Opinião

Expectativas em alto

Victor Silva

Pela segunda vez, na presente legislatura, o Presidente da República vai fazer o discurso sobre o Estado da Nação na  Assembleia Nacional, respondendo a uma obrigação constitucional mas não só e apenas porque, em um ano de governação, tem mostrado uma coerência discursiva que vai no sentido de um maior diálogo com a sociedade, seja através dos representantes eleitos pelo povo ou directamente com várias franjas específicas e com a população em geral.

Há um ano, poucos acreditavam que o Chefe de Estado teria muito mais a acrescer no discurso sobre o Estado da Nação, depois da sua intervenção de investidura, uns dias antes, na Praça da República. Enganaram-se os pessimistas do costume, quando confrontados com uma nova realidade que lhes foi presente no diagnóstico então feito à situação que o país vivia e os caminhos para a sua reversão. Como se enganaram, algum tempo depois, quando o próprio Presidente da República, enquanto Chefe do Executivo, foi pessoalmente apresentar o projecto de Orçamento Geral do Estado de 2018.
Um ano depois, assiste-se, o que é normal em democracia, à subida dos decibéis de algumas vozes que se põem em bicos de pés, apontando o rumo daquilo que querem ouvir da boca do Chefe de Estado no seu discurso à Nação, com uma lista de exigências e pacotilhas de promessas de solução dos problemas nacionais tiradas de leituras apressadas e descontextualizadas de outras latitudes.
Neste primeiro ano de mandato, a dinâmica da nova governação tem tirado argumentos às vozes agoirentas de algumas franjas da  oposição seguidora da política do bota abaixismo e de muitos outros “ismos” e “istas”  em que se refugiam para manifestar o seu desapontamento pelo facto, chato, do povo não lhes dar ouvidos e ter confiado, soberanamente, a maioria a quem acredita poder dar respostas a muitos dos problemas com que as famílias angolanas se confrontam no seu difícil dia-a-dia.
Mais desesperados ficam quando, na hora do balanço deste primeiro ano, os números de popularidade  do Presidente da República subiram consideravelmente, como o comprovou a recente sondagem publicada neste jornal na última segunda-feira. Noventa e três por cento de aceitação popular, depois de um ano em que se reconhece que, materialmente, a vida ter sido mais difícil para a maioria dos angolanos, é um dado que não deve ser ignorado sob que pretexto for, nem mesmo o da credibilidade do estudo de opinião, que alguns já adiantam ter sido “de encomenda”...
Materialmente, o primeiro ano de mandato desta nova governação foi de poucas realizações. A vida das pessoas até piorou em alguns aspectos, comparativamente aos números  anteriores. Haverá, certamente, razões para tal e delas, acreditamos,  dará conta  o Presidente da República no seu discurso de amanhã no Parlamento. Mas não estaremos na adivinhação ou especulação se dissermos que as principais razões para esse descompasso, chamemos-lhe assim, entre o novo ciclo político e as condições de vida da população devem-se, essencialmente, à constatação de que a crise em que o país vivia mergulhado era muito mais profunda do que se podia imaginar. E se não bastassem os números esqueléticos da economia e das finanças, que embaraçam a execução de qualquer projecto político, havia (há) o estado moral da sociedade, profundamente mergulhada numa crise de valores em que o desenrascanço, o cambalacho e a ganância ganharam primazia sobre o mérito e o desejo de bem fazer.
Com melhor ou pior  gestão, com mais ou menos recursos, viu-se que era possível oferecer maior dignidade aos cidadãos, desde que atacado um problema que destrói esse desejo de bem fazer, que é a corrupção e a impunidade que quase estavam institucionalizadas em Angola e eram responsáveis pelo descaminho de muitos recursos que podiam e deviam estar ao serviço do país.
E é esse combate que tem sido levado adiante, desde a primeira hora, paralelamente às correcções macro-económicas que, por serem demoradas e talvez mais profundas do que se previa, só agora começam a dar sinais de alguma estabilidade.
O combate à corrupção e ao fim da impunidade não é mandar prender uma dúzia de ex-responsáveis ou dirigentes, que se julgavam membros de uma elite intocável, embora também passe por aí. Passa também, como é evidente, pela desconstrução de um sistema que estava a ser urdido e que visava, em nossa análise, o confisco do Estado a favor de uma minoria que dominava e queria continuar a dominar o país. Daí, o fim dos monopólios e oligopólios, o fim de ditas parcerias público-privadas que mais não representavam que uma forma de aumentar gananciosamente a riqueza desses privilegiados, do mesmo modo que agravavam os envergonhadores índices de desenvolvimento humano que ainda conhecemos.
E o número de processos que estão sob investigação, envolvendo ex-responsáveis, a todos os níveis, é demonstrativo do descaso com que eram geridos os bens comuns, não havendo aqui qualquer intenção premeditada de fazer julgamentos sumários na praça pública de  quem quer que seja, porque haverá sempre que respeitar o principio da presunção de inocência a que todos têm direito.
A moralização da sociedade será, por assim dizer, o grande trunfo deste primeiro ano de governação, a par, como se disse, do impacto das medidas macro-económicas, mas sobretudo pela abertura democrática que tem sido promovida, seja no plano da comunicação social quer no respeitos das liberdades e garantias dos cidadãos, como também  nas políticas de diálogo e inclusão, que já permitiram ultrapassar alguns diferendos  que se arrastavam no tempo e na história, em prol da coesão social e da reconciliação nacional.
As exigências para este segundo ano são outras e passam por dar maior e melhor resposta às necessidades dos cidadãos, da economia e das finanças e das políticas públicas, sem que a conta seja sempre paga pelos mesmos do costume.
As premissas estão lançadas e os resultados irão, seguramente, surgir à medida que todos nos adaptemos ao novo normal,  deixemos os títulos e rótulos para os museus e saibamos conviver na diferença, mas pensando Angola em primeiro lugar!
 


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