Opinião

Falta de vergonha

Víctor Silva

A revelação de que cerca de cinco mil milhões de dólares do erário foi desviado para formar, fomentar e alavancar impérios privados é uma das pontas do véu que faltava desvendar para provar o estado de impunidade geral que se havia instalado entre nós, com uma elite selecta a apropriar-se dos bens de todos em proveito próprio, obedecendo a uma estratégia que visava o controlo do país, económica, política e militarmente.

Pessoas e grupos que se arrogam serem grandes empreendedores não passam, afinal, de privilegiados que se valeram das mais diversas situações: de proximidade, familiar, conivência ou omissão, para acumularem riqueza que pensaram reconhecer como herança, por procuração. Era a substituição dos colonos portugueses pelos novos senhores feitos excelências com a acumulação primitiva de capital.
E como não acabam por decreto, nem apenas com vontade política ou acção policial, sobretudo quando se barricam atrás de muros que foram construindo no imaginário de serem intocáveis, vão orquestrando as mais criativas formas de procurar “restabelecer a ordem”, invertida em Setembro de 2017.
A tese do “saio, mas fico” há muito que vinha sendo ensaiada. E era repetida até a rouquidão pelos altifalantes da propaganda que insinuavam uma subordinação governamental ao aparelho partidário ( são os partidos ou coligações que concorrem) e uma legitimidade de liderança que se estendia até 2021, data estatutária de um novo conclave ordinário do MPLA. A bicefalia no seu esplendor, com o novo Presidente da República limitado nos seus poderes e na execução do programa de governo, sufragado nas urnas que tem precisamente como mote o slogan “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”.
A abertura informativa, entretanto verificada, tem mostrado que o que esta(va) mal é de uma dimensão tal que será necessário mais do que um ciclo político para corrigir, a começar pela mudança de mentalidades.
A ganância cegou essa elite que, na sua ambição insaciável, só olhava para o seu umbigo, deixando o país real entregue à sua sorte e onde uns quantos “chicos espertos” aproveitaram (e continuam a aproveitar) as falhas do sistema para também eles se encherem de dinheiros alheios, ostentando sinais de riqueza que dificilmente conseguirão justificar.
Ela é a gasosa, a extorsão, a “micha” para fazer andar um papel, fugir a uma penalização, obter vistos de entrada e permanência, ditar sentenças, uma promoção ilegal ou ter uma condição indevida de antigo combatente ou reformado, para um grau académico não obtido, uma licença ou alvará e para os mais diversos fins, sobretudo na administração pública, mas não só.
A chamada baixa corrupção que, somada, acaba por representar também um enorme prejuízo financeiro, mas que tem um efeito moral muito grande na sociedade, porque criou a ideia de que o crime compensa já que a impunidade era a prática quase generalizada.
Confrontada, agora, com medidas que visam tornar Angola num país normal, onde as oportunidades sejam proporcionais para todos que as saibam aproveitar de forma lícita e transparente, a elite predadora não se cansa de engendrar as mais diversas campanhas para tirar lustro às iniciativas, falando insistentemente em justiça selectiva, perseguição, caça às bruxas, rabos de palha e tendo, até, o desplante de diminuir o impacto dos seus desvios nas contas públicas, indo buscar outros exemplos do saque que era servido no banquete, como o “crédito” junto da banca comercial pública, nunca reembolsado.
Cônscio do mal que representa, o MPLA fez do combate à corrupção a bandeira eleitoral e tem agido em conformidade, sabendo, evidentemente, que alguns dos seus membros poderão ser afectados, como tem estado a acontecer.
Em política não há lugar para acasos ou improvisos e por isso as implicâncias desse combate nas hostes do partido no poder em Angola não foram, seguramente, ignoradas pela sua direcção ao ponto de alguns visados estarem a apostar todas as fichas numa alegada crise política no país e, principalmente, no MPLA como consequência do fim da impunidade e da restituição dos valores surripiados ao verdadeiro dono.
As expressões “chocante e repugnante” usadas para qualificar o desvio de verbas públicas para interesses privados podem até não ser suficientemente enfáticas para descrever a situação em que vivíamos e que nos deixa nesta condição emergencial permanente.
Esquecem-se, propositadamente, das oportunidades que foram dadas com a Lei do Repatriamento de Capitais e Bens e ainda assim avançam com tentativas de novo perdão configurado na manutenção património, até porque o Estado está a privatizar algumas das suas empresas.
Como diria o povo: ua kamba ô sonhi! Tenham vergonha na cara!

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