Opinião

Greta Thunberg, 16 anos

Caetano Júnior

Greta Thunberg é uma activista sueca. Tem 16 anos e faz da defesa do ambiente a bandeira, que desfralda ao vento como alerta para as ameaças que pairam sobre a natureza. Greta empreende, nesta altura, uma viagem aos Estados Unidos da América, pelo Oceano Atlântico.

Ela segue a bordo de um veleiro do Reino Unido, apetrechado com as condições mínimas para a sobrevivência humana. Um “lenho leve” - como lhe chamaria o escritor - livre de luxo, porque sem espaço para dormir confortavelmente, nem casa de banho, além de que garante a neutralidade de emissões. Esta era, aliás, a condição inegociável para que a activista aceitasse empreender a viagem.
A adolescente cruza o trecho do Atlântico Norte num iate, o Maliza II, com o objectivo de alertar para a ameaça que representam as alterações climáticas. Por outro lado, quer, também, chamar a atenção do mundo para a existência de alternativas aos transportes poluentes, como são os aviões. Portanto, exactamente para poupar o ambiente, Greta viaja num meio ecológico, equipado com recurso a fontes renováveis por turbinas eólicas e painéis solares. Porque não basta ser, é preciso parecer, a viajante guarneceu-se do aparato “amigo da natureza” para mostrar ao que foi, quando irromper Cimeira do Clima da ONU adentro, em Nova Iorque, na última semana do próximo mês, e disseminar a sua mensagem central.
Greta encarna a coragem que dificilmente se reconhece num ser humano aos 16 anos. Talvez por isso reúna os milhões de simpatizantes que não a perdem de vista e lhe incentivam a seguir o caminho por que optou, quando, há pouco mais de um ano, começou a professar o activismo ambiental, na sequência dos incêndios e ondas de calor que abalaram a Suécia. A mãe-natureza precisa, de facto, que por ela se interceda, numa altura em que abundam relatos diversos da acção do homem sobre o ambiente, cujas consequências chegam a transformá-lo ou a alterar-lhe o sentido.
Até com peixes retirados do mar corremos riscos. Ao tê-los como alimentos, dá-se a possibilidade de tragarmos plástico, tal é a quantidade desse lixo existente nos oceanos. É aterrador saber que o Mar Mediterrâneo, que tem cerca de 2,5 milhões de quilómetros quadrados de área e banha 22 países da Europa, África e Ásia, é o mais poluído do Mundo. Hoje, assiste-se a conflitos entre homens e animais por causa de espaço, ao mesmo tempo que se testemunha o degelo de regiões do Árctico. O homem sequer se dá conta de que concorre para a auto-punição; que caminha para a auto-destruição.
É, pois, destes alertas que o mundo precisa; é desta consciencialização para a importância do ambiente que a humanidade carece, mas feita, sobretudo, por adultos. Greta cumpre a sua parte; excede-se até. Por isso, não lhe dão descanso os críticos, que a avaliam como uma marionete ao serviço de outros interesses. De facto, tê-la à cabeça de tão arriscado projecto chega a ser arrepiante, assustador mesmo. Ainda mais alguém a quem a condição de adolescente obriga a que tenha a atenção virada para outras actividades, como a escolar, por exemplo, que lhe dão as ferramentas indispensáveis para encarar o futuro.
Greta preferiu suspender os estudos, ao 9º Ano, e mergulhar nas profundezas do activismo em defesa do Ambiente. Mas era preciso tanto? Ela sempre pode ajudar a proteger a Natureza, fazendo-o, porém, sem se exceder, sem radicalismos, sem comprometer os estudos, de forma a deixar para os adultos as atribuições mais exigentes e arrojadas deste importante trabalho. Os próprios colaboradores - o pai incluído - deviam dar outra perspectiva à presença da adolescente, minorando-lhe os riscos. É verdade que a intervenção - instrumentalização, para os críticos - de uma menor, enquanto protagonista, numa acção destas parece mais apelativa e propensa a atingir diferentes sensibilidades. Mas era preciso, antes, avaliar causa, meio e impacto.
Os esforços, a coragem, enfim, o gesto da menina merecem a mais elevada consideração, mesmo de quem nutre antipatia para com as questões ligadas ao ambiente. Parece, contudo, que pouca gente estará disposta a seguir-lhe as pisadas. Pelo menos no capítulo da preservação do meio relativa “à existência de alternativas aos transportes poluentes, como são os aviões”. Quantas pessoas entrariam num “Maliza II”, para uma viagem nas condições em que faz a sueca? Não se coloca a questão por, eventualmente, a mãe-natureza desmerecer o sacrifício. O problema é o risco para a integridade física e o desconforto geral de quem se submete à façanha. Soa a um recuo ao tempo dos descobrimentos; à época das viagens de exploração marítima. E fica a impressão de que, para o caso, o avião é a alternativa, independentemente do mal que representam os gases poluentes.
Portanto, é preciso alguma razoabilidade nos apelos a esforços para que se cuide do planeta. Há sacrifícios muito difíceis de atender, porque implicam outros males, às vezes maiores. Decorrem, um pouco por todo o mundo, campanhas de sensibilização para a necessidade de se preservar a natureza, com dicas práticas sobre como o fazer. Por exemplo, a redução (em muitos casos, o fim) da produção de sacos de plástico chega a ser um apelo geral. Aos poucos, a consciencialização ganha espaço sobre o cidadão, embora determinadas contingências propiciem resistências. Afinal, em lugares onde a carência ameaça a sobrevivência, a escolha entre a vida e o ambiente é óbvia.
De qualquer forma, fica assinalada a convicção de Greta, que deve merecer sempre espaço e justiça, quando a protecção da natureza for o cerne da discussão. Que a viagem lhe esteja a correr de feição.

 

 

 

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