Opinião

Harmonizar interesses em nome do Jornalismo

Caetano Júnior

O jornal norte-americano “The New York Times” publicou, há alguns dias, um artigo de opinião sem identificar o autor. O diário limitou-se, à guisa de contextualização, a assinalar que a autoria é de um alto funcionário da administração Trump.

O texto, de acordo com a Media internacional, denuncia a existência de um grupo de oficiais, dentro da Casa Branca, que “tenta frustrar partes da agenda e os piores impulsos” do Presidente dos Estados Unidos. Portanto, a matéria nunca passaria silenciosa aos olhos mais atentos, por envolver o país e a figura, para muitos, mais relevantes do mundo.
O assunto ganhou, contudo, proporções adicionais, porque suscitou questionamentos jornalísticos e deontológicos. Para algumas publicações, o “The New York Times” desafiou os cânones do Jornalismo. Assim, duas perguntas, para já elementares, sobrepuseram-se: deve um jornal publicar uma opinião sem identificar o autor? Está o interesse público acima da transparência?
Embora as interrogações possam encontrar respostas antagónicas, à primeira não devia haver dúvidas: o texto opinativo revela o ponto de vista de quem o produz. Portanto, a assinatura não apenas responde a uma exigência do Jornalismo, como ajuda a credibilizar o escrito, na perspectiva, por exemplo, de que não se trata de alguém movido pelo desejo de fazer acusações gratuitas, sob a  camuflagem do anonimato.
Por outro lado, urge acentuar, cada vez mais, os limites fronteiriços entre a opinião e a informação. Nesta, o elemento mais nobre é a notícia, marcada, essencialmente, pela objectividade e isenção, falha de juízo e precursora do “grau zero” da linguagem.
É preciso, igualmente, reafirmar que o Jornalismo deve manter inequívocos, sem ambiguidades, os géneros por que responde. Pelo menos, assim, não estará a contribuir para o caos já instalado, que torna a notícia, a opinião, a publicidade e o entretenimento transfronteiriços, ocupando espaços uns dos outros, sem se estabelecer onde começam e terminam.
A decisão do “The New York Times” vai para lá de contribuir para aumentar a confusão na cabeça de quem busca entender as particularidades dos géneros do Jornalismo. A publicação do artigo, sob anonimato, baixa a natureza de procedimentos do diário ao nível do que se assiste nas redes socais. Aqui, tudo se irmana, porque faltam normas, regras, enfim, desabita a ciência. Nestas estruturas, o abuso e a ofensa têm campo aberto; o grotesco recebe “likes”, o imoral ganha adeptos e o decente é ridicularizado, porque escapam, a muita gente que delas faz uso, aspectos ligados ao senso crítico, à ética e à educação.
Um jornal como o “The New York Times”  jamais abdicaria da prioridade que lhe merecem o interesse público e o direito à informação, para já, elementos inalienáveis. Dai que os tenha sobreposto à transparência, ao ponto de ignorar normas básicas que regem o exercício do Jornalismo, publicando um texto opinativo sem identificar quem lhe serviu de útero; quem o expediu para a luz do dia.
Mas há, em situações semelhantes, como harmonizar os diferentes interesses, sem que para isso se faça ruir o edifício deontológico ou se apunhale o interesse público e o seu aliado direito à informação. O conteúdo podia, perfeitamente, sair para a vida, embora sob outra forma, como notícia, por exemplo. A inserção do artigo num Editorial - texto da inteira responsabilidade da publicação - também seria alternativa equilibrada.  
O desconfortável “estado de opinião” para onde o “The New York Times” levou o Jornalismo deve colocar-nos de sobreaviso para o que é um torpe proceder. Nós, em Angola, que, a pretexto de ensaiar novas tendências, desvirtuamos modelos e desrespeitamos limites, construindo textos disformes, híbridos, nos quais a informação e a opinião se irmanam na tarefa de destroçar a compreensão do leitor.
Nestas circunstâncias, “ensaiar novas tendências” pode configurar um recurso para agilizar a manipulação do público menos avisado. Ter-se-á o diário norte-americano socorrido deste expediente?

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