto não se circunscrevessem à meia dúzia de dias correspondentes ao “Espírito Natalino”. Bom mesmo seria vermos, ao longo do ano, amparados, acolhidos ou atendidos todos quantos sobrevivem como se tivessem que escolher, numa encruzilhada, o caminho a seguir, rumo a uma existência digna de um ser humano. Mas não é assim. E não sendo, a alternativa é pedir a quem tem um pouco mais que faça o gesto que se impõe; que reparta.
Afinal, a avareza é pecado e a “excessiva abundância”, sem que dela se beneficie quem não tem o mínimo, chega a ser indecente.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia