Opinião

Heróis da Informação

Caetano Júnior

Já aqui referimos, ainda nestes tempos marcados pelo mal-supremo, a Covid-19, que o jornalista era dos profissionais que mais arriscava a vida em ocorrências que a outros grupos dizia particularmente respeito.

A natureza do trabalho que faz obriga-o a estar presente nas mais diferentes e inimagináveis frentes. Nestes tempos de eclosão da ameaça invisível, é de tal forma iminente o perigo que os cerca, que agora contam-se entre as vítimas, infectados e mortos.
A Press Emblem Campaign (PEC), ONG com sede em Genebra, catalogou pelo menos 210 jornalistas mortos desde Março, em 38 países, pela Covid-19. A organização, que tem prestado homenagem a estas vítimas pelo mundo, considera o trabalho dos profissionais da imprensa importante no combate ao vírus. Aliás, acrescenta, a segurança dos trabalhadores da Media está particularmente em risco, porque devem continuar a procurar, no terreno, e testemunhar factos, ao mesmo tempo que visitam hospitais e entrevistam médicos, cientistas, enfermeiros e pacientes. Muitos deles morrem devido à falta de medidas de segurança, enquanto fazem o trabalho que os move.
O perigo que paira sobre a integridade física do jornalista ganha particular relevo num contexto em que o público o tem como fonte mais credível para saber sobre a pandemia. A Federação Internacional de Jornalistas confirma que “os cidadãos recorrem agora mais à imprensa profissional”. Pelo menos nestes tempos, cortaram o crédito (?) que atribuíam às Redes Sociais, hoje vistas sobretudo como promotoras de desinformação e inverdades. Este retorno do leitor à Media tradicional obriga os profissionais a ela ligados a reforçarem a busca por informação credível, de interesse, o que os deixa vulneráveis ao contágio e a outras ameaças.
Há poucos meses, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) tornou pública uma lista de jornalistas, meios de comunicação e denunciantes que contribuíram, com o trabalho a que se dedicam, para a protecção de vidas durante o novo coronavírus. De acordo com a organização, esses “Heróis da Informação” representam todos os continentes e, ao publicar informações fiáveis sobre a gravidade da pandemia ou denunciar disfunções na gestão, pelas autoridades dos respectivos países, contribuíram para resistir à censura e lutar contra a desinformação que deixa em risco a saúde da população.
Vários desses heróis, prossegue o relatório da RSF, pagaram cara a luta pela verdade: enfrentaram agressões ou assédio, prisão, processos ou ameaças. Outros acabaram exilados ou impedidos de exercer. Ataques a esses profissionais também constam das infelizes estatísticas. A organização contabilizou mortes na América Latina, na Europa, na Ásia, na América do Norte e em África, dois terços das quais directamente relacionadas à actividade da imprensa. Mas os números podem ser maiores do que os anunciados, já que há casos por registar.
Soa redundante lembrar o lugar da Media na luta contra a Covid-19. Portanto, ao tributo internacional, juntamos profissionais angolanos, alguns deles ainda na forja - a mais nova geração de quadros do sector -, para, aos poucos, irem substituindo quem já esteve na posição que agora ocupam.
A cobertura noticiosa sobre a Covid-19 em Angola é feita, sobretudo, por jovens, voluntariosos, muitos deles no dealbar da carreira, se calhar a adaptarem-se ainda à responsabilidade que têm em mão. São meninos e meninas que, de repente, se viram numa frente de informação essencial à vida dos compatriotas, mas que nem por isso deixaram de cumprir com as obrigações que o profissionalismo lhes impõe. Com falhas, gafes, omissões ou enganos, que resultam da inexperiência, realizam a tarefa que deles a sociedade espera: informam.
São, pois, eles que, vez por outra, colocam as chamadas interrogações toscas, ou nem “sempre pertinentes”, destas que encontram respostas mudas. Mas, diz a sabedoria, toda a pergunta é válida, desde que exista o genuíno desejo de aprender, o desígnio de obter informação, no caso. São também eles que, traídos pela ingenuidade, querem saber o óbvio ou ir muito além do que deve ser conhecido e logo são surpreendidos com respostas pouco simpáticas, destas que beiram a deselegância. Desapontados? Nunca! Sabem que mais dissabores os espera, neste percurso que os leva à consagração profissional.
Resilientes? Sim! São-no. No dia seguinte, estão lá de novo, na conferência de imprensa, para a actualização de dados, ou num trabalho de reportagem numa qualquer unidade hospitalar, num centro de quarentena ou num lugar de testagem. Já refeitos do choque anterior, prontos para cumprir com o dever que os chama. Resistam. Errem, enquanto podem, enquanto tiverem margem para o fazer, e acumulem experiência suficiente para vos conferir maturidade. É Jornalismo. É duro. Mas é vencedor!
São estes mais novos, meninos e meninas, os nossos “Heróis da Informação”. Conhecem os riscos a que se submetem e correm-nos em consciência, porque anima-os o dever de informar: a notícia que não pode esperar, a reportagem que se impõe ou a entrevista esclarecedora. É verdade que os assusta o perigo, em determinadas circunstâncias; não noutras. Porque jornalista que se preze tem consciência das ameaças inerentes ao trabalho que escolheu fazer; ele vive em permanente estado de ebulição: protesta, reclama, lamenta a vida de risco, estressante, por que optou. Mas regressa amanhã e amanhã e amanhã. Está-lhe no sangue e corre-lhe nas veias o hábito de buscar para trazer. Afinal, informação é poder.
É desses jovens que dependemos todos para estar informados sobre a Covid-19 em Angola. São, para nós, a ponte entre os factos e o conhecimento público. Independentemente da qualidade da informação que nos fazem chegar, se marcada por gafes, se preenchidas com omissões, temos como certo o básico, o essencial por saber. Eles são os meninos e meninas que asseguram o futuro da profissão em Angola. Por eles passa, necessariamente, o Jornalismo que triunfa.

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